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Festival de Brasília do cinema brasileiro como política pública e livre das intempéries governistas: os governos passam, o festival fica.

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – pela sua importância simbólica, política, cultural e estratégica para o desenvolvimento tanto do Cinema Brasileiro, como do cinema e da cultura do Distrito Federal – deve ser independente de qualquer posicionamento político que oriente os governos do momento, e não pode, de forma alguma, sofrer ingerência desses governos. Não podemos ter um Festival que todo ano seja diferente, que todo ano tenha novas diretrizes e encaminhamentos. É preciso que o Festival de Cinema de Brasília construa ações que sejam perenes, contínuas, e que estejam antenadas às questões de seu tempo. Para termos um Festival potente, ele precisa construir uma identidade. Essa identidade só será conquistada a partir do momento em que houver a mínima garantia para criação dessas condições. É assim que se constrói a autonomia e credibilidade de um Festival.

Consideramos urgente a existência de um debate que ofereça as condições necessárias para essa construção, mas também reforçamos a importância de que seja garantida uma ação política regida pela liberdade e pela autonomia das associações e da comunidade cinematográfica do Distrito Federal, aqui abrangendo realizadores, produtores, Universidade, instituições de ensino, críticos e espectadores. 

Após o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2020, realizado de forma online entre 15 e 20 de dezembro 2020, alguns cineastas do DF começaram a se reunir na tentativa de encontrar uma forma de fortalecer esse evento tão importante para o cinema candango e para o cinema brasileiro. Esse festival completa 54 edições em 2021 e é patrimônio cultural imaterial do DF. É um festival nacional e o mais longevo, acompanhando períodos importantes da história do cinema brasileiro. Não pertence, portanto, ao governo que esteja no exercício do poder, mas sim aos moradores do DF e aos cineastas brasileiros. Queremos que o Festival constitua uma Política Pública de Estado e não uma Política Pública de Governo. Acreditamos no diálogo como instrumento político de participação e inclusão, do mesmo modo como também acreditamos no dissenso como próprio da ação política, entendendo política como manifestação da pluralidade de um mundo em comum. Neste momento acreditamos ser possível um esforço conjunto para construir uma discussão plural e democrática em torno do Festival de Cinema de Brasília. Acreditamos também que esse processo tenha por missão, não só a manutenção, mas também a capacidade de articular avanços que garantam sua pluralidade e relevância na defesa de um cinema nacional que aponte para um gesto de vanguarda, à frente, sem que o termo vanguarda aqui seja confundido com um conceito relativo a uma simples noção de “estado da arte”. Nesse sentido, o que nos dispomos a pensar como vanguarda é uma visão mais intuitiva e afetiva de um Festival disposto a estar de peito aberto e olhos livres, atento às descobertas, ao frescor e ao debate em torno de novos cinemas possíveis. 

COMO SERIA O FESTIVAL AQUI PROPOSTO?

O que dá identidade e força a um festival, além da safra de filmes, obviamente, é o conceito de curadoria. É ela que aponta para um horizonte possível, que legitima possibilidades cinematográficas, que incentiva uma produção variada e apresenta ao público as questões emergentes de um país. 

De nada adianta uma produção variada se não temos propósitos e critérios claros de seleção e organização dos filmes selecionados em mostras competitivas e formativas. Uma curadoria competente dá o tom e qualifica o Festival como interessante ou desinteressante, e as opções de curadoria dependem da leitura e do conhecimento cinematográfico de seus curadores. Curadores são, portanto, profundos conhecedores da cinematografia nacional e mundial. Defendemos um rigoroso critério para a escolha desses curadores. Acima de tudo, eles devem ser conhecedores do Cinema Brasileiro do presente e do passado, com sensibilidade para identificar tendências futuras. Devem ser pesquisadores reconhecidos na área e com currículos alinhados ao Festival proposto.

