Você perdeu um curta-metragem didático excelente!

Tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado se quiser voar, se quiser voar. O Carimbador distribui condições sem as quais a interdição é marca: Plunct plact zum, não vai a lugar nenhum. Se para a lua a taxa é alta, para as mulheres ela era em demasia elevada. Era, de fato, um embargo para que conseguissem alcançar vôo. O cenário começou a mudar com Ada Rogato, uma pioneira a conquistar a permissão de viajar pelo universo.

Esta história é contada em Folguedos no firmamento¹ (Regina Rheda, 1984), obra que caiu atrás do sofá e ficou esquecida lá. Trata-se de um filme universitário, curta-metragem, dirigido por uma mulher: uma combinação de elementos para potencializar a desatenção dos críticos e pesquisadores. Folguedos ficou no ponto-cego da história do cinema brasileiro.

O filme começa em um autocine (cinema drive-in), onde é apresentada Iaiá, uma mulher que foge aos padrões estéticos, e Fugiro, seu namorado. Ele tenta uma aproximação física forçada, enquanto ela resiste dizendo “só depois do noivado”. Após reclamar, Fugiro vê uma garçonete convencionalmente atraente, inventa uma desculpa e vai atrás dela. Em seguida,  o filme o qual foram assistir no auto-cine começa. É a história de Ada Rogato, a primeira mulher na aviação brasileira. Ao fim da história, Iaiá, inspirada na heroína, transforma-se em um avião. Tendo embelezado-se segundo os moldes sócio-culturais e vestindo uma aeronave de papel, ela corporifica a cantada da mulher-avião. Dotada de seu dispositivo para alçar vôo, Iaiá canta suas conquistas: “com meu teco-teco posso ter um romance em cada aeroporto”, “se eu sobrevoar o oceano, arrumo um namorado no Japão”, “com o meu pequeno aeroplano, lá na lua um dia vou parar; para namorar um marciano, brevê de astronauta vou tirar”.

A empolgação da personagem, nesse momento, posta no sorriso constante, e na enumeração de seus feitos, descortina a ampliação de suas possibilidades pós metamorfose. Faz-se crer na efetividade de uma revolução na qual a beleza supostamente abriria portas para as mulheres. Crença essa vendida na mídia pelas mais diversas marcas. O poder, a liberdade ou a aceitação que vêm da beleza (um conceito de beleza padrão, que reforça características da feminilidade), que, por sua vez, pode ser adquirida com o uso de produtos artificiais e comercializados. Um empoderamento que, ao contrário de autonomia, desenvolve uma dependência de itens que, para serem adquiridos, demandam dinheiro. Trata-se, portanto, de uma ilusão de libertação, que cria outros mecanismo de aprisionamento, e é restrita a uma classe social dotada de privilégio econômico. No curta, o avião é a metáfora da mercadoria. Ele é vendido por Ada e comprado por Iaiá, que leva o fetiche do produto comercial ao ponto de se tornar o próprio avião. A aeronave, contudo, é apenas uma ideia de autonomia, o que é reforçado pela carnavalização da cena, na medida em que Iaiá passa a vestir uma fantasia de aeroplano.

Em um movimento anti-catártico, a ironia é o dispositivo utilizado para reforçar a crítica. Da pantomima à construção dos cenários e figurinos: tudo é exagerado, burlesco, caricato. Uma mistura do Xou da Xuxa, da década de 1980, com Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, em uma estética peculiar e pouco comum a peças audiovisuais de caráter crítico. Recorre-se ainda a construções comuns à chanchada, com a interrupção da progressão narrativa para a inserção de uma personagem feminina considerada sensual pelos padrões sócio-culturais, que exibe-se com o corpo à mostra, enquanto dança e canta. A escopofilia, prazer em olhar para corpos erotizados, é alimentada pela aproximação com as artes do espetáculo, por meio da permanente decupagem frontal e da interação com a câmera. Tais procedimentos, no entanto, uma vez que se encontram inseridos no regime da ironia que perpassa todo o filme, subvertem a tradicional objetificação das mulheres recorrente às chanchadas.

Iaiá, transmutada, é uma caricatura da representação feminina neste gênero cinematográfico. Depois de ressaltar todos os “benefícios” que conquistou após sua metamorfose, ela constrói uma antítese em seu discurso, advertindo para as limitações de sua transformação: “Meu conselho deve aceitar quem um avião não possuir: é muito gostoso encontrar outro jeito de às nuvens subir”. A pressuposição da heterogeneidade da posse de um avião e o incentivo à busca por outros meios de alcançar vôo configura-se como um alerta do caráter limitado e limitante do “empoderamento” pelo batom vermelho. Para criar a crítica ao sistema patriarcal e sexista, recorre-se a estratégias da linguagem cinematográfica que distanciam o filme da chave do discurso político comprometido.

