Uma lista de mercado com os grandes acontecimentos da minha vida

Com seu nome, Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu chama nossa atenção para o firmamento, nos fazendo procurar por algo que desponte do azul. É, no entanto, enclausurado que a maior parte do filme se passa. Em uma casa na zona leste de São Paulo, uma família se vê confinada em uma espécie de BBB familiar no cinema contemporâneo brasileiro.

O diretor, narrador e ator Bruno Risas inicia o filme numa viagem de ônibus, talvez se afastando, talvez voltando para casa. A narração conta dos acontecimentos mais importantes em sua vida nos últimos anos, incluindo a decisão de fazer esse filme. É feita a carta de apresentação de Ontem Havia…: A câmera trêmula enquadra a janela da frente do ônibus ao lado da porta dianteira, quase que a ponto de saltar no próximo ponto. Enquanto isso, a narração resume os anos (ou paradas) através de acontecimentos pontuais, importantes para entender a situação da família, mas que nada resumem as minúcias e os efeitos emocionais nas vidas dessas pessoas.

É nessa sequência, entretanto, que o filme pode ser entendido de forma mais concisa: Existem os grandes eventos, as grandes imagens, os grandes símbolos, logotipos dos momentos da vida com que nos relacionamos (como nomes de estações de metrô que condensam bairros inteiros). Estes logotipos tem a capacidade de resumir em expressão imagética a tristeza de perder o emprego, a luta de uma dona de casa que abandonou seus sonhos pela família, a perda da memória: imagens-metonímia desses acontecimentos. A narração de Bruno vai além. Ela diretamente relaciona o ano (2011, 2012… etc) com o acontecimento. O todo se torna a parte. O ano, experiência. E a própria grafia do numeral adquire cores e tons que se relacionam com o “grande evento” daquele ano. O número, símbolo daquele trauma.

Pensar a vida metropolitana contemporânea (em específico São Paulo, no caso do filme) é pensar a necessidade da validação por logotipos. Não à toa o filme se torna tão consciente de seus bairros, suas paradas de metrô, os nomes das marcas, o nome do plano de saúde, o carimbo na carteira de trabalho, a CNH, a ZL (notem, não Zona Leste), o VT e VR, o SUV: Palavras, siglas, logotipos nos quais foram agregados sentidos econômicos, sociais, históricos e pessoais. Suas existências parecem relacionadas simultaneamente à uma forma de coletividade e individualização. A necessidade de organizar a experiência coletiva/massificada de vivência individualizada na metrópole.

(Imagem do filme Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu, Bruno Risas, 2019)

Dentro da casa dos Risas somos apresentados aos outros personagens dessa trama. A mãe (Viviane Machado) dona de casa, o pai (Julius Marcondes) sem emprego, a avó (Geny da Silva) um pouco avoada. O que se segue é a vida desses personagens, ditada pelos logotipos e siglas. O pai, que antes era definido como aquele que sustenta a casa financeiramente, ao perder o emprego se vê emasculado pelo mesmo sistema que o colocou nesse papel. E se apega à única outra coisa que ainda da vazão, de alguma forma, ao seu papel de provedor: a casa em si. Em uma das sequências iniciais Bruno visita seus pais. Do lado de fora da casa, em um espaço não muito grande, vemos o pai de Bruno de baixo para cima, no telhado, contra o céu, sob o sol quente, sem proteção, consertando algum problema na estrutura causado pela vizinha. Bruno olha aquilo, sem saