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Cataclisma ou a poesia do fim (Avá: até que os ventos aterrem, 2022)

Este texto faz parte da cobertura da 25ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Avá: até que os ventos aterrem (Camila Mota, 2022) é um filme que estabelece um experimento entre o cinema e o teatro em três atos para pensar o tempo atual em que poderosas forças geológicas ameaçam nossa sobrevivência. Uma era em que a natureza se rebela contra toda a destruição que a modernidade produziu, chamada pelos especialistas de Antropoceno. A obra é produzida com o grupo paulistano Teatro Oficina e se apresenta, nas primeiras cartelas, como um OAVNI: Objeto Audiovisual Não Identificado. Tal qual os espetáculos do grupo teatral, a dramaturgia do longa-metragem é fragmentada e procura estranhar o mundo. Mas até onde esse estranhamento vai em termos formais?

Depois das cartelas de título, uma vela é acendida na escuridão – gesto que parece iniciar uma espécie de ritual funerário da humanidade. Outra cartela emerge do breu para nos informar: “53 anos antes ou depois de ninguém”. Esta operação caracteriza a ficção porvir de um aspecto atemporal e mitológico. Os fins e os começos são, como sabemos, muito similares.

O que se segue é a apresentação de uma série de imagens de arquivo que expõem diferentes movimentações do mundo contemporâneo: vemos manifestações políticas, incêndios, explosões, prédios desabando, demolições, automóveis destruídos, cidades soterradas, vulcões em erupção, serras fatiadas pela ganância de mineradoras, cadáveres sendo carregados, enchentes catastróficas. Tudo isso numa montagem que procura confundir nossos sentidos a partir de cortes bruscos, sobreposições de imagens e variações cromáticas. Na banda sonora, um tambor marca o compasso do início do fim, o que produz a sensação de estarmos num preâmbulo ritualístico. Estaremos todos perdidos?

Os três atos da obra se desdobram no próprio Teatro Oficina, obra arquitetônica de Lina Bo Bardi transformada, pela construção cenográfica, em instalação que acolhe o drama. O filme aposta no poder de seu texto para não apenas desvelar a situação catastrófica do presente histórico, mas também produzir uma poesia dos fins e começos em nosso planeta.

No entanto, sua maior força também pode ser vista como fragilidade. Se a palavra é a maior brisa de Avá: até que os ventos aterrem, seu monopólio termina por deixar as cenas esvaziadas de gestos e ações dramáticas. A exuberância da composição espacial, figurinística e textual da obra contrasta com sua esterilidade em produzir uma mise en scène capaz de nos fazer pensar sua importante temática.

A montagem atribui um ritmo acelerado às cenas pela sucessão de cortes bruscos, o que produz a sensação de desespero ou mesmo agonia nas cenas. Apesar do ritmo adequado às intenções discursivas da obra, o filme manifesta uma linearidade convencional que busca apenas conectar as partes sem nenhuma articulação notável além da operação que estrutura seu preâmbulo arquivístico. Acompanhamos, em grande medida, um bate e volta discursivo entre duas personagens e, em certa altura do filme, uma digressão que faz entrar em cena uma terceira personagem que monologa diretamente a quem a assiste, gesto que quebra a quarta parede. Trata-se de uma montagem que nos acomete por seu ritmo, mas apresenta uma lacuna reflexiva que desaponta o espectador.

O final nos leva a rememorar uma das cartelas iniciais. Se todo fim é também um começo, a obra afirma uma retomada da natureza sobre os escombros da cultura moderna. Um mundo pós-humano parece estar por vir. A terra ressurge das cinzas das civilizações. Mas o filme, ainda que anuncie essa ressurreição pela fala de uma de suas personagens, não consegue criar uma mise en scène que expresse o cataclisma que seu texto anuncia. A palavra soberana é, ao fim e ao cabo, sua mais poderosa arma e, talvez, a porta-voz de seus limites como cinema.

Crítico e pesquisador de cinema. Mestre e doutorando em Antropologia Social (FFLCH-USP). É pesquisador associado ao NAPEDRA-USP, onde estuda as formas de aparição das cidades no cinema contemporâneo brasileiro, com ênfase nos filmes de Adirley Queirós. Faz parte do grupo de programadores do cinecubo IAB-SP e é co-editor da Zagaia em Revista.

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