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Quem sou eu? (Marco, 2021)

Há anos acompanho as produções da multiartista Julia Baumfeld na fotografia, videoarte e cinema. Seu trabalho é motivado tanto por uma experimentação em torno das texturas possíveis em cada forma expressiva como por uma busca existencial pelo seu lugar no mundo da arte e na história de sua família. Inspirada por artistas como David Perlov e Jonas Mekas, a autora tem dado forma a suas angústias cotidianas através do exercício do cinema diário. Além disso, suas obras têm explorado seu passado e de seus familiares a partir de imagens de arquivo em VHS registradas por seus pais.

Anos atrás, a autora encontrou uma caixa repleta de filmes caseiros que contam, ao seu modo, a história de sua família nos anos 1980. Verdadeira caixa de pandora que foi de encontro à artista para provocar uma pergunta simples, porém dolorosa: quem sou eu diante dessas imagens? Se filmes como Era (2017) e Todas as casas menos a minha (2018) tratam dessa memória familiar e buscam situar a artista em um presente de inquietações existenciais, seu novo curta-metragem, intitulado Marco (2021), sinaliza um desvio na jornada artística da autora em direção a seu diálogo com outra pessoa, o inventor Marco Antônio Guimarães. Trata-se de um personagem que, como escutamos no filme, é de suma importância para a educação sentimental da realizadora mineira.

O valor dessa obra vai além de um simples retrato de um grande artista que já trabalhou com grupos e pessoas como Uakti e Philip Glass, além de ser responsável por trilhas sonoras de obras importantes do cinema nacional. O que conta no filme de Julia Baumfeld diz respeito à linguagem documentária e, portanto, à pesquisa estética em processo na vida da autora. Diferentemente de seus outros filmes, este novo curta-metragem coloca a cineasta em cena e registra seu diálogo sussurrante com Marco Antônio, gesto que coloca em risco o próprio desejo de formular um retrato bem articulado do artista: uma câmera trêmula e tateante nos é revelada ao longo do filme que, por um caminho dialógico, procura mimetizar os fortes laços sentimentais que ligam a cineasta e o inventor. Os planos fechados e a câmera na mão corroboram para uma experiência próxima com o interlocutor de Julia Baumfeld, trazendo para perto do público a amizade entre as duas pessoas. Tudo se passa como se o filme quisesse acolher o corpo e o sereno discurso do artista.

Por fim, posso dizer que a obra de Julia Baumfeld, em diálogo com cineastas como Chantal Akerman, Jonas Mekas e David Perlov, se mistura com sua vida interior que mescla serenidade e tumulto, resolução e crise. Em seus filmes podemos seguir, portanto, as tortuosas linhas de fuga de uma artista que, antes de mais nada, quer se situar no mundo através de sua arte. Esta é, com efeito, uma jornada em busca de um estilo que nos sussurra: quem sou eu?

Crítico e pesquisador de cinema. Mestre e doutorando em Antropologia Social (FFLCH-USP). É pesquisador associado ao NAPEDRA-USP, onde estuda as formas de aparição das cidades no cinema contemporâneo brasileiro, com ênfase nos filmes de Adirley Queirós. Faz parte do grupo de programadores do cinecubo IAB-SP e é co-editor da Zagaia em Revista.

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