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Bárbara,

Bárbara,

Não sei se o tempo dilatou ou contraiu por aqui. Sei que, se ‘tempo’ não é sinônimo de duração, essa coisa (nem sempre) abstrata talvez se aproxime de um espiral infinito. 

Será que é por isso que o ‘muito’ acontece onde aquilo que (dis)corre é curto? 

Quanto fôlego é necessário para caber tanto em dois minutos? 

Em quais tempos se conta o que se conta? 

E com quais microscópios/amplificadores lê-se um inventário? 

Seria menos uma questão rítmica ou de cadência, e mais sobre ‘o quê’ e ‘como’ se tece uma fala-memória?

É algo na forma, no conteúdo, no todo, na parte e não somente? 

Então se escreve SOBRE (‘a respeito de’), e/ou se escreve SOB (‘em estado de’)? 

Só que tem também uma outra coisa: aquilo que não se diz. mas essa não é uma resposta.

… 

Dois RGs são postos lado a lado, o de Bárbara e o de seu pai, Vander. A imagem mental que crio (da intersecção entre o som da fala e aquilo que a câmera registra), atravessa e é atravessada pela imagem literal (documentos de identificação civil). 

Está no sobrenome, na boca, nos cabelos e nos olhos, mas, as mesmas imagens e sons que aproximam pai e filha no espaço fílmico, também os distanciam: não está.

E vem de maneira frontal: ausência, alienação, desresponsabilização paterna, racismo estrutural, e não “somente”.  

O que se escreve sobre e/ou sob essa imagem, escreve-se, sobretudo, na ambivalência do encontro-confronto? 

Quando lembra-esquece, especula? 

“hoje eu escrevo filmes e nenhum deles tem final feliz” – ouvir da voz de Bárbara; possivelmente porque não se trata de romantizar a si nem aquilo que se tece. Possivelmente porque o mundo das imagens e dos sons implicam-se com o mundo do vivido, e 

mais que isso: se o tempo é um espiral infinito e o espaço é movência, eles não mais abrem ‘ou’ fecham, fazem as duas coisas juntas, “apesar das acontecências” – ouvir da voz de Conceição Evaristo.

e firma no chão: é preciso plantar algumas palavras, mas não todas. 

e então flutua: se a escrita é narrada sobre e sob a possibilidade de caminhar entre as aberturas e fechamentos, o que se revela e o que se esconde quando se escreve uma história?  

Curta-metragem Vander (2020, 2’36’’), de Bárbara Carmo

Mestranda no Programa de Pós-graduação em Artes, Cultura e Linguagens (UFJF). Pesquisa autobiografia, autoficção e modos de escritas de si no cinema brasileiro contemporâneo. Trabalha com cinema e outras artes.

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