PROPOSTA 1: CONSTITUIÇÃO DE UMA COMISSÃO GESTORA DO FESTIVAL

A curadoria, apesar de ser um dos aspectos mais visíveis e importantes de um Festival não é, de forma alguma, a única questão para o Festival que almejamos e acreditamos. A curadoria é central na composição do Festival, mas na estrutura que aqui propomos ela faria parte do que vamos chamar de Comissão Gestora do Festival. Essa denominação parte da ideia central de que haverá um grupo de pessoas, com mandato independente do Governo Distrital, responsável por conduzir todas as ações necessárias para a realização do festival a cada ano, garantindo sua regularidade e continuidade a longo prazo.

Para essa Comissão propomos a seguinte composição:

  • Diretor(a) Artístico(a): responsável pela elaboração de um projeto artístico que deverá conduzir e permear todo o planejamento de estrutura e de programação do Festival;
  • Diretor(a) Executivo(a): responsável pela execução e administração orçamentária dos recursos disponíveis garantidos, anualmente, na Lei Orçamentária do Distrito Federal. Será responsável também por estabelecer os critérios para os editais de seleção das organizações a serem contratadas para a produção do festival;
  • Coordenador(a) de Curadoria: responsável pela escolha dos filmes que irão compor cada uma das mostras propostas em conjunto com a Direção Artística. A Coordenação de Curadoria deverá escolher os membros que irão compor a equipe de curadoria e coordenar o trabalho de seleção e programação dos filmes;
  • Coordenador(a) de Descentralização e Infraestrutura: responsável pelo planejamento – a curto, médio e longo prazo – da infraestrutura necessária para realização do Festival. Esse planejamento deverá estar atrelado, necessariamente, a uma política de descentralização do Festival pelos diversos territórios do DF, por meio da construção de salas públicas de cinema em todas as Regiões Administrativas do DF, que garantam uma maior capilaridade para o Festival. De forma a garantir essa descentralização, o Festival deverá ser realizado sempre em duas sedes, atrelada a inauguração de uma nova sala pública de cinema a cada ano, o que será detalhado mais adiante.

Propomos que a Comissão Gestora do Festival receba um mandato de 03 anos, e que sua escolha seja realizada por chamamento público. A Comissão Gestora deverá propor o seu projeto artístico para o Festival, assim como um plano de metas para os 03 anos de mandato. 

PROPOSTA 2: CONSTRUÇÃO DE UM REGIMENTO PARA O FESTIVAL

No entanto, para regulamentação tanto do Festival como de sua Comissão Gestora, acreditamos que seja necessário que se elabore um instrumento legal que determine parâmetros mínimos – de formato, regularidade, abrangência, orçamento e atendimento às políticas públicas de cultura – nos quais toda Comissão Gestora deverá se basear para propor seu projeto, parâmetros esses que de forma alguma limitem que outras possibilidades possam ser discutidas. Esse instrumento – que vamos chamar aqui de Regimento do Festival – deverá ser desenhado de forma que o Festival possa ter um desenvolvimento pleno de sua potência criadora e que se garanta a sua perenidade como patrimônio imaterial do DF.

Dentre os parâmetros fundamentais para a elaboração do Regimento do Festival, sugerimos:

