Violação, covardia, escarcéu

Onde moro há uma contradição essencial, entre outras. Estuprador é arrebentado, esfaqueado, estourado na vala com o pinto na boca, ao mesmo tempo em que cultivamos a cada minuto em nós a noção que se pode mexer, pegar, falar, cuidar da roupa e armar o que for pra uma mina desde que não seja tua irmã ou tua mãe. E ainda tem um salvo-conduto possível na boca de juiz da vila: por alguma coisa, tanto um guri quanto a Dona Maria ainda poderão dizer que se “mereceu” a covardia do macho. Então é a cada dia com teu filho, com a mulecada e com os coroas, mesmo passando por forgado ou se marcar até por lóki no bar, na calçada e na fila, que a gente debate. É nesta sala de aula aberta chamada rua e também na escola, é sacando a TV que vende manchetes hoje mas que ontem chafurdou de tão sugestiva aos estupros na propaganda e na novela. Não é difícil lançar palavras indignadas em muitos palcos e lançamentos de livros, no facebook, em círculos que parecem modernos, bem formados: ali e aqui os aplausos e o “curtir” são esperados, semi-automáticos. Dá até um pouco de vergonha escrever, por isso. Parece oportunista. Aqui entre ladeiras, terminais e vielas é outra atmosfera e aqui carece ter essa linha na conversa, espinhosa ou compreensiva que seja. Há quem traga o B.O na pele e no Cep. Mesmo a gente que é homem e preto e periférico e é madrugada, que circula cabreiro de encontrar viatura na rua e que já foi barbarizado, é capaz que não sentimos nem metade do medo da mulher que circula à noite ligeira, temerosa com Jack no caminho. São 516 anos de estupro. Colonização fincou isso com suas bandeiras. ” Cunhado ” é aquele que deve emprestar o braço pra lida por meses, ele é o irmão da “cunhã”, a mulher que se estuprou. Ou seja, lusos e bandeirantes além de saciar seu apetite nefasto ainda garantiam sua mão de obra na viagem. Se não colocarmos o racismo destroçador no debate da naturalização da violência sexual, não terá profundidade. Será a grita até o próximo escândalo, politicagem ou desastre. Não passará de histeria e de postagem pra sintonizar com a geral. E a cada 11 minutos um pilantra irá estuprar uma mulher no Brasil, dentro de casa ou no beco. Dezenas de milhares de pretos foram linchados ou enforcados no sul dos EUA após sua guerra civil. Ali se criou e se propagou geral a fita do “negro estuprador”. Não apenas Angela Davis mas muita gente já escreveu sobre essa justificativa pra pendurarem frutas estranhas e pretas nos postes, sangradas, capadas ou degoladas, e como isto se liga a todos os carimbos sexuais e estereótipos que nos entranham. Motivação e pretexto também pra matar ou encarcerar. Que a gente abraçou e se pá pratica, mesmo na mente e na palavra que diz ou que ouve em silêncio.”

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