Verás que tudo é mentira*

(uma contribuição do professor Paulo Eduardo Arantes para a construção do Cordão da Mentira)

  « CHRISTINE: Pendant trois ans, mon   

existance a été basée sur le  mensonge.

Cette pensée ne me quitte pas depuis

que je les ai vus ensemble.

.

OCTAVE:  Écoute, Christine, ça aussi,

c’est un truc de notre époque!

On est à une époque où tout le monde ment:

le prospectus des pharmaciens, les gouvernements,

la radio, le cinéma, les journaux…

Alors pourquoi veux-tu qu’nous autres,

les simples particuliers, on ne mente pas aussi? »

Jean Renoir, La règle du jeu (1939)

         

            É verdade. Àquela altura, só mesmo Hitler podia se dar ao luxo de dizer abertamente a que vinha, seja na forma mal disfarçada da ameaça ou na insinuação de que muitos seriam chamados para a pilhagem. Há mais de uma década todo mundo podia mentir mas ninguém se enganava quanto ao fato de que toda uma época estava chegando ao fim e não um fim qualquer de uma época entre outras. Talvez por isso mesmo. Enquanto se esperava a guerra, representava-se o “drama divertido” da mentira, cujo palco era uma nação desmoralizada por vinte anos de crise. Em meio à incompreensão da esquerda e à indignação da direita, o filme de Renoir estreou em julho de 1939. Em agosto do ano seguinte, o país estava no chão. Depois é o que se sabe, o desespero e a vergonha da Ocupação. E no entanto seguiram-se os anos essenciais da Resistência, nas palavras de René Char, redescobertas por Hannah Arendt como “o tesouro perdido das revoluções”. Naquelas circunstâncias, passar para a clandestinidade, tornar-se um cidadão livre da República do Silêncio e da Noite, uma república sem instituições, sem exército e sem polícia, como a descreveria mais tarde Sartre, era simplesmente passar a viver na verdade, “sans fard et sans voile”. A mascarada à beira do vulcão chegara à sua hora final. Graças à obra prima de Renoir, impregnada até à medula de Marivaux, Beaumarchais e Cia., não escapou a ninguém desde então o sistema de vasos comunicantes aproximando o outono do Antigo Regime e sua farândula de espíritos desabusados brincando com fogo, do naufrágio europeu da civilização liberal. Num e noutro caso, a mentira socialmente exercida por virtuoses da dissimulação, mais do que a regra do jogo, teria sido também a senha do seu fim, sinal precursor do desastre a caminho. Pelo menos em sua sequência francesa, aquele milagre cinematográfico operado por Jean Renoir deixava claro que tanto a queda do Antigo Regime como a débâcle da República que o sucedeu deviam também ser encaradas como capítulos de uma peculiar crise histórica da mentira. Tanto deve ter sido assim que, nas duas crises, a hora decisiva e dramática de sua resolução tomou a forma de uma mesma vontade de verdade, ambas inegociáveis, seja na escalada do Terror, ou da Resistência sem trégua ao ocupante e seus colaboradores.

            Acontece que a mentira voltou a ser novamente, e em dimensões ciclópicas, un truc de notre époque! Por assim dizer, mas também literalmente, no atual sistema de poder e dinheiro a mentira vaza por todos os lados. Uma outra época de crise e decadência da mentira. Foi o que se viu, para citar logo a evidência mais escandalosa em escala mega, inclusive no sofrimento social, na crise de 2008, dita dos subprime. O que se viu afinal, por exemplo no documentário de Charles Ferguson, Inside Job, é que de fato tudo é mesmo mentira, que naquele mundo da ficção financeira “nada le importa”, tal qual se ouve no tango de Discépolo. Como se há de recordar, o colapso de 2008 e seu quadro de patologias foi apenas o mais recente numa série de abalos sísmicos do sistema, iniciada em meados dos anos 70, quando ficou claro que a trégua social assegurada pelos anos de crescimento do pós-guerra se encerrara para valer. Não será preciso enumerá-los, apenas observar que quatro décadas depois a crise a rigor é uma só, e na opinião do sociólogo Wolfgang Streeck, desta vez terminal, porém na forma de uma lenta agonia, um processo e não um acontecimento espetacular. E estaria morrendo por falência de seu sistema imunológico, pelo enfraquecimento do conjunto de restrições ao seu avanço desimpedido, a começar pelas outrora poderosas organizações do mundo do trabalho. Sem oposição, o sistema morrerá por overdose de si mesmo, na conclusão do autor.

            Não direi que não, pois estou acrescentando a compulsão sistêmica à mentira ao conjunto de “doenças” que o estariam levando ao fim, juntamente com a estagnação secular enquanto nova normalidade, a redistribuição oligárquica da renda e da riqueza, a pilhagem do setor público, etc. Não se trata apenas do declínio moral do capitalismo, que Weber concebera como a ética de uma vocação para a organização racional da vida, tampouco se reduz à soma dos efeitos colaterais da atual dominância financeira no regime de acumulação, graças à qual, como é sabido, ficou cada vez mais difícil distinguir inovação acelerada nos produtos financeiros da distorção ou violação das normas – não por acaso estamos lidando com variações do capital fictício. Refiro-me à observação da recorrência de denegações que embora corriqueiras não são menos desastrosas. Do tipo “o aquecimento global é ainda objeto de controvérsias científicas”, como noutros tempos se dizia haver dúvidas igualmente baseadas em pesquisas científicas a respeito dos riscos do cigarro para a saúde pública, até que se “revelou” que tais “mercadores da dúvida”, no geral cientistas de renome, pesquisavam sob contrato para as indústrias interessadas em alimentar indefinidamente um suposto contraditório, no caso, indústrias de energia fóssil ou de tabaco. Até que alguma fonte revele o embuste. Como ocorreu com as maquinações que levaram a bolha dos subprime até o seu estouro: governos, bancos, agências de rating, consultores acadêmicos, colunistas, etc, todos mentiam como respiravam ou se auto-enganavam por dever de um ofício movido pelo fetiche do dinheiro que rende dinheiro.

            Meu ponto comporta assim uma dupla entrada no diagnóstico deste sintoma de época por excelência, tanto a fabricação da mentira, e se estatal, uma indústria, a do segredo e similares, que se perde na noite dos tempos, mas cuja operação contemporânea comporta uma novidade de alcance ainda mal avaliada, e esta é minha segunda entrada, o vazamento, hoje em escala igualmente industrial, dessa mesma mentira fabricada nos altos escalões da engrenagem dominante. Observo de passagem que me expresso deliberadamente num tom próximo do conspiratório. Não é mera coincidência que uma palavra poderá um dia vir a resumir este novo tempo do mundo, leak. Que começa exatamente no marco zero da crise que estamos atravessando há quatro décadas como uma segunda natureza, com o grande vazamento dos Papéis do Pentágono, documentando o envolvimento norteamericano na Indochina de 1945 a 1968. Naquele momento, 1971, a coragem de dizer a verdade de uma analista da CIA (Daniel Ellsberg) provocaria o maior vazamento da história política americana de que se tinha notícia: 7000 páginas de evidência documentária de que durante 23 anos quatro administrações presidenciais mentiram descaradamente para o público e o Congresso. Em junho de 2013, Edward Snowden repetiria a façanha numa escala inimaginável, tanto pela coragem extrema demonstrada novamente, como pouco antes, pelo soldado Bradley Manning, quanto pelo alcance global dos poderes ilimitados do Estado de Vigilância que governa o mundo.

            No presente estado crítico em que se encontra um sistema de poder e dinheiro por assim dizer de fachada e organizado como uma vasta ação entre amigos e cupinchas (crony capitalism), segredos e mentiras vazados assim em proporções descomunais revelam uma outra paisagem histórica, entrevista pela segunda porta de entrada mencionada acima. Refiro-me à atual prevalência do Acidente sobre a Substância, nos termos em que Virilio a concebeu, a ponto de imaginar um Museu do Acidente: a seu ver, cada tecnologia por assim dizer programa um acidente específico, que ao fim e ao cabo foi se tornando mais necessário que a substância cada vez mais contingente, conforme a humanidade, progredindo de desastre em desastre, se encaminha para o acidente absoluto que todos imaginam. Na sociedade securitária de risco, na qual passamos a viver desde o Big Bang dos anos 70, a grande mentira política vazada tornou-se um desses acidentes catastróficos. Sem tirar nem por, como um acidente numa usina nuclear. Em princípio, o efeito da mentira vazada deveria ser tão tóxico como o lixo atômico, que por sua vez revela o fundo falso sobre o qual assenta todo o aparato high tech contemporâneo, como é o caso das centenas de programas de espionagem, violação e conspiração da NSA. Digo deveria porque seu efeito político, salvo a volta a mais no parafuso punitivo da segurança, e descontado o alvoroço midiático inicial, cedo ou tarde acaba caindo na vala comum da indiferença, inércia diversionista própria dos estados terminais. A coragem da verdade está girando em falso, seus heróis solitários apodrecem na prisão ou no exílio.

            E no entanto os hackers são legião. Como disse, o sistema vaza por todos os lados, a bem dizer tornando indiscerníveis crise da mentira e crise da verdade. O que torna impossível qualquer gestão racional sociedade. Quando a falsificação se torna estrutural, é possível contrabandear qualquer narrativa. Esse o fim de linha à sombra do qual prospera uma floração tardia de todo tipo de teorias da conspiração. Como estamos às voltas com uma situação de caos sistêmico que está desorganizando até mesmo qualquer agente que lhe pudesse impor algum limite, o que mais se vê (?) num horizonte em que ninguém enxerga mais nada são conspirações a favor da desordem existente, uma anomalia entrevista nos anos 80 do século passado pelo profeta Guy Debord ao se deparar com o espetáculo do terrorismo ainda nos seus primórdios, a seu ver montado para que o Estado pudesse aparecer como um mal menor, como aliás ultimamente Anselm Jappe costuma relembrar toda vez que a chapa esquenta.

            Se pudesse avançar até o coração da matéria, descobriríamos que a revolução gerencial que transformou o capitalismo num gigantesco dispositivo de sofrimento social, a começar pelo do trabalho, multiplica por todos os ambientes que vai colonizando – do meio ambiente propriamente dito às instituições de pesquisa infectadas pela fraude, passando pela mentira inerente à nova cultura corporativa, cujo caráter farsesco Von Trier mostrou na comédia do Poderoso Chefe –, uma constelação de mentiras conexas, que se tornaram o acidente específico de cada um desses âmbitos sociais. Este o truque em torno do qual gira toda a nossa época, agora em regime de fim de jogo – para falar como o personagem de Jean Renoir, interpretado aliás pelo próprio.

* Não é versículo bíblico saído do Eclesiastes, mas letra de tango, a primeira linha do refrão de Yira…Yira, de Enrique Santos Discépolo. Em 1995, aquela “visão” deu o título a um espetáculo do grupo teatral Folias d’Arte, uma adaptação livre do Capitaine Fracasse, de Théophile Gautier, que por sua vez poucos anos antes dera no filme de Ettore Scola, A viagem do capitão Tornado.

(Este texto foi publicado originalmente na Revista Percurso em agosto de 2015)

IMAGEM EM DESTAQUE: ARTEFACTOS BASCOS

Paulo Eduardo Arantes é filósofo e professor aposentado do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), onde lecionou entre 1968 e 1998. Publicou, entre outros, Hegel: a ordem do tempo (1981), Ressentimento da dialética (1996) e Extinção (2007).

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