  • O Festival deve dar atenção especial ao Cinema Brasileiro, à linguagem, ao processo estético-político e às organizações sociais que desejam discutir os rumos do cinema brasileiro, as suas possibilidades de produção e organização.
  • O Festival deve ser um indutor de políticas públicas para o DF. Desta forma, paralelamente a sua condição  de Festival Nacional, deve haver uma discussão permanente em torno dos três indutores básicos da produção e exibição do cinema realizado no Distrito Federal: 1) Fundo de Apoio à Cultura (FAC); 2) Cine Brasília; 3) Escolas de Cinema. O Ensino de cinema é fundamental. O festival deve ter um papel formativo, detalhado adiante.
  • O Festival deve se constituir como um espaço de formação contínua e em diversos âmbitos, criando estratégias dentro da sua realização para: 1) a formação de público para o Cinema Brasileiro em todo o território do Distrito Federal; 2) a formação de profissionais no Distrito Federal com conhecimento qualificado para a realização de festivais; 3) a formação de quadros para o trabalho de programação e curadoria; 4) o fortalecimento dos elos entre o Festival de Brasília e a Universidade de Brasília; 5) espaço de valorização da história do cinema brasileiro. 
  • O Festival deve propor encontros de entidades de Classe e Associações dentro de sua programação de forma a promover a discussão em torno das políticas de fomento ao Cinema Brasileiro. Esses encontros devem resultar em documentos propositivos. Por exemplo, o Festival deve promover encontros entre parlamentares da Comissão de Cultura das Câmaras Distrital e Federal e produtores/realizadores, a fim de estimular o debate constante da política pública de incentivo ao cinema nacional. Devem ser destinados recursos a essa ação, de modo que se torne calendarizado, dentro do festival, como a Semana de Luta pelo Cinema Brasileiro, contra ações desmobilizadoras e contra o constante lobby internacional que quer uberizar o mercado audiovisual Brasileiro. 

PROPOSTA 3: SOBRE A PROGRAMAÇÃO

Dentro desse horizonte, defendemos que estrutura e programação do Festival contemplem, minimamente, os seguintes aspectos:

  • Defendemos radicalmente o Festival Universitário de Brasília (FESTUNI) entre as mostras paralelas do Festival. O FESTUNI deve ter mais visibilidade. Para isso, deve haver investimento em passagens e hospedagens para os seus realizadores e realizadoras, e deve haver destinação de recursos para remunerar a exibição dos filmes, a comissão de seleção e o júri da mostra. 
  • Defendemos a necessidade de se ter pelo menos um curta e um longa metragem realizado no Distrito Federal na Mostra Principal. Isso agrega valor e justifica a existência dos editais do FAC/DF e do próprio Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. É do cinema brasileiro mas é de Brasília também. 
  • Defendemos a manutenção e regularidade da Mostra Brasília e do Troféu Câmara Legislativa, com patrocínio da Câmara Legislativa do DF
  • Defendemos que a Mostra Brasília seja pensada também como um espaço formativo. Para tanto, propomos a criação de duas equipes: uma de curadoria e outra de júri. Essas equipes serão compostas por tutores, com experiência em cada área, e jovens de diversas Regiões Administrativas do DF, que deverão passar por uma formação ao longo do ano que precede o Festival. Ao final da referida formação, esses jovens serão escolhidos para compor a Comissão de Curadoria e o Júri da Mostra Brasília.
  • Defendemos a manutenção do pagamento pela seleção e exibição de todos os filmes, nas mostras principais e paralelas, ao contrário da simples premiação em dinheiro, que tornaria o festival muito mais um concurso do que um espaço de debates.  
  • Defendemos que o Troféu Candango seja atribuído por júri oficial e júri popular aos filmes que merecerem destaque durante cada edição do festival. 
  • Defendemos a manutenção da premiação a categorias técnicas de todos os filmes, nas mostras principais e paralelas. É fundamental que a premiação não contemple somente “melhores filmes”, mas também as categorias técnicas: roteiro, direção, fotografia, som, direção de arte, montagem, trilha sonora, melhor ator, melhor atriz, de forma a fortalecer e valorizar o trabalho coletivo na realização cinematográfica;
  • Defendemos a manutenção dos debates após exibição dos filmes, nas mostras principais e paralelas. Que estes debates sejam amplos, que promovam a participação do público e da crítica especializada.
  • Defendemos a Construção de salas públicas de cinema em todo o DF. O Festival deve se espalhar e ganhar capilaridade em todo o DF. Para isso defendemos que a cada edição seja inaugurada uma sala pública de projeção de cinema em uma RA – Região Administrativa do DF, até que todas tenham sua sala pública de cinema. Achamos um desperdício que a cada festival se improvise, se monte e se desmonte salas de cinema nas RAs ao redor de Brasília. Cinema é apropriação, inclusão, cinefilia e se faz principalmente com o hábito de ir ao cinema, coisa que não dá pra fazer no shopping. É muito caro para quem tem baixa renda e só chegam os ditos “filmes de mercado”. Não adiantam ações descentralizadoras sem táticas capazes de possibilitar uma experiência de fruição efetiva com os filmes e com a sala de cinema.
  • Defendemos que a programação do Festival esteja atrelada à construção de novas salas de cinema no DF. Para isso, defendemos que o festival seja realizado sempre em duas sedes. A cada festival, ou ciclo de edições do festival, deverá ser escolhida uma RA para ser a segunda sede do Festival. Para esta RA ser uma sede, é obrigatório que nela se construa uma sala pública de cinema. Portanto, é necessário um planejamento a longo prazo para que esta RA seja a escolhida. Este planejamento deve ter a frente da sua execução a Coordenação de Descentralização e Infraestrutura. Estamos propondo um política pública de descentralização efetiva com objetivos a longo prazo. O Distrito Federal já teve várias experiências de itinerância durante o Festival de Brasília. Todavia, essas itinerâncias não deixaram efetivamente nada de concreto para as cidades-satélites. Uma sala de cinema é a única forma de transformar a comunidade cinéfila destas cidades, incentivando tanto a produção quanto a reflexão e educação. Essas salas podem mobilizar durante todo o ano os cineclubistas locais, os realizadores e aqueles que tem interesse na formação de curadoria. Nas Escolas, por exemplo, podem ser promovidos Festivais de Filmes entre a comunidade, cada Escola realizando o seu filme e exibindo na sala pública de cinema de sua RA. No nosso entendimento, isso traria uma verdadeira revolução na descentralização dos recursos públicos na área de Cinema e de fato seria uma Política Pública para Inserção Periférica no Audiovisual do Distrito Federal. Entendemos essa Inserção Periférica como Território, uma categoria abrangente, mas que parte necessariamente da residência e atuação destes Agentes Culturais. Inserção Periférica é, acima de tudo, uma produção Territorial Periférica ancorada por recursos do Estado, uma Política Pública de Estado. A nossa ideia é acima de tudo descentralizar o Festival e espalhar suas atividades pelo território do DF. Será fundamental que se elabore um projeto artístico e de curadoria que pense o Festival de maneira integrada ao Território do DF, não somente a partir de uma ideia de itinerância de mostras, mas que seja pensado de forma a garantir a cada sede a sua potência própria. Além disso, as salas públicas de cinema do DF poderão construir uma programação, ao longo do ano seguinte, a partir de itinerância das mostras do Festival.
  • Por fim, defendemos um festival livre, multirracial, multiterritorial, sem censuras de qualquer tipo, seja de gênero, raça, credo ou liberdade artística, política ou ideológica. E que o Festival tenha uma política afirmativa para fomentar a inclusão das minorias.

Ceilândia e Brasília DF, 10 de fevereiro de 2021.

Assinam este documento:

  • Adirley Queirós – Coletivo de Cinema em Ceilândia (CEICINE)
  • Adriana Gomes – Escola de Teatro Político e Vídeo Popular (ETPVP-DF)
  • Camilla Shinoda – Coletivo Convergência Audiovisual DF
  • Cássio Oliveira – Coletivo de Cinema em Ceilândia (CEICINE)
  • Dácia Ibiapina – Coletivo de Cinema em Ceilândia (CEICINE)
  • Denise Vieira – Coletivo de Cinema em Ceilândia (CEICINE)
  • Erika Bauer – Professora da Faculdade de Comunicação da UnB (FAC/UnB)
  • Lila Foster – Pesquisadora e Curadora
  • Pedro B. Garcia – Coletivo Convergência Audiovisual DF
  • Tiago de Aragão – Coletivo Convergência Audiovisual DF
  • Wellington Abreu – Coletivo de Cinema em Ceilândia (CEICINE)
  • João Campos – Coletivo Zagaia
  • Maria Bogado – Coletivo Zagaia

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