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Cinema da crueldade (Centelha, 2021)

No ponto de desgaste a que chegou nossa sensibilidade, certamente precisamos antes de mais nada de um teatro que nos desperte: nervos e coração.

Antonin Artaud

Haverá cantoria nos tempos sombrios? Sim. Haverá cantoria sobre os tempos sombrios.

Bertolt Brecht

O teatro da crueldade proposto por Antonin Artaud se dirige de forma violenta a todo o organismo do público, produzindo um abalo sísmico e sensorial fundado no terror em resposta à degeneração do mundo moderno. Este gesto disruptivo tem o objetivo de provocar uma renovação do pensamento e das sensações dos espectadores que, em sua perspectiva, estão entrelaçados. Ora, é justamente isto que está em jogo no curta-metragem Centelha (Renato Vallone, 2021). Nesse sentido, o filme em questão articula gestos, sons, ritmos, palavras e ressonâncias de forma violenta a fim de despertar seu espectador para um mundo infernal em que todos estamos enredados. Trata-se de uma obra visceral tendo a crueldade como força motriz e a pele rasgada de seu personagem como forma expressiva.

A imagem que vemos em preto e branco é fortemente contrastada, o que reveste o filme de tragicidade. O plano fechado nos mostra um homem desfocado. Em segundos, o foco é ajustado e distinguimos sua figura – vemos a nuca, a orelha, seus cabelos grisalhos e seu braço magérrimo. Ele está agachado e é filmado em plongée – um corpo franzino na escuridão. O plano se estende enquanto o personagem canta de cabeça para baixo. Suas veias se contraem no pescoço e gotas de suor navegam por seu corpo enquanto escutamos uma voz que varia entre o sussurro e o grito. Centelha é um filme sensorial que convida o público a uma imersão em seu ambiente. 

Na próxima cena o personagem prepara uma refeição e alimenta os animais que cria em sua morada. Escutamos os seus movimentos pela casa e o barulho da chuva que bate nas telhas, o que produz uma atmosfera melancólica. “Aí. Pode comer à vontade. Que assim você não me perturba a tarde toda”, diz o homem. Antes de mais nada, o ser humano tem fome, diria Artaud. O importante para a estética proposta pelo artista é extrair sua força expressiva do fato de que sentimos fome – e é justamente o que Centelha realiza. Escutamos os ruídos do ritual doméstico enquanto a câmera vai adentrando o casebre miserável – vemos as paredes sem reboco e seus animais de estimação em planos fechados. A câmera na mão deambula pelo espaço que servirá de palco para um monólogo trágico sobre o Brasil contemporâneo. Por não mostrar com amplitude este palco, o filme o dilata imaginativamente a fim de nos conduzir por seus caminhos labirínticos, o que o transforma em lugar de mistério e terror. Seus pés nos guiam no claro-escuro da morada faminta.


Das sombras surge um rosto parcialmente vestido por uma máscara cirúrgica. Este elemento figurinístico talvez seja um ponto frágil da obra, uma vez que efetua uma datação muito cerrada do filme em relação ao contexto da pandemia de covid-19. O gesto de circunscrever o curta ao tempo da crise sanitária se choca com o discurso do personagem que diz respeito a uma história mais ampla da opressão aos pobres no Brasil. No entanto, o conflito não apaga a força da fala do personagem que nos diz: “Não sei o que é comer há três dias. Me deu vontade de morder a minha cama. Comer madeira. Sabia que na minha cama a cabeceira é o rosto da liberdade? Parece um rosto chinês. Um dragão. Uma serpente. Uma jibóia!”. Um gesto surrealista que transfigura a fome em figuras dissonantes com o fim de nos espantar. Durante sua fala, a câmera foca primeiramente seus olhos, depois sua boca e, por fim, suas mãos com os dedos esticados que parecem nos lançar um poderoso feitiço – ou seria um contra-feitiço?

Para além do conteúdo do discurso supracitado, me chama a atenção a mise en scène epidérmica que acolhe este homem. Os planos fechados colam a câmera na pele do personagem para nos fazer sentir a fúria de seu corpo. Por meio desse recurso, o filme mostra seu rosto olhando para o nada – seus olhos esbugalhados nos comunicam um espanto originário. Tal qual a alegoria do anjo da história escrita por Walter Benjamin, o personagem parece estar em uma encruzilhada de tempos: uma grande tempestade chamada progresso o conduz para o futuro, mas ao olhar para o passado, ele se espanta por perceber uma grande catástrofe que amontoa a seus pés os cadáveres dos derrotados de outrora. A partir de um salto acrobático, ele se volta para trás no desejo de recolher os cacos da história num presente de horrores e injustiças. No filme, o assombro do ator é perceptível pela fisionomia de seu rosto magérrimo que tenta despertar no público, simultaneamente, a melancolia de um presente de derrotas e a centelha de esperança num futuro menos desgraçado.


O filme termina com um ritual estranhíssimo. Se em Terra em transe (Glauber Rocha, 1967) nós assistimos à coroação do tirano Porfírio Diaz, em Centelha nós encontramos uma inversão dessa lógica. Somos convidados a observar a cena em que a aparição fantasmática de uma santa dos pobres e desgraçados deposita uma coroa florida na cabeça do homem. É, com efeito, a construção imagética do rei dos oprimidos – aquele que luta ao lado dos pobres contra a nossa ininterrupta colonização. É contra o eterno retorno da fome e miséria que esta figura é  erigida.

A rebelião de Centelha é também contra certo cinema brasileiro que busca se adequar às regras de um mercado que não diz respeito à nossa realidade social. O filme de Renato Vallone é, portanto, uma obra que se opõe furiosamente às tendências do cinema mundial. Tudo se passa como se o filme, num gesto de recusa à etiqueta dos grandes festivais internacionais, nos dissesse: nossa realidade é a fome e nossos filmes têm que refletir a partir dessa fome de comer e de pensar. Centelha é uma obra que quer expressar a miséria dos pobres e, nesse gesto, toma uma posição contra a inteligência artística de um país em que o cinema ainda é colonizado pelo canto da sereia do mercado de arte mundial.

Em correspondência com algumas obras brasileiras recentes que elegeram a escuridão como forma de expressar os horrores do Brasil pós-golpe, o filme de Renato Vallone é desenhado nas trevas e para as trevas de um país em ruínas. O discurso deste homem é enunciado com raiva. Sua fala se concretiza em cena como uma ação de rebeldia em relação ao Brasil neo-fascista em que a fome dos pobres cresce e os ricos engordam – um país em que o fantasma da miséria se agiganta enquanto nós seguimos imobilizados. O filme ressoa, portanto, o grito dos excluídos – o berro visceral dos humilhados e ofendidos.

É pela profundidade do delírio que Centelha busca a constelação do despertar para um presente monstruoso em que todos temos que tomar uma posição. A obra funciona como uma tentativa de curar as chagas da colonização por meio da arte. Desse gesto surge um cinema da crueldade que parece querer parar o tempo e dizer: BASTA!

Crítico e pesquisador de cinema. Mestre e doutorando em Antropologia Social (FFLCH-USP). É pesquisador associado ao NAPEDRA-USP, onde estuda as formas de aparição das cidades no cinema contemporâneo brasileiro, com ênfase nos filmes de Adirley Queirós. Faz parte do grupo de programadores do cinecubo IAB-SP e é co-editor da Zagaia em Revista.

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