Ada Rogato também tem sua liberdade limitada. Ela só pode existir enquanto ambiguidade: ela é mulher e não o é. Seu percurso revela um caminho profissional trilhado em meio a espaços de masculinidade absoluta, que mesmo com a presença pioneira de uma mulher, não conseguem renunciar às marcas de um único gênero dominante. Mimoseada com a mais importante condecoração a que um piloto pode aspirar, foi conferido a Rogato grau de cavalheiro. Em meio a uma parabenização desajeitada de um garboso oficial, este enfia um charuto na boca da aviadora, que tosse e franze o cenho, revelando o desconforto e a des-familiaridade com o objeto. Para conseguir adentrar no espaço da aeronáutica, Ada precisa passar pelo crivo de um Carimbador Maluco, que exige conformações: ainda que haja reconhecimento por seu trabalho, este será no masculino e inevitavelmente acompanhado de um charuto-falo.

Ao mesmo tempo, a pioneira não consegue se libertar totalmente das amarras de uma feminilidade compulsória. O respaldo médico, um discurso de autoridade, é usado para a manutenção das tarefas as quais tradicionalmente as mulheres devem executar. Ada precisa administrar o cuidado de criancinhas com coqueluche e a direção de um avião, enquanto realizava um vôo terapêutico, supostamente benéfico para a cura da doença. A evasão para um espaço outro que não a casa não é suficiente para o desprendimento do trabalho doméstico. A conciliação está posta: dotada de um tradicional chapéu e óculos de aviador – símbolos do que durante décadas foi interditado às mulheres – ela usa um salto alto e tenta aprender a dançar para ser recepcionada em um baile no cassino dos oficiais da aeronáutica. A aceitação em um posto marcado pela masculinidade só é possível frente a adequações a características atribuídas a este gênero, ao mesmo tempo em que a abdicação completa de funções exigidas à feminilidade se mostra irrealizável. Ainda que transgressor, seu pioneirismo no campo da aviação não é suficiente para a erradicação de um sistema patriarcal nem no nível coletivo nem no individual.

O uso de um filme dentro do outro permite explorar diferentes adequações e subversões de gênero e seus efeitos no percurso de emancipação das personagens. Na jornada de Ada, compreende-se que a conquista de autonomia está ligada ao rompimento de barreiras e ao consequente trânsito em espaços interditados às mulheres. Para isso, a personagem é levada a conciliações entre o feminino e o masculino. Concomitantemente, Iaiá entende que o que lhe faltava para a sua libertação era a beleza, que lhe permitiria alçar vôo. Frente a esta lacuna, ela maximiza a feminilidade e, aparentemente, passa a se encaixar nos padrões estéticos. Entretanto, a manutenção de um binarismo e a conformação a moldes de gênero, em maior ou menor grau, mantém as personagens presas a amarras, seja da masculinidade, seja da feminilidade, revelando-se insuficiente para uma conquista efetiva da emancipação.

O discurso da liberdade pela aparência limita a experiência da liberdade à prática sexual e ao prazer corpóreo; reduz as conquistas das mulheres à mera libertação sexual: frente à possibilidade de voar pelo mundo, o que é ressaltado é ter um namorado em cada aeroporto. Já, no discurso conciliatório, a liberdade é uma quimera. Ainda há que se fazer concessões a uma voz de autoridade que só permite livre trânsito se estiver selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado. Ao manterem-se as noções de gênero, portanto, perpetuam-se as marcas impostas pelo opressor para permitir a dominação de um eu sobre um outro, anulando qualquer possibilidade de emancipação.

Folguedos no firmamento foi uma descoberta em meio à pesquisa que realizo sobre os curta-metragens feitos por diretoras brasileiras no contexto da ditadura civil-militar. Com esse estudo, encontrei diversos filmes que se destacam por sua construção estética e pela  contemporaneidade dos temas abordados. De fato, é preciso realizar um esforço de revisionismo histórico, olhar atrás do sofá, por entre as frestas, de baixo do tapete, tirar o pó e ver melhor. É preciso fazer resistência a um processo ativo de esquecimentos e sobreposições.

 

¹ O filme está disponível no Youtube, no link:

Estudante de Audiovisual na ECA-USP, desenvolve pesquisa sobre diretoras brasileiras na ditadura civil-militar. É organizadora do cineclube Cine Sapatão. É crítica e editora da Zagaia em Revista.

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