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Como transar na pandemia de covid 19 com segurança (Seguindo todos os protocolos, 2022)

Este texto faz parte da cobertura da 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Nos últimos anos a vida de críticos e curadores de cinema foi povoada por filmes de pandemia. Este fenômeno é resultado de uma reação inevitável ao contexto de crise sanitária global, o que nos leva a valorizar essa produção como uma importante tendência histórica. No entanto, a frustração é às vezes inevitável diante de uma fornada de filmes repetitivos e, muitas vezes, enfadonhos – poucos ainda suportam filmes-diários relatando os dias de reclusão com um ar de luto. Poetizar o dia a dia nunca esteve tão próximo do inferno.

Este não é o caso de Seguindo Todos os Protocolos (Fábio Leal, 2022), ficção histriônica cujo humor cáustico nos pega de surpresa tal qual uma sagaz rasteira. Rir de nossas mazelas parece, ao fim e ao cabo, o melhor recurso expressivo para se fazer um filme sobre a pandemia na atualidade.

Do ponto de vista da sociabilidade, a abstinência sexual talvez seja uma das maiores desgraças do dia a dia daqueles que, como o protagonista do filme, seguem todos os protocolos de isolamento social para a contenção do covid 19. Pois esta problemática é a força motriz do filme de Fábio Leal, que se desenvolve de maneira extremamente sofisticada em sua delicadeza e hilariedade. Se o cotidiano dos tempos de distanciamento social se tornou lugar comum dos filmes de pandemia, esta obra se coloca na tarefa de reinventar esta situação de maneira bastante original.

O filme explora a faceta cômica dos desentendimentos e desconfortos que surgem das tentativas de interações sexuais do protagonista, interpretado pelo próprio diretor. Tudo parece dar errado entre paranoias e rituais domésticos de contenção do vírus. O humor do filme vem, portanto, dos rebotes sociais que os processos criados por esse personagem produzem em sua obstinada luta para seguir todos os protocolos sanitários.

No entanto, a obra apresenta um choque de humores. No decorrer do longa-metragem o que era humor cáustico se torna melancolia – “eu preciso ficar só”, diz com tristeza o protagonista numa de suas transas fracassadas. Riso, choro, tesão: entre tudo isso, a beleza de uma mise en scène que acolhe os detalhes do que se mostra como a tentativa desesperada de amar em tempos de solidão extrema. Um bom exemplo disso é o plano em que acompanhamos um dos amantes do protagonista acariciar sua bunda por puro gracejo  num primeiríssimo plano frontal. A carícia é catalisada por ser, na dinâmica dramatúrgica que o filme estabelece, algo próximo do impossível.

O filme termina com uma catarse sexual de tom performático num espaço claramente destacado dos lugares corriqueiros em que a maioria do filme se desenvolve. Depois de transarem loucamente numa motocicleta, os parceiros saem pelados e mascarados pelas ruas da cidade pilotando a moto. Esta cena existe simplesmente para ser um emblema da liberdade e do amor em tempos sombrios. Uma espécie de ponto de fuga que afirma que amar, apesar de tudo, ainda é possível.

Crítico e pesquisador de cinema. Mestre e doutorando em Antropologia Social (FFLCH-USP). É pesquisador associado ao NAPEDRA-USP, onde estuda as formas de aparição das cidades no cinema contemporâneo brasileiro, com ênfase nos filmes de Adirley Queirós. Faz parte do grupo de programadores do cinecubo IAB-SP e é co-editor da Zagaia em Revista.

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