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Confissão Desavergonhada (O nascimento de Helena, 2021)

Este texto faz parte da cobertura da 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

O novo filme do coletivo Surto & Deslumbramento atualiza um procedimento visto no curta Virgindade (2015), de Chico Lacerda. Em O Nascimento de Helena, o diretor e narrador Rodrigo Almeida envia uma longa mensagem em áudio para sua amiga, relatando uma intensa fantasia de infância, de destruir o casamento de uma tradicional família brasileira. Como em Virgindade, O Nascimento parte da natureza escandalosa da palavra para incidir sobre a imagem, evidenciando a discrepância entre um regime e o outro. É verdade que as abstrações e efeitos visuais que acompanham as vontades sadomasoquistas de um menino que sonha em aparecer pelado na frente da casa de seu professor de escola são muito diferentes dos planos fixos dos locais onde outra criança viveu suas primeiras experiências sexuais. Enquanto em um a relação som-imagem não poderia ser mais evidente, promovendo uma transformação nos significados das fachadas de casas, prédios e escolas, o outro destarte nos parece menos causal.

Nos primeiros minutos, ainda engatando o contexto da história, a tela é um livre jogo de formas com espirais, linhas e ruídos digitais. Progressivamente, as fugidias figurações, eventualmente discerníveis em meio ao excesso, vão cristalizando em paisagens, rostos e deslocamentos que dão o tom de uma viagem de ônibus para o litoral registrada pela câmera. Vamos de esparsas sugestões até algo como uma sequência de stories do Instagram. A narração também vai encontrando seus rumos, a fixação erótica encontra seu objeto em um pai de três. Som e imagem agem paralelamente, sem nunca fazer da tela um princípio de ilustração, preservando a autonomia entre o dizer e ver. O Nascimento usa da confissão em um tom igualmente não coercitivo, adiando uma possível expiação. Ao invés de neutralizar o caráter profano das ações por meio da voz, a confissão é desavergonhada, incrementando os desejos daquele que, mesmo que de pernas bambas, caminha rumo à sua satisfação.

Os filmes da Deslumbramento permanecem atentos ás forças criativas das supostas más consciências, encontrando seu novo mote na destruição das famílias, no prazer da traição. O efeito é ainda mais fecundo por uma outra liberdade, entre a palavra e voz, que enuncia a história de modo tão casual e desinteressado que beira aos motes do discurso estético de séculos passados, pela ausência de propósito ou utilidade da experiência. É por um apego ao instante e a intensidade que lhe é própria, que O Nascimento desarmoniza o equilíbrio que sustenta a superioridade do matrimônio tradicional à uma trepada culpada com um qualquer em lugar nenhum. Que essa fantasia tenha acompanhado o narrador durante toda sua vida, nos diz que, em verdade, mais que um fantasma a ser represado, o desejo é uma vocação a ser manifesta no mundo.

Graduado em Cinema e Audiovisual pela PUC Minas e atualmente mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG.

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