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Deixa rolar (Qual é a grandeza?, 2022)

Este texto faz parte da cobertura da 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Qual é a grandeza? (Marcus Curvelo, 2022) é um filme de conversas que cria uma situação particular para pensar de forma burlesca a atual situação dos cineastas independentes no Brasil. Um jovem cineasta fracassa em sua luta por criar filmes. Ele quer desistir de tudo e, numa praia de Salvador, começa a dar seus curta-metragens em formato de DVD aos transeuntes – estes são, invariavelmente, interpretados pela voz do próprio diretor no fora de campo.

A obra pode ser decomposta em duas partes. A primeira metade toma a forma de uma série de entrevistas de passantes com o realizador fracassado, cujas respostas nos causam riso, mas também suscitam uma reflexão sobre a atual dificuldade de fazer cinema independente num país onde o Ministério da Cultura foi extinto e, subsequentemente, as políticas públicas para o setor desandaram. As conversas apresentam um tom leve e descontraído, apesar da gravidade da situação. Tudo se passa como se nada mais pudesse ser feito, apenas trocar ideias suavemente e entregar o resto pra Deus.

A segunda parcela do filme utiliza uma simples e inteligente operação formal. O diretor inicia uma série de conversas com os comerciantes locais. No entanto, ele dubla todas as falas com uma serenidade que chega a causar uma curiosa estranheza. O ato de brincar com a voz de seus interlocutores vai além da simples piada, pois parte do princípio de que o diretor escutou e tomou para si cada palavra trocada com estas pessoas com um cuidado que o permitiu repeti-las ao seu modo.

Este estilo artesanal e burlesco faz parte da caligrafia de Marcus Curvelo e já estava presente em outros filmes do diretor, como Mamata e Eu, empresa. No entanto, nesta nova obra o autor desloca nossa atenção de seu alter ego Joder para outras figuras humanas, sem largar mão de sua voz marcante, seu jeito particular de falar e nos causar risadas nervosas.

Por fim, este curta apresenta uma astúcia formal e uma faceta hilariante que não deixa de ser trágica. Diante das ofensivas do atual governo de extrema-direita ao campo da cultura, o filme parte da práxis de que só nos resta rir de nossa própria desgraça.




Crítico e pesquisador de cinema. Mestre e doutorando em Antropologia Social (FFLCH-USP). É pesquisador associado ao NAPEDRA-USP, onde estuda as formas de aparição das cidades no cinema contemporâneo brasileiro, com ênfase nos filmes de Adirley Queirós. Faz parte do grupo de programadores do cinecubo IAB-SP e é co-editor da Zagaia em Revista.

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