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O retorno do filme de gângster (Ingra!, 2022)

Este texto faz parte da cobertura da 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Ingra! (Nicolas Thomé Zetune, 2022) é um curta-metragem de superfícies, o que não quer dizer que seja um filme superficial. Uma obra de tom sóbrio cuja economia formal é estruturada por artifícios – uma afirmação delicada da força do artifício. Não é um filme sobre desejos, mas sim sobre assombros e memórias – no plano diegético, mas também na fatura da obra. Pastiche por excelência, a obra apresenta um jogo lúdico de citações que nos remete às obras do Novo Cinema Paulista como Cidade Oculta e Anjos da Noite.

Ingra! é, ao fim e ao cabo, um filme de curtição e uma carta de amor ao cinema – mas não a qualquer cinema: é um filme de gangsterismo entre garotas ao estilo Spring Breakers. Nesta aventura encontramos um banquete de citações capaz de nos lembrar que um dos maiores baratos do cinema é, justamente, a própria história do cinema.

Em tempos duros como nosso presente, a nostalgia surge de formas variadas: como força imobilizante nos infinitos reboots da indústria cultural e, como neste filme, uma forma de afirmar o simples gesto de se encontrar e criar: uma ode ao fato de que ainda podemos fazer filmes de crime ou amor.

De maneira semelhante a outros filmes do autor, como São Paulo com Daniel, a obra nos conduz por caminhos tortuosos de São Paulo a partir da perambulação de sua protagonista, chamada Ingra. Como na obra supracitada, a personagem não ostenta nenhuma qualidade heróica – é uma jovem mulher com um passado criminoso, uma espécie de pilantra que trafica bebês por um punhado de dólares. Não se trata de andanças ao estilo leve e descompromissado do flâneur, mas de um zigue-e-zague paranoico de uma pessoa que, claramente, carrega um fardo – o que nos remete à vida desgraçada do homem das multidões de Edgar Allan Poe.

Perseguida por uma ex-comparsa que acaba de sair da cadeia, Ingra procura a ajuda de uma cúmplice que, anos atrás, a ajudou a enterrar uma maleta de dinheiro – correria que parece ter sido um belo calote na mulher que a espreita durante o filme. Num estacionamento que nos enfeitiça por suas luzes neon rosadas, Ingra e sua cúmplice terminam num conflito armado com a ex-presidiária. Num gesto de completa liberdade criativa por parte do realizador, todas são arrebatadas por Deus e desaparecem da Terra. Pelo visto, há bastante lugar no paraíso – inclusive para pilantras, traficantes e caloteiras.

Ingra! é um curta que dá braçadas na contra-corrente. Não tem absolutamente nada a ver com as tendências atuais do cinema brasileiro contemporâneo e, ao que parece, não deve nada a ninguém. Talvez por isso seja tão interessante e divertido. Estamos diante de uma obra que faz retornar no campo do curta-metragismo brasileiro o filme de crime e gângster num tom de doideira como O palhaço xupeta (André Sampaio, Carlos Sanches, 1996) fez décadas atrás. Se há uma palavra que resuma o estilo de Nicolas Thomé Zetune, eu arriscaria: estranho.

Crítico e pesquisador de cinema. Mestre e doutorando em Antropologia Social (FFLCH-USP). É pesquisador associado ao NAPEDRA-USP, onde estuda as formas de aparição das cidades no cinema contemporâneo brasileiro, com ênfase nos filmes de Adirley Queirós. Faz parte do grupo de programadores do cinecubo IAB-SP e é co-editor da Zagaia em Revista.

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