Ver um Arquipélago (Entre nós e o mundo, 2019)

Esse texto faz parte da cobertura do 24º forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte

Entre nós e o mundo, um espaço. Por onde passa a fala, se não pelo ar? Vemos jovens cantando histórias de superação, um desejo de vencer a pobreza e alcançar a fartura. Ser jogador de futebol. A rua escura, contudo, nos diz em um pixo: nada muda. 

Do lado de uma casa, outra casa. Uma pessoa desce as escadas da viela, uma nova sobe a rua de bicicleta. O curta caminha pela comunidade através da história de Erika, mãe de três filhos. O luto pela perda de Theylor, assassinado em 2016 por uma batida policial, compartilha o espaço em cena com a chegada de uma nova filha — Alicia. Entre eles, Nicolas, de 17 anos, que passa o dia na casa da avó e escuta funk enquanto estuda. O filme de Fábio Rodrigo, “Entre nós e o mundo” (2019), apresenta de cara um conflito, um nó entre a esperança, a resignação e a revolta. 

Fotograma do filme “Entre nós e o mundo” (2019), de Fábio Rodrigo

Sentamos no sofá da sala e vemos antigas fotografias enquanto escutamos a troca de áudios entre Erika e o diretor. As imagens congeladas, ao nos mostrar os vestígios da vida de Theylor, sorrindo ao lado de parentes, brincando ao lado do irmão, parecem acentuar ainda mais a tônica de sua ausência. O sentimento de nostalgia só surge frente a perda de algo. Em corpo apenas no passado, Theylor ocupa um lugar oposto àquele de sua irmã que não chegou a conhecê-lo, sendo ela em suas roupas rosas uma sempre promessa de futuro. São senão essas duas engrenagens que movimentam o filme, operadas pela experiência de Erika e balizadas pela escuta de Fábio. É através de uma sensibilidade ímpar que o filme conjuga esse par de elementos a partir da perspectiva de quem vive no presente, experienciando a dor de quem se foi mas ainda sim sonhando com uma vida melhor. 

Num mundo naufragado, marcado pelo abismo entre o eu e o outro, as imagens insistem em ver um arquipélago. A montagem cria entre as crianças jogando futebol e o senhor sentado na calçada um elo vitalício — são ilhas irmãs, filhas de um mesmo processo. Fábio diz não conhecer seus vizinhos, Erika tampouco. Contra um movimento brutal de desmantelamento dos laços a instauração dessa liga transparente mas vindoura que é a vivência cotidiana. Isso porque é só a partir dela que percebemos de fato o movimento implacável do tempo. Essa é a pedra angular de uma estética de quem quer continuar vivendo.

Fotograma do filme “Entre nós e o mundo” (2019), de Fábio Rodrigo

É justamente essa a aura que flui tanto pelas fotografias de Theylor quanto pelas imagens em movimento da pequena Alicia, que dorme no colo de sua mãe. “Já fazem dois anos”, diz o diretor. Hoje fazem quatro. O próprio filme nos conta sua intenção de não ser um “reviver” do trauma. Não se trata de ignorar a dor, mas de saber da urgência da vida. Nos escapa ao certo a promessa que Fábio faz a Erika, mas constatamos o exercício de um respeito profundo, um comprometimento com todos os aspectos que circundam essa vivência. O curta é um tributo à Theylor, mas também o é uma homenagem à força de Erika, uma ode à Alicia.

Percebemos que “Entre nós e o mundo” é um respiro. Esse tomar fôlego que permite que Erika continue relembrando de Theylor, mas que também a impele a seguir em frente. No plano final, a câmera desvia do enquadramento de três amigos que sobem a ladeira para ver uma bicicleta com duas crianças que descem a rua ao lado. O menino — de blusa azul — e a menina com roupa e laço rosa, o mesmo rosa do enxoval de Alicia. Eles levam no girar das rodas de metal um inexorável senso cotidiano, mas ao mesmo tempo uma carga simbólica que só existe dentro e a partir do filme. Seriam eles irmãos?  Tudo se passa numa tarde, e o dia é de sol. 

Fotogramas do filme “Entre nós e o mundo” (2019), de Fábio Rodrigo

Estudante do Curso Superior do Audiovisual na ECA USP, desenvolve atualmente uma pesquisa sobre as religiosidades afro-brasileiras no cinema nacional. Escreve pra Zagaia.

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