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Insistir na lapidação (Sessão Bruta, 2022)

Este texto faz parte da cobertura da 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Sessão Bruta, deAs Talavistas e ela.ltda, mescla registros do cotidiano e de performances de um grupo de jovens artistas que integram uma cena cuir de Belo Horizonte. Há algo de material bruto, como se o cinema fosse uma pequena extração de um compilado bem mais amplo de fragmentos soltos. Assistimos a imagens e sons que não necessariamente precisam se encerrar em um filme, mas permeiam o cotidiano como sinais de vida, desejo de encontro, de conversa, de estar junto apesar da distância. O território se cria a partir dessas correspondências e é a montagem quem o faz. Para quem?

 A opção pelo uso da câmera Mini-Dv situa bem o trânsito entre vida e arte que move o filme, oscilando, sem transições bruscas, de um lado a outro. Trata-se de uma tecnologia que nos traz uma textura bem diferente dos celulares que usamos em nossas filmagens e fotografias enviadas diariamente nas redes sociais, afastando a espectadora da impressão de lidar com meros registros do cotidiano. Por outro lado, a Mini-Dv também destoa do que se espera de uma câmera de cinema profissional, aproximando-nos de uma estética considerada amadora, ou “bruta” por assim dizer. A presença dos áudios de whatsapp trocados pelas participantes do processo reforça uma sensação de proximidade direta com essas pessoas, como se pudéssemos abrir e vasculhar seus históricos mais íntimos. O risco da transparência parece aumentar exatamente na medida em que o filme se mostra e se promete mais “bruto”.

Sessão Bruta se inscreve no território do cinema e da arte. Circula festivais, é visto por curadores, galeristas, alimenta as esperanças dessas jovens que declaram, com alguma ênfase, almejar viver de arte. Será que ele pode virar dinheiro no bolso de quem o fez? O filme é visto também por uma gama ampla e imprevisível deste que é o destino mais misterioso e fundador do fazer cinema: espectadores. O quanto eles podem se aproximar desses relatos tão pessoais de sonhos e confissões? Momentos de convívio comum, conversas a esmo, errâncias pela cidade são entremeados por performances com elementos de dança e uma sensibilidade lapidar de composição do espaço. Panos, roupas e maquiagens transformam completamente as casas e corpos. Esse movimento incessante da apresentação das monas e dos espaços mostram grande elasticidade na composição de uma vida com enorme potencial estético em atos de criação e transformação permanentes.

Sem dúvida, as confissões e conversas cotidianas das personagens são um importante registro histórico de sujeitos políticos que só há pouco começam a frequentar os espaços de arte e cinema, ou mesmo a universidade pública. Essas falas, de fato, apresentam reflexões novas e interpelativas que merecem uma produção cuidadosa de memória. Por outro lado, me pergunto se uma certa promessa de transparência do processo ou mesmo um desejo de se aproximar demais do cotidiano não nos coloca diante do risco de apresentar diretamente a vida – e não a arte e o trabalho dessas pessoas – como um produto a ser observado pelos outros. Diante desse perigo, que suprime a dignidade do potencial de trabalho e criação das monas, creio que o filme ganha força quando insiste na lapidação do material, quando a montagem se faz presente. Montagem aqui no duplo sentido: quando percebemos a escritura fílmica que se dá na escolha de ligação entre um plano e outro ou quando percebemos o que há de montado nos corpos e espaços quando apresentados a partir de trabalhos artísticos.

É também Maria Bogado e TV_Maria. Amante de imagens e sons.

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