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O futuro não se antecipa (Bem-Vindos de Novo, 2021)

Em Bem-Vindos de Novo, Marcos Yoshi faz da câmera um meio para aproximar-se de seus pais recém retornados do Japão. O intervalo de mais de uma década, antes previsto para somente 2 anos, resultou em uma distância intermediada por cartões postais e fitas VHS enviadas pelos correios em datas especiais. O retorno de Roberto e Yayoko Yoshisaki revela o quanto, apesar do laço consanguíneo, pais e filhos tornaram-se estranhos uns aos outros. A imagem, muito antes do filme de Yoshi, já era uma mediadora, como as primeiras gravações das férias em família nos anos 90 nos dizem. No entanto, a proximidade renovada permite uma observação que repara nos detalhes, dos mais singelos, como o hábito do pai de levantar seu mindinho segurando qualquer objeto, até os dedos calejados da mãe como consequência das longas jornadas de trabalho.

A narração é precisa em observar como o casal Yoshisaki é de uma geração que viveu um senso constante de crise, e que o estado de migração entre labutas e condições ainda está em suas vidas. Com seu retorno ao Brasil, as aparências já não podem esconder o senso de um profundo cansaço, ainda que lampejos de esperança possam tomar as cenas. Os registros documentados por Marcos e seus familiares acabam acumulando uma densa bagagem, onde se manifestam as aspirações de uma família que se manteve por correspondência. Bem-Vindos é o documento de um longo processo histórico, do qual os Yoshisaki são alguns dentre tantos impactados. Mas justamente por prezar pela proximidade, pelo mergulho no cotidiano e nas memórias, é que o filme consegue ser fecundo no seu diagnóstico.

Em um momento de grande angústia, quando Roberto Yoshisaki se levanta em prantos de uma briga com sua família, a câmera desfocada hesita e mira o chão. Se o filme engata justamente levantando dúvidas acerca da veracidade dos cartões postais do passado – o quão sinceramente eles expressavam a realidade – pela dedicação em narrar a história de sua família, Yoshi precisa ponderar quando é também o momento de fazer cessar a imagem. A necessidade do mostrar, para conhecer e reconhecer, encontra seu limite na vulnerabilidade do outro.

A resposta que o filme encontra é montar em seguida uma das sequências mais difíceis de encontrar seu lugar no corte. O filho pergunta se pode encostar no rosto de seu pai. As mãos percorrendo a cabeça e o silêncio da cena são a expressão de uma profunda ternura, de um desejo de conexão ciente da capacidade de cura do toque. É porque os conflitos familiares e o peso do trabalho precarizado convergem que o gesto é tão forte. Yoshi toca seu pai em reconhecimento das marcas que percorrem seu rosto, frutos do envelhecimento, do cansaço e mesmo de uma cirurgia agressiva. Sabemos que tocar é um dos modos mais íntimos do conhecer. Diante de um arco narrativo que soa cíclico, com o fim da estadia no Brasil e a volta ao Japão para mais anos de trabalho, Bem-Vindos encontra respiro em momentos parecidos a essa sequência, que realizam a improvável reconexão dessa família

A gravidez de uma das irmãs de Yoshi, ocasião de um encontro que não acontecia há décadas – também uma despedida – é antecipado por todos como um novo começo. Não encontramos nesse documentário uma resolução dramática que satisfaça os anseios pelo fim desses ciclos. Antes, vislumbramos os modos eles nunca são só aquilo que aparentam ser. Diante do adoecimento de Roberto e da ida do cineasta ao encontro de seus pais no Japão, a narração antecipa possíveis encaminhamentos. No entanto, nesse ponto já estamos acostumados com a imprevisibilidade dessas vidas e da vitalidade que lhes percorre de modos nada óbvios. Roberto, em vias de recuperação, descansa com seu filho, enquanto Yayoko sai com sua bicicleta. Nesse ponto, trata-se de reconhecer que o filme recusa com uma força sútil e contundente que essas histórias sejam reduzidas e que os caminhos dessas vidas sejam pré-estabelecidos.

Graduado em Cinema e Audiovisual pela PUC Minas e atualmente mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG.

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