Infelizmente esse site têm suporte para resolução de pequenos dispositivos. Pedimos desculpas e sugerimos que acesse através de um notebook ou computador.

Ossatura da desigualdade (Pão e gente, 2020)

Pão e Gente (Renan Rovida, 2020) é um filme transtemporal. Essa obra nos lembra que um dos grandes baratos da arte é simplesmente a ação de fazer colidir mundos distantes – assim, semelhanças insuspeitadas são produzidas. Uma das características mais interessantes desta obra de Renan Rovida é a fricção entre a fisionomia do espaço urbano contemporâneo e elementos do passado. As vestimentas dos personagens nos lembram outros tempos, e a moeda corrente é o antigo vintém. São Paulo do agora é, portanto, habitada por fantasmas de outrora e alhures, o que nos leva a um choque entre temporalidades heterogêneas. Filme anacrônico na melhor acepção do termo, Pão e gente nos faz pensar as relações de trabalho sob a tutela do dinheiro ao saltar para a origem da desgraça capitalista. Um texto inconcluso de Brecht nos guia pela paisagem urbana profundamente desigual – lugar em que um padeiro endividado explora seus trabalhadores por meios ardilosos. O patrão, por sua vez, é explorado pelo dono do estabelecimento, a quem deve aluguéis. Tudo se passa como se existisse uma briga de foice entre quem tem e quem não tem dinheiro, quem lucra e quem passa fome. Este é o mote de outros filmes do autor, em destaque Entre nós, dinheiro (2011) e Sem raiz (2017). Pode-se dizer que Renan Rovida é, com efeito, um artista da contradição.

Frame do filme “Pão e Gente”

A trama nos mostra a condição precária dos trabalhadores da padaria e sua necessária rebelião contra o patrão. Nos interstícios da narrativa, os atores e atrizes ensaiam o texto de Brecht – algumas vezes dialogando diretamente com o público através do recurso da quebra da quarta parede – em meio a uma cidade figurada como ruína do mundo capitalista. O filme elabora, portanto, uma narrativa constantemente interrompida por gestos, como é o caso da cena em que um dos atores conta repetidamente seus trocados sem, no entanto, chegar a conclusão alguma – pois o dinheiro não é suficiente para a conta fechar. Tais gestos têm a força de nos distanciar da fábula para que, sob a luz de suas elucubrações, reinventemos nosso olhar para o mundo contemporâneo. Uma situação social de pobreza e injustiça da classe trabalhadora é desvelada por este estranhamento reflexivo.

Frames do filme “Pão e Gente”

Outro aspecto relevante desta obra é a melancolia através da qual a cidade de São Paulo nos é mostrada. Há um sentimento latente de tristeza que é expressado pela fotografia em belíssimo preto e branco, no tom seco das enunciações, nas fisionomias exaustas dos trabalhadores, nos movimentos sorumbáticos dos atores. Além de ruína, a cidade se torna o espaço da clausura dos humilhados e ofendidos pelo poder do dinheiro, sítio da solidão e do fracasso daqueles que tentaram uma vida minimamente digna. Um mundo fantasmático, assombrado pelos primeiros negócios bem sucedidos, pelos primeiros empresários sedentos, por aqueles que engordaram em cima de quem não conseguiu ganhar dinheiro. Este universo é tecido pelas mãos deste cineasta singular no campo cinematográfico brasileiro, o que toma a forma de uma ode para aqueles que perderam a batalha.

No entanto, há um choque de humores na obra. A melancolia da figuração do espaço urbano encontra momentos hilariantes da narrativa como, por exemplo, quando a polícia toma os pães como armas numa batalha em plena rua entre o patrão e seus empregados contra os desempregados. A mercadoria mata: um pão duro se torna, por simples graça, uma arma mortífera que dispara gargalhadas em meio ao conflito laboral.

Pode-se dizer que o mundo capitalista mudou bastante e que a trama de Pão e Gente nada tem a ver com os tempos atuais. Ora, isto seria selar os olhos para as forças ocultas do anacronismo que certas obras de arte apresentam. Me refiro ao poder destes trabalhos de nos fazer viajar para a origem a fim de uma recondução crítica ao mundo atual. Prefiro aceitar a provação desta obra que desenvolve uma dramaturgia baseada na ossatura da desigualdade capitalista. É um filme que salta para a origem do problema: uns comem, outros não. Quem ganha dinheiro come, quem não tem dinheiro morre de fome. Um filme que encontra o osso da assimetria entre as classes sociais no Brasil e no mundo que mudou, mas não tanto.

Crítico e pesquisador de cinema. Mestre e doutorando em Antropologia Social (FFLCH-USP). É pesquisador associado ao NAPEDRA-USP, onde estuda as formas de aparição das cidades no cinema contemporâneo brasileiro, com ênfase nos filmes de Adirley Queirós. Faz parte do grupo de programadores do cinecubo IAB-SP e é co-editor da Zagaia em Revista.

Deixe seu comentário

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>