A memória das coisas

Esse texto faz parte da cobertura do 24º forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte

Xandoca – Takumã Kuikuro, Davi Marworno (2019)

Um canto enunciado por voz desconhecida se associa com sons da mata na paisagem sonora das primeiras imagens de Dona Xandinha. Os movimentos quase imperceptíveis do corpo da personagem nos levam até os mínimos gestos de suas mãos na confecção de um colar. A câmera se aproxima do trato com pequenas peças paulatinamente inseridas no fio e repara no trabalho minucioso. O manejo inconstante do foco sublinha a inquietação daquele que filma, para quem o trabalho da nitidez desse objeto não é tão fácil e familiar quanto é sua confecção para a anciã indígena do povo Karipuna. Takumã Kuikuro e Davi Marworno tecem assim os primeiros enquadramentos desse filme de passeio pelas memórias da paisagem, do trabalho e dos ancestrais, em que filmar, mais que apreender, é aprender. 

 

Acompanhamos os fazeres diários da anciã do povo Karipuna reparando em suas roupas, adereços e ferramentas. Os planos se movimentam ao redor dos objetos e paisagens, construindo relações a partir da escuta de sua voz narradora, como nas imagens do céu justapostas a rememoração de sua mãe, ou no plano que se desloca de sua mão até um cesto artesanal. A integração da personagem a tudo aquilo que a cerca faz da memória de Xandoca uma substância entramada à própria história de Santa Isabel. As imagens das casas, ruas e rios estão preenchidas pela fala. 

Quase sempre sozinha nos planos, Xandinha diz sentir-se deixada de lado por alguns de seus filhos. Suas tarefas cotidianas são o resguardo de uma vida de forte vínculo ancestral que destoa do mundo distante de seus parentes. Mas a espiritualidade indígena, que abria os caminhos dos primeiros momentos do curta, acompanha Xandoca e tudo aquilo que é objeto de sua devoção. São as forças que lhe fazem companhia. E com os cuidados de sua filha, a anciã continua seus trabalhos pelo prazer, prosseguindo no zelo pelas pessoas e cultivo das coisas que seus pais lhe ensinaram, que são parte também dos fundamentos dessa terra. 

 

Ao fim, as fotografias do enterro de Dona Xandinha, juntas de seu canto,  mostram a população da aldeia honrando sua passagem e povoando os fotogramas. Assim que se acabam, ela reaparece explicando que com sua voz estava “anunciando que é o maracá, o caxixi e o arukamã estrela grande”, encontrando compreensão rápida no antecampo. Sua fala nesse plano final interpela realizadores e espectadores, perguntando bem humorada “Deu pra entender?”. A pergunta ressoa não só na dificuldade para aqueles espectadores que não conseguirão traduzir sua fala, mas também pela aparição das fotos de seu corpo sendo devolvido à terra. As imagens desse encontro, onde a rotina é a continuação de um trabalho silencioso de manutenção da vida, fazem das mãos e palavras de Xandoca a preservação dos sentidos de um povo. O cinema assume assim a tarefa artesã de inscrever em sua tessitura os caminhos da escuta ancestral e transmiti-la ao futuro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *