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Os sonhos de gente pobre (Grade, 2022)

Este texto faz parte da cobertura da 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Uma das grandes tendências do cinema brasileiro contemporâneo é configurada por filmes que misturam o gesto documentário com expedientes do drama de ficção. Boa parte desta filmografia  foi feita por documentaristas que, insatisfeitos com as limitações dos recursos expressivos do documentário clássico, principalmente a centralidade da entrevista neste estilo, utilizam procedimentos da ficção para melhor expressar as experiências produzidas pelo encontro do cinema com seus interlocutores. Os maiores expoentes dessa tendência são, talvez, Adirley Queirós e Affonso Uchôa.

Grade (Lucas Andrade, 2022) entra nessa jogada com a humildade de um jovem cineasta que procura começar um diálogo com a história contemporânea das formas. No entanto, o filme nos mostra uma diferença em relação à filmografia supracitada: o uso da comédia como ponte entre equipe de filmagem e seus interlocutores. Trata-se de um documentário que mistura três gestos. O cinema observacional, estilo que camufla a presença da equipe na filmagem para acessar a realidade de forma supostamente mais direta; encenações naturalistas de situações cotidianas, principalmente conversas; e, por fim, uma operação que traz um frescor para o debate contemporâneo, o uso de esquetes para desdobrar lúdica e hilariamente o encontro da equipe com aqueles que estes estão a filmar.

O documentário observa o cotidiano de presidiários reclusos numa APAC, instituição apresentada no decorrer do documentário como uma espécie de presídio mais humanizado que objetiva, através de uma série de atividades laborais e religiosas inexistentes nas cadeias comuns, regenerar a cidadania de seus presos. Não é atoa que neste contexto os presidiários sejam chamados de recuperandos.

Esta é uma observação de dentro do sistema prisional – a obra só foi possível por esta inserção estratégica. Isto solicita cautela, coragem e um jogo de cintura com a instituição e as pessoas filmadas. Talvez essa seja uma das razões que desembocaram num registro que para alguns pode soar exageradamente positivo do presídio. No entanto, a tessitura do documentário nos lembra constantemente que estamos, apesar do aparente ar de alegria e coletividade, numa cadeia. Isso se dá pelo próprio título do documentário, pelas imagens de grades que aparecem vez ou outra, os registros dos corredores azulados do presídio e, sobretudo, pelo início e fim do filme que nos mostra um olho nos observando por um estreito buraco na porta de ferro. O olhar dessas pessoas estaria também encarcerado?

A estrutura textual de Grade é formada por uma série de blocos em que somos apresentados a personagens singulares que cumprem pena na APAC. Em vez de focalizar a observação de uma trajetória apenas, buscando entender o processo de encarceramento numa pegada sociológica, o filme de Lucas Andrade procura entender o cotidiano do presídio como uma experiência coletiva de agentes singulares com suas histórias, sonhos, anseios ou mesmo delírios. Passamos a conhecer não apenas personagens particulares, mas as conexões afetivas e imaginativas entre estes homens.

A obra parece se contaminar pela energia coletiva do espaço que procura observar. A maior contribuição estética do filme é o uso que faz da comédia como recurso para expressar os sonhos e delírios de seus interlocutores. A equipe do documentário elaborou em parceria com aqueles que se tornaram personagens do filme uma série de esquetes que desdobram a imaginação dos presos de forma hilária. São cenas de curta duração com um potencial etnográfico e cômico que nos surpreende durante a sessão.

Em cada bloco de observação irrompe uma esquete, gesto que nos apresenta, por exemplo, um preso voando num tapete voador num fundo de chroma key, outro homem surfando em ondas imaginárias, um rapaz que se torna apresentador de jornal sensacionalista ao estilo Datena, um padre safado que se engraça com a mulher de uma espécie de jagunço bravo. Trata-se de desdobrar os sonhos de liberdade de homens encarcerados pelo sistema prisional – instaurar uma capilaridade entre o mundo do cinema e os sonhos de homens que tiveram sua vida interrompida pela cadeia. Essas cenas são, portanto, pontos de fuga de extrema importância para a tessitura do filme.

Esta operação serve para revelar, também, a inventividade dos próprios presos, o que faz do documentário um filme sobre a criatividade. Sua maior força é a cumplicidade e a coragem diante de uma realidade complexa que solicita uma compreensão multifacetada das relações sociais investigadas. Grade é, ao fim e ao cabo, uma etnografia surrealista sobre a imaginação de homens pobres.

Crítico e pesquisador de cinema. Mestre e doutorando em Antropologia Social (FFLCH-USP). É pesquisador associado ao NAPEDRA-USP, onde estuda as formas de aparição das cidades no cinema contemporâneo brasileiro, com ênfase nos filmes de Adirley Queirós. Faz parte do grupo de programadores do cinecubo IAB-SP e é co-editor da Zagaia em Revista.

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