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Romper a fantasmagoria dos territórios (Território Suape, 2020)

Esse texto faz parte da cobertura do 24º forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte

Então, montagem é conflito.

(Sergei Eisenstein)

1. Em Território Suape (Cecília da Fonte, Laércio Portella, Marcelo Pedroso, 2020) encontramos uma perspectiva agonística de um conflito urbano em Pernambuco: a construção de um bairro planejado de “alto padrão” por uma grande construtora na região do complexo portuário e industrial de Suape – terra a 40km da capital Recife. Para a criação dos bairros de luxo é necessária a transferência dos habitantes da região para outra localidade. Seguir os agentes sociais enredados neste processo social é a tarefa do filme, o que resulta numa complexa imagem dos conflitos urbanos – ou a “guerra dos lugares” – no Brasil contemporâneo. O filme parte para uma escuta atenta destas pessoas, nos apresentando uma variada gama de sujeitos e suas interpretações do processo em questão. O bairro luxuoso Reserva do Paiva e o novo empreendimento imobiliário apresentado pela propaganda inscrita no filme se choca com imagens da região periférica e rural de Cabo de Santo Agostinho, cidade de maior vulnerabilidade para jovens negros no Brasil.   2. O filme começa com um plano aéreo de drone das redondezas do complexo portuário e industrial de Suape. Um resquício de vegetação habita o solo fatiado pela atividade extrativista. Um corte nos conduz ao plano das máquinas cuspindo fumaça no céu nublado – a fumaça da indústria se mistura com as nuvens distantes. Outro corte nos transporta para a Nova Vila Claudete, bairro criado para acolher as famílias que foram removidas para a construção de um bairro planejado de “alto padrão”. A aridez da região se apresenta tanto pela paisagem circundante quanto pelas casas idênticas e calorentas. Este material é amarrado na montagem à imagens da região do Cabo de Santo Agostinho. O filme opera um claro contraste entre os territórios ocupados pelas pessoas pobres e os bairros de luxo planejados, seja a Reserva de Paiva ou o ambiente futurista e arborizado da propaganda do novo empreendimento da grande construtora. A flecha única do progresso é mais disputada do que costumamos pensar.  3. Esta obra se estrutura em três eixos: observação do processo social, exposição da estrutura institucional e diálogo com sujeitos que atuam no espaço que as cineastas investigam. A câmera observa um espaço multifacetado e carregado de contradição cuja dinâmica envolve uma miríade de histórias relacionadas. Território Suape se coloca na função de participar ativamente deste processo de transformação pela exposição dos pontos de vista envolvidos na produção dos espaços. O filme arranca do chão das relações sociais sua poética etnográfica. No entanto, trata-se de uma etnografia crítica. Seu principal armamento é a montagem. 4. O filme apresenta um esforço de descrição dos territórios envolvidos na disputa em questão e diálogo com pessoas de posições antagônicas no que diz respeito ao processo social observado. A obra acolhe a mise en scène não apenas dos excluídos do desenvolvimento, mas também de uma fatia dos vencedores da disputa: os diretores da grande construtora responsável pelo projeto do bairro planejado Reserva do Paiva. A escuta das explanações da dupla de empresários entrevistados e a inscrição do material de propaganda audiovisual do projeto são o bastante para termos uma clara imagem da perspectiva dos vencedores deste conflito. Seu discurso celebratório se torna aterrador pela relação que a montagem instaura entre o ponto de vista dos empresários e a perspectiva das pessoas removidas pelo empreendimento imobiliário.     5. A montagem de Território Suape procura romper a fantasmagoria do território investigado. O discurso harmônico dos empresários e a propaganda do projeto em questão escondem as relações sociais assimétricas que fundaram o bairro. Tal qual Brasília, a fundação da Reserva de Paiva e os novos projetos imobiliários da construtora produzem seus outros: os habitantes do Cabo de Santo Agostinho. Se o processo de modernização da região pela instauração do bairro de “alto nível” ofusca sua origem aterradora a partir da estetização do projeto de desenvolvimento e modernização da região (pense, por exemplo, na propaganda do projeto) os cineastas respondem com a politização do cinema. Na montagem, o discurso dos representantes do empreendimento imobiliário entra em conflito com as histórias de vida daqueles que foram transferidos para outra região. As mentiras brotam da tensão entre perspectivas antagônicas. 6. Um aspecto relevante deste filme é a apresentação de sujeitos periféricos cuja aparição descortina um horizonte de resistência. O avanço do grande capital e da especulação nos territórios a despeito das vidas que ocupam estes espaços de interesse imobiliário encontra uma resposta na militância de Gleydson, os estudos de Zé Henrique, na poética de Ogro, nos trabalhos de Edilene e Binha, na irreverência de Josefa Maria. A presença desses personagens entra em choque com o discurso dos personagens ligados ao grande capital, se afirmando como uma presença disruptiva que interrompe a imagem harmônica do empreendimento. 7. Uma orientação combativa anima a obra. O ponto de vista dos oprimidos se choca, pela montagem, às explicações dos empresários e as propagandas do empreendimento imobiliário, tornando este processo e seu aparato audiovisual uma arbitrariedade inaceitável. A obra trilha um caminho entre a descrição, o diálogo e o confronto de pontos de vista. O pensamento do filme é dialético e a síntese fica para o espectador.

João Paulo Campos

Crítico e pesquisador de cinema. Mestre e doutorando em Antropologia Social (FFLCH-USP). É pesquisador associado ao NAPEDRA-USP, onde estuda as formas de aparição das cidades no cinema contemporâneo brasileiro, com ênfase nos filmes de Adirley Queirós. Faz parte do grupo de programadores do cinecubo IAB-SP e é co-editor da Zagaia em Revista.

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