UNICÓRNIO

A minha independência, que é a minha força, implica a solidão, que é a minha fraqueza”                                                 PIER PAOLO PASOLINI                                              UNICÓRNIO            Como historicizar o espaço e o tempo? Como dar horizonte ao silêncio?  Como ir além do naturalismo e mesmo do realismo? Como trabalhar a ambigüidade das personagens que pouco falam? Podem os muitos delicados momentos das imagens darem existência a tudo? Digamos que no fluxo da subjetividade Eduardo Nunes da concretude ao seu poema humanista indo do banal encantamento pelo Outro, a cotidianidade da loucura com o cinema se redescobrindo como subversão da linguagem. O seu UNICÓRNIO é o que Glauber chamava de cinema-sonho. Um cinema entre a experimentação e a imagem como música. Ênfase a uma rica e poética dilatação do tempo! Ou seja, tudo se torna imagem no vazio dos espaços. O confronte é com a subjetividade dos muitos desejos reprimidos. Espaço onde a cotidianidade rural da mesmice mata, ou faz matar.          Amei a singularidade das poucas personagens. Não se vê excessos e sim um investimento potente no belo/poético como alcance da dor. Dor que não exige explicações, mas uma frontalidade com a sensibilidade criativa do jovem realizador. Sua fixidez no espaço/natureza teatraliza com estilo o rico movimento das suas personagens. E os insights da filha e da mais linda mãe do cinema brasileiro recente, desarranjam qualquer sentido mecânico muito comum na TV. Ou seja, experiente, experimental o tempo tem no filme a sua potência não-hipinotizante com o espaço como representação de incertezas significativas.          Minimalista ao extremo UNICÓRNIO é uma homenagem ao cinema do Tarkowski. Uma vez mais, ênfase aos delicados movimentos de câmera sublinhando poeticamente encontros que se realizam: filha/mãe e pai/filha. Produz-se na verdade camadas de silêncios. E no lugar da fala, as muitas expressões dos lentos movimentos. Aqui, a comida sendo feita no fogão a lenha. Ali a cama onde se nasce e se morre. O foco da mise-em-scéne é o isolamento de todos numa imagem frontal com o espaço que está fora. Seus longos takes evidenciam a terra! A terra como palco do isolamento interno e externo das personagens. O palco como refúgio do silêncio trágico do ciúme, do desejo, da loucura e da morte. A menina em visita ao pai pergunta se “a morte dói”? E na incerteza do não, ou do sim –mata! Muitas são as obsessões desestabilizadoras desse aparente “repouso” no inferno de vidas pequenas e comuns. E ao mesmo tempo constantes idas e voltas as entranhas da terra/espaço. Mais que um filme, um belo impulso poético raro que Eduardo Nunes com seus atores e técnicos nos devolvem a fé perdida na ficção como resposta ao mercado de alinhamento com o espetáculo, capital e a TV. Seu ímpeto poético/narrativo que vem desde seus curtas, o coloca como um fenômeno visível de uma refiguração criativa do nosso cinema. E no que reabilita a ficção ao lado de PENDULAR, torna-se ímpar nesse momento de primazia do horror e da diluição, e não mais da poesia.    Abrangente como cinema UNICÓRNIO é uma festa do belo para um olhar mais delicado. Sendo também um filme feminino. E raro uma obra singular hoje no cinema. Faz-se produtos para o mercado, e não mais poesia! Cinema industrial onde todas as imagens se parecem. Imagens já envelhecidas pelo capital/mercado. A fisicalidade de um filme como este poema de Eduardo Nunes, exacerba nossa responsabilidade do olhar. Não se está mais vendo uma multiplicidade de idiotas televisivos até produzindo filmes, e sim a presença da poesia como personagem principal. Tudo e todos sublinhando potências como sonhos e vontades. E a fixidez dilatada do espaço é sim uma real desestabilização de certezas, e onde um prego no tronco de uma árvore, pode sentir dor sim! Não posso falar da adaptação pois não li os dois contos que se fundem, nem o roteiro. De qualquer forma todos os movimentos são sim dilatados e poéticos. E a relação entre os personagens e o espaço é uma espécie de dança de imobilidades/móveis de uma vivacidade rara num cinema tão ousado. E o pouco texto amplia a responsabilidade do silêncio como personagem. E onde o pouco é dito, tudo pode ser mostrado. É arte pura numa multiplicação de silêncios. Não é só um filme para se ver, mas fundamentalmente para ser pensado. Espaço onde nada acontece e tudo se passa. Uma acumulação de vazios numa mise-em-scène  primorosa e rara. Porém tudo aos poucos vai implodindo numa representação rigorosa de substituição da palavra. Palavra substituída pelo olhar e o movimento. E que na desconstrução de uma representação realista, nos presenteia com o rico lado subversivo da ousadia de todos. Da bela mãe a música dando dimensão a uma direção de arte e fotografia ímpar. Um filme necessário a esse triste momento da história do país! Parabéns a todos.      LUIZ ROSEMBERG FILHO/RÔ

Luiz Rosemberg Filho é cineasta, artista visual e ensaísta. Sempre contestador, realizou seus primeiros trabalhos em meados dos anos 60 e segue ativo com uma produção incessante que já conta com mais de 60 títulos, entre curtas, médias e longa-metragens, boa parte deles realizada em vídeo.

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