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Destacamento 40. Elogio da utopia

 “A vivência com os camponeses que viveram na pele a repressão da Ditadura nos impactou”

 
Fernando Birri, cineasta argentino, define a utopia como horizonte. Aproximando-nos dois passos, ele se afasta dois; dez passos, ele se vai dez. Se perguntamos pra que ela serve se jamais a alcançamos, a resposta: para não deixarmos de caminhar. 
 
O debate das utopias para minha geração (tenho 27 anos) é difícil: geralmente meus colegas almejam passar em concurso público, comprar carros, ter boa morada. Mudar o mundo? Dá trabalho e está fora de moda. Mas as rodas vivas da história giram: vemos revoluções árabes, ocupações e protestos globais mundo afora.

 

Depois de presenciar, numa sensação de angústia e alívio, a chegada dos restos mortais do cearense Bergson Gurjão, um dos jovens sonhadores, assassinados pela Ditadura Militar, formei com colegas um coletivo artístico cuja utopia é encontrar mortos e desaparecidos políticos da última ditadura brasileira. De 2010 pra cá temos realizado no Brasil o rebatismo de locais que referenciam ditadores, colagem de cartazes dos rostos de desaparecidos, pinturas murais e intervenções urbanas radiofônicas.

 

Partimos no coincidente 12 de abril – data de ‘comemoração’ dos 40 anos da Guerrilha da Araguaia – para Marabá (PA), cenário de uma guerrilha exterminada pelas forças armadas brasileiras, o que faz nosso país amargar a condenação internacional por ocultação de cadáveres, desaparecimento forçado e ocultação de arquivos.

 

Durante 16 dias mergulhamos no cotidiano da cidade, conversando com moradores e militantes de movimentos sociais através da nossa rádio livre: a Rádio Zuada, 103,5 FM. A vivência com os camponeses que viveram na pele a repressão da Ditadura nos impactou. Conversamos com toda uma família torturada: relatos vivos nos dizem de vozes silenciadas, trabalhos forçados, estupros, assassinatos e desaparecimentos de corpos. Na despedida, a matriarca asseverou: vocês se parecem com eles, com os guerrilheiros.

 

Outro chamado nos apelou: o caminho das matas. Em viagem de hora e meia alcançamos um local que serviu de morada dos guerrilheiros. E lá, 40 anos depois, choramos por eles. Depois de anos de esquecimento, uma geração mais velha nos rebatizou guerrilheiros. Recomeçou nossa história que só termina quando avistarmos o horizonte utópico daquela mata, só termina quando encontrarmos todos os caídos pelo terrorismo de Estado de ontem e de hoje. Somos eles. Somos guerrilheiros desaparecidos. Somos os Aparecidos Políticos.

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