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Rastilho de pólvora (Quando falta o ar, 2022)

Ainda na década de 1960, quando o cinema direto surgia como movimento estético com alguma coesão e capaz de plasmar uma força cinematográfica própria, o documentarista estadunidense Frederick Wiseman já produzia trabalhos que exploravam o cinema de observação como forma de compreender o funcionamento de instituições de saúde pública. Quando falta o ar, das diretoras Ana Petta e Helena Petta, filme vencedor da edição 2022 do festival É tudo verdade, caminha em direção semelhante e dialoga com esta tradição. Neste Brasil das desigualdades regionais, dos vários mundos postos juntos dentro da nação, o SUS fascina por sua extensão, capilaridade e sua forma sistêmica de funcionar, ainda que nem sempre com excelência. Ana e Helena Petta filmaram o funcionamento metabólico do Sistema Único de Saúde durante alguns meses de aguda crise da pandemia de COVID-19. No percurso que o filme desenha acompanhamos o trabalho de médicas, enfermeiras, agentes comunitárias de saúde em hospitais, UPAs, no sistema penitenciário e nos bairros e territórios.

Mobilizando uma certa fórmula reconhecível no interior do documentário brasileiro contemporâneo – a valorização do corpo em sua dimensão performática, o uso de planos fixos e dilatados, a construção de um tempo cotidiano lento e pulsante -, o filme mergulha (mas não de cabeça) no registro da observação direta do funcionamento do sistema de saúde. Entrevistas tornam-se vozes over, depoimentos que conduzem, às vezes de forma didática, o que se vê. Vem à tona situações potentes, que nos informam tanto a respeito da brutalidade da pandemia – este rastilho de pólvora a correr o país de casa em casa, bairro em bairro – quanto da saúde pública em sua dimensão de rede de proteção social tão importante quanto precária.

Assim, em cena: uma médica de família e comunidade do Recife tem com sua paciente – sentada na sala de casa – a delicadeza no trato que sabemos não ser a tônica na crônica massacrante do dia a dia. Outra médica, agora em um centro penitenciário na Bahia, elenca a religiosidade como elemento de cura, sublinhando a dimensão antropológica presente no encontro entre saúde, doença e linguagem do corpo. É ela também que faz a defesa mais explícita do serviço público: formada pela universidade pública, dedica-se, por ofício e em retorno, a este mesmo Estado que a formou. Em outra cena, o detento que regozija o teste negativo – está livre por hora da doença -, mas pede ao médico, por falta de outro interlocutor, sandália e lençol. Acolhimento e precariedade se sobrepõem.

População carcerária que, grande símbolo da arquitetura da exclusão nacional, o filme acerta em registrar. A cadeia na Bahia é um edifício sinuoso. Foge à ideia do vigiar e punir foucaultiano para lembrar uma arena da onde se mira o futebol jogado lá embaixo. Ou um conjunto habitacional, casa a casa, vizinho a vizinho, fazendo rima com a linguagem visual do estado do bem estar social – ideia um tanto fora de moda. De volta a Pernambuco, a agente comunitária que encerra o filme nos abre uma pequena frincha para entrarmos no lar onde vive com filha e neta: a criança pergunta à avó se ela passou o álcool, medida que autoriza o abraço, expressão do afeto.

Em um hospital paranese, o filme enfrenta a violência do pico da crise. Perde um pouco a mão, ao flertar com o sensacionalismo, com o fetiche da imagem que retrata o macabro. Aciona o conhecido episódio da falta de oxigênio e recria a atmosfera da falta de ar. Em outra passagem, a câmera chega antes da equipe funerária que retira de casa um morto pela covid. Há intimidade com os gestos de morte que estes dois anos de traumas coletivos infelizmente nos legaram. A montagem faz associações interessantes, se aventurando no campo da forma própria ao cinema ensaio.

O formato do documentário é híbrido, às vezes baseado na observação mais crua, às vezes calcado na imagem de cobertura prosaica nas quais personagens reencenam pequenos gestos do dia-a-dia, símbolos já gastos do repertório médico e da saúde coletiva no imaginário social. Fica claro o fascínio pela paramentação e pelos rituais profissionais. Coloca-se e tira-se o EPI, equipamento de proteção individual. A roupa que lembra a ficção científica invadindo o Brasil profundo, evocando o léxico sanitarista que tanto marcou o país da Revolta da Vacina.

O encontro, enfim, no alpendre da casa entre um agente de saúde e a senhora que tem COVID. Ela não pode sair, ele informa, contaminará outras pessoas. O gesto é de ensino, pedagógico, mediado, jogo jogado dentro de um mesmo universo. O léxico da saúde, do jornalismo, da TV, encontra o bairro e a vida cotidiana, se avizinha dos corpos verdadeiros, de trabalhadoras, aposentadas, idosos e crianças. Os elementos fora de lugar. Tão fora como nunca estiveram, no Brasil do obscurantismo, do anticientificismo, do gangsterismo tornado política pública; contra o público, contra o povo.

A densidade do tempo recente é tamanha que imagens do ano passado soam como imagens de arquivo, carregadas de significados que o tempo tratou de pulverizar e inverter. Quando falta o ar permite olhar a pandemia à contrapelo, com olhar sensível sobretudo para a fundamental dimensão de bem público que é o SUS. O registro de sua pulsante vitalidade num país plural, desigual em tantos sentidos, marcado por corpos e linguagens diversos. O retrato criado é bonito, ainda que revisite lugares comuns. A certeza que fica é que foram anos de traumas coletivos profundos, que precisarão ser elaborados. Que o cinema possa de alguma forma ajudar nesta tarefa.

André Manfrim é documentarista, pesquisador e professor.
É pesquisador no PPGMPA na ECA USP. Integra o grupo de pesquisa
História e Audiovisual: circularidades e formas de comunicação.
Dirigiu e roteirizou o seriado Habitação Social - Projetos de um
Brasil (TV Cultura, Amazon Prime Video). É também professor de
documentário e cinematografia no Instituto de Cinema, em São Paulo.

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