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Praticamente o fim

Qual é a extensão da destruição em que vivemos? A seleção da Panorama 1 da 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes cartografa as diferentes formas de como nosso espírito se esgotou. Aliás, o termômetro da desesperança está batendo alto nesta edição de Tiradentes, seguindo uma onda de anos. Imagino que a presença do filme de pandêmia, único subgênero do cinema passível de vacinação, seja na verdade somente mais uma camada desse alto bolo de tristezas, esperamos para ver qual será a cereja.

Em Levantado do Chão (Melissa Dullius e Gustavo Jahn, 2020), Gustavo Jahn parece exatamente isso, esgotado. Sua casca humana esvaziada do que quer que seja nosso recheio. Jogado pelas ruas de uma Berlim cheia de concreto, pedras e tijolos, Jahn parece se misturar com o cenário, com as pedras, com o 16mm. Seu corpo deitado nas ruas assume o mesmo tom de cinza do que a paisagem que o cerca. O sono aqui é uma força imobilizante, sedutora. A menina que anda em cima de uma bola é uma memória distante de tempos em que tínhamos forças para nos equilibrarmos. Ela se torna apenas um contraponto ao personagem de Gustavo, enquanto este a olha e um sorriso saudoso lhe escapa os lábios. E escapa com tristeza por saber que, na verdade, ele é a estátua do começo do filme, imóvel, pesada, vagarosa. O 16mm em Levantados do Chão, é um bloco de pedra nonde as imagens são esculpidas para sempre.

Lembro-me aqui, em contraste, do filme Rodson (ou onde o sol não tem dó) (2020). O trabalho de Cleyton Xavier, Clara Chroma e Orlok Sombra fagocita as imagens, as regurgita. Aqui, nenhuma construção é estática. Em Os anos 3000 eram feitos de lixo (Cleyton Xavier e Clara Chroma e Ana All, 2016), outra mitologia que compõe o universo Chorumex, a película é artigo viciante, consumível imprescindível para os cinéfilos drogadinhos. Diferente das tábuas de pedra descidas das montanhas alemãs no filme de Melissa Dullius e Gustavo Jahn, os filmes do Chorumex estão em constante terremoto, as placas tectônicas em que as obras se sustentam estão sendo minadas a todo momento, e o filme em si é matéria orgânica, passível de apodrecer, evacuar, e renascer como outra coisa. Ironicamente, Rodson não é gravado em película, mas sim vídeo digital, outro contraste com o Levantado do Chão

fotograma do filme Minha bateria está fraca e está ficando tarde (Rubiane Maia e Tom Nobrega, 2020)

Em Minha bateria está fraca e está ficando tarde (Rubiane Maia e Tom Nobrega, 2020), o isolamento é apenas uma piada de mau gosto já que a vida das personagens ainda é constantemente invadida pelas forças perversas de controle dos corpos. A necropolítica impõe, com a necessidade do isolamento, o afastamento dos corpos aliados e a proximidade com as imagens destrutivas. Vejo e penso no Bolsonaro mais do que nos meus amigos mais próximos. As imagens que se sobrepõem se interrompem, infectam umas às outras, não dá tempo de fazer a digestão e já estamos vomitando de novo. O ponto forte do filme é a sensorialidade do corpo das lagartas, a textura dos vidros que se quebram e da imagem digital de baixa qualidade, que adquiriram status de subgênero, também. Os famosos vídeos de whatsapp, como gênero, carregam seus próprios códigos, sua história e seus efeitos. 

O filme Ilha do Sol (Lucas Parente, Rodrigo Lima e Walter Reis, 2020) passa a sensação de uma estranheza extrema, o Rio de Janeiro está quieto! Teria aqui Luz del Fuego, renascida das profundezas do oceano, se transformado na cobra gigante do fim dos tempos? Teria ela silenciado a Guanabara? O desenho na pedra é a cobra que engole o mundo. O plano final do planeta terra é seguido de uma dedicatória, como se a terra fosse um presente “para Luz del Fuego”. O esgotamento em Ilha do Sol é pacífico, criando um outro tempo, um futuro mais quieto. Parece se conformar em ser a consequência do mundo do próximo filme da sessão, Animais na Pista (Otto Cabral, 2020). Vale aqui citar a sinopse do filme de Cabral: “Um acidente de percurso diz muito a respeito da humanidade”. Animais na Pista, o mais apocalíptico da sessão, deseja expor suas personagens como abutres. O acidente, a morte infantil, o fogo que consome os arredores não impede que as pessoas se aproveitem da situação. Em nenhum momento o filme se pergunta o que levou as pessoas a chegar àquele ponto, mas julga-as por estarem lá. Os dois filmes parecem certos de que o mundo acabou, só que um vira suas lentes para o efeito e o outro para a causa. O subtexto é que algo está no fim, mas será que é o fim de algo que valeu a pena? Prefiro pensar como Paul Preciado, que este é sim o fim. São os últimos esperneios de um mundo heteropatrialcalneoliberal que perde sentido a cada momento. Este sim está em chamas, este sim será engolido pela cobra.

fotograma do filme Vagalumes (Léo Bittencourt, 2020)

Vagalumes (Léo Bittencourt) é a farpa que desponta dos outros filmes da Mostra Panorama 1. Poderíamos dizer que o filme de Leo Bittencourt, diferente de seus colegas de sessão, ao invés de se preocupar com um pós-mundo esgotado, com as raízes da derrocada humana, ou com um vírus invisível que se materializou nas nossas vidas através do universo digital, prefere habitar o Aterro do Flamengo, sua ocupação (e por que não dizer deturpação?) do passeio público de Burle Marx. É um dos filmes que nos faz lembrar da excitante capacidade ressignificativa dos espaços. A ficção não deslancha para mais do que apenas se ater à uma atividade observacional das personagens, mesmo que o filme seja transpassado por cenas um tanto insólitas. É, no entanto, dentro do conjunto curatorial, que sua força é propulsionada. A luz na escuridão é pequena, um inseto que voa na noite. Em meio a um planeta esgotado, onde podemos achar sinais para ressignificá-lo?

Montador, ansioso e graduando em Imagem e Som pelo DAC-UFSCar.

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