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Quando a forma não perturba (A colônia, 2022)

Este texto faz parte da cobertura da 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Os primeiros momentos de A Colônia são dedicados a reprodução de um áudio institucional que apresenta a arquitetura de isolamento de pessoas diagnosticadas com hanseníase no século passado. Uma trilha sonora triunfalista preenche os silêncios da voz enquanto percorremos fotografias antigas que retratam o cotidiano na colônia agrícola. Às acomodações, divididas entre corpo administrativo e pacientes isolados, somam-se esparsas figuras humanas, envoltas pelo anonimato de registros que lhes situam sempre ao plano de fundo ou escanteio da composição de quadro. A antiga história da hanseníase foi frequentemente contada nesses mesmos termos: o desaparecimento dos corpos era acompanhado dos discursos da sanitização do espaço público e do elogio às estruturas do progresso moderno. O filme de Mozart Freire e Virgínia Pinho declara sua desconfiança desse dado inicial por sua retomada dos arquivos, explorando devagar os meandros das fotografias, e dando um passo adiante ao nos apresentar ao cotidiano dos moradores dessa região, alguns pacientes do hospital e outros seus descendentes.

O que se segue é um retrato desse bairro através de três personagens, encontrando em cada um deles uma via de expressão das vivências coletivas e de conhecimento dos antigos moradores. Ainda no início, uma médica se apresenta na porta de uma de suas pacientes, dando-lhe seu remédio em meio a brincadeiras. Trata-se de uma relação antiga, baseada em décadas de convivência sempre acompanhada pelo toque e pela ternura. Realçando esses gestos, o filme almeja justamente reatar visualmente os laços cindidos pelo projeto de isolamento traumático das pessoas que habitam a colônia como pacientes. Levadas de suas casas e de suas vidas, submetidas a um saber médico que as tomava como para sempre contagiosas, o filme dá nome à essas personagens e colhe suas narrativas. A médica também exerce uma função informativa, alertando da possibilidade de um novo deslocamento dessas pessoas para outro bairro como consequência da desativação do hospital e seus edifícios.

As outras duas personagens, um homem que vive no bairro com seu filho e conhece todos os moradores, e uma mulher que se muda para lá após um término de relacionamento, fornecem o outro eixo do argumento do filme. O tom de denúncia que as sequências assumem, resgatando as memórias traumáticas do território e alertando para a permanência de um desmonte das estruturas que isolaram a população da colônia, é acompanhado da possibilidade de ressignificação dos espaços por via das redes afetuosas que se constroem entre seus habitantes. Novos moradores são novos começos, e o filme não deixa de ressaltar a beleza das paisagens e o desejo de uma paz duradoura para a região.

As intenções de A Colônia parecem constranger o filme a uma permanente redescoberta do mesmo princípio. Já que o gesto observacional da obra está empenhado em não reproduzir a distribuição dos corpos e espaços sugerida pela propaganda política e fotografias do começo do filme, há uma hesitação diante dos próximos passos possíveis, como se a produção de novas ideias se estagnasse já nesses primeiros minutos. Impõem-se algo como um outro modelo formal, embora certamente ele não carregue as violências disciplinares que o filme repudia destarte. É de todo modo uma linguagem cinematográfica que posa ao seu espectador um limite bem estabelecido, que apressa o trabalho da intimidade que os anos deram ao convívio desses corpos. É uma coisa acompanhar as massagens da médica nos braços de sua paciente em um belo plano, e outra um testemunho que almeja justiça à violência do passado que se atualiza no presente. As imagens apropriam-se dos gestos, dos movimentos que sugerem proximidade e confiança como se seus, confundindo-se com seus personagens, e reservando ao espectador um lugar de contemplação inquietante.

Se os personagens resistem no bairro Colônia, o filme parte em busca de uma forma resistente, isto é, uma fricção com a realidade, um pôr-se a ouvir e ver aqueles que estavam outrora desaparecidos das imagens. Como propor uma nova distribuição do espaço-tempo em contexto tão assentado pela vigilância e regulação? Pela voz e pela imagem, liberando ambos daquilo que mantinha os corpos nas beiradas, ou mesmo fora, das antigas fotografias. A Colônia percebe que seus personagens precisam ser iluminados, dando forma ao que antes não se via, acreditando que sua contribuição é fortalecer a possibilidade da restauração ou do novo começo. Diante de tal ambição, me pergunto se a voz e a imagem de cada um que se dispõe ao retrato não fica então subsumida a uma retórica de denúncia e às brechas sentimentais desse discurso, onde o pôr do sol do bairro e as crianças brincando no parque aquático ao som de uma trilha ambiente melancólica dividem tempo de tela maior ou equivalente aos densos relatos dos antigos moradores do isolamento. É por perseguir uma proporção e harmonia externa ao mundo que retrata que A Colônia subestima o papel da forma na perturbação de nosso sentir – o que deve ser a vocação de todo cinema político.    

Graduado em Cinema e Audiovisual pela PUC Minas e atualmente mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG.

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