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Estamos todos perdidos (Don’t look up, 2021)

Don’t look up é um filme de catástrofe com viés satírico produzido pela Netflix em que uma dupla de cientistas descobre um gigantesco cometa prestes a colidir com o planeta Terra, o que resultaria no fim do mundo. As tentativas de alertar as autoridades fracassam, uma vez que a parceria entre uma presidenta bufona e um megaempresário do campo da tecnologia engendra uma campanha negacionista em torno do evento apocalíptico.

O filme procura elaborar uma crítica debochada de nosso presente histórico marcado por uma instabilidade epistemológica que tem na proliferação das fake news sua força motriz, jogando com elementos dos dias atuais como negacionismo, crise política e trumpismo.

Mas como essa crítica é elaborada? Primeiramente, o filme constrói uma figuração caricatural dos poderosos em personagens como a presidenta, seu filho e o empresário. Estes formam a trupe da desinformação e da ganância do capital. Sua campanha “Não olhe para cima” procura eufemizar o apocalipse porvir a fim de conseguirem minerar valiosos recursos descobertos na composição química do cometa.

Em contraposição a estes personagens, estão os cientistas cujos dados alarmantes são constantemente escamoteados, seja pelos donos do poder ou pela mídia que a tudo amacia – “TODOS VAMOS MORRER!”, gritam os personagens em diferentes ocasiões. Se os poderosos são figurados como malvados mentirosos, os cientistas são os mocinhos – e vetores da verdade do método científico.

O filme está gerando um frenesi nas redes sociais por tratar de questões atualíssimas. Diante disso, qual a forma com que essas questões são postas em cena? A começar, a figuração dos poderosos é um fiasco completo. Estes são perfeitos idiotas e incompetentes que nada realizam em seus importantes cargos. Ora, imaginar tais personagens históricos como simplesmente patetas sem cérebro é um erro fatal, uma vez que a performance pública destes é completamente distinta de suas elucubrações e conchavos. É o mesmo que ingenuamente pensar Trump ou Bolsonaro como simplesmente burros e incompetentes, pois estes usam a carcaça do palhaço para efetuar diferenças reais no mundo. Temos que admitir que, para nossa tristeza, essas figuras históricas da extrema-direita são excelentes performers, e certamente melhores que o elenco do filme.

Outra questão problemática diz respeito ao povo. No filme, as “pessoas comuns” são acéfalas sem opinião e agência. Estes são levados ou pelo discurso da desinformação, ou pela dura verdade vinda do panteão dos cientistas. O máximo que realizam é, com efeito, a produção de caos em certas cenas – rebeliões estranhamente controladas que não geram consequências.

A montagem do filme é também extremamente frágil, sobretudo quando busca efetuar interrupções da cena. Estas entram em jogo quando a obra quer nos mostrar a amplitude global da catástrofe. Em mais de uma ocasião, o filme utiliza uma série de “jump cuts” para apresentar situações em diferentes lugares do mundo, o que parece querer englobar, em poucos segundos e por cortes simples, toda a vida (e morte) no planeta.

De modo análogo a outros filmes norte-americanos de catástrofe como Independence Day (Roland Emmerich, 1996), a salvação planetária depende única e exclusivamente de uma ação do governo dos Estados Unidos. Mesmo tentando com seus ineficazes jump cuts englobar o planeta inteiro pela montagem, o filme não abre espaço para a aparição de outras lideranças mundiais. A Rússia é banalizada e a China jogada para escanteio. Só nos resta a submissão à hegemonia estadunidense. 

Finalmente, a sátira de McKay utiliza as mesmas táticas dos que procura criticar com sua obra, seja a grande mídia ou os poderosos. Trata-se do apaziguamento de qualquer tema escabroso pela sua transfiguração bem humorada. O fim do mundo se torna algo engraçado e comunicável num tom de “tudo vai bem”. O planeta é destruído enquanto os protagonistas realizam uma ceia amigável e cristã, pois nada nos resta a fazer.

Esta é uma ferramenta da publicidade e, também, dos filmes da Netflix que, sabiamente, entrega ao seu público o que este desesperadamente procura. Se cairmos no canto da sereia de pseudo-críticas como essa estaremos, com certeza, todos perdidos.

Crítico e pesquisador de cinema. Mestre e doutorando em Antropologia Social (FFLCH-USP). É pesquisador associado ao NAPEDRA-USP, onde estuda as formas de aparição das cidades no cinema contemporâneo brasileiro, com ênfase nos filmes de Adirley Queirós. Faz parte do grupo de programadores do cinecubo IAB-SP e é co-editor da Zagaia em Revista.

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