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Futuro vadio (Curtas jornadas noite adentro, 2021)

Curtas Jornadas Noite Adentro (Thiago B. Mendonça, 2021) é um filme que apresenta uma diferença no campo do cinema brasileiro contemporâneo. Desde o golpe de 2016 temos assistido a uma série de obras que utilizam a noite como alegoria dos tempos sombrios em que vivemos – um contexto de ascensão da extrema direita e de uma instabilidade epistemológica que não diz respeito apenas ao Brasil. Filmes como Era uma vez Brasília (Adirley Queirós, 2017), Baixo Centro (Ewerton Belico e Samuel Marotta, 2018), Os Sonâmbulos (Tiago Mata Machado, 2018), Tremor Iê (Elena Meirelles e Lívia de Paiva, 2019) e Sete Anos em Maio (Affonso Uchôa, 2019) participam desse corpus de filmes noturnos tecidos a partir de um olhar melancólico para o mundo contemporâneo. São filmes que figuram a noite eterna de cidades em ruínas como pesadelo de um tempo de agora infernal – lócus de um horror rarefeito que é percebido pela elaboração de atmosferas desgraçadas. Habitando esses espaços sorumbáticos, somos conduzidos a refletir sobre nossa história recente a contrapelo das narrativas históricas dominantes em que o progresso é tomado como lei.

Fotograma retirado do filme Curtas jornadas noite adentro, 2021
Fotograma retirado do filme Curtas jornadas noite adentro, 2021

 Este é um filme de situações em que um grupo de sambistas perambula pela noite paulistana em busca de oportunidades de shows em bares e casas noturnas. A montagem tece de forma linear as andanças dos personagens em suas vadiagens desesperadas por trocados e festas. Esse drama situacional nos lembra outro filme do realizador, intitulado Jovens Infelizes ou um Homem que Grita Não é um Urso que Dança (2016). No entanto, a raiva e pessimismo do último se converte em festa e afeto em Curtas jornadas noite adentro.

Fotograma retirado do filme Curtas jornadas noite adentro, 2021

Quais são as diferenças entre este novo filme de Thiago B. Mendonça com o corpus de obras noturnas mencionadas acima? Primeiramente, esta obra apresenta uma economia formal que difere das faturas das obras supracitadas. Estes filmes são formalmente densos ao passo que a obra de Thiago B. Mendonça aposta numa simplicidade de recursos estéticos. Outra diferença é que o cinema noturno do pós-golpe nos oferece uma perspectiva catastrófica não apenas do presente histórico, mas também do futuro do país e do mundo, muitas vezes construindo ambientes distópicos para pensar a história contemporânea. Por outro lado, Curtas Jornadas Noite Adentro apresenta uma curiosa dialética entre o caráter sorumbático da cidade noturna figurada como ruína e a possibilidade de sua reconstrução fabulatória pela arte e camaradagem. Neste filme, conseguimos apreender a centelha de esperança que nos catapulta para um futuro de celebração e reocupação da cidade pela força do samba e do amor fraternal entre homens e mulheres livres, ainda que pobres e desgraçados. Este é um filme, portanto, que performa um futuro de festa, amor e, por que não, muita vadiagem. A alegria continua.

Fotograma retirado do filme Curtas jornadas noite adentro, 2021

Crítico e pesquisador de cinema. Mestre e doutorando em Antropologia Social (FFLCH-USP). É pesquisador associado ao NAPEDRA-USP, onde estuda as formas de aparição das cidades no cinema contemporâneo brasileiro, com ênfase nos filmes de Adirley Queirós. Faz parte do grupo de programadores do cinecubo IAB-SP e é co-editor da Zagaia em Revista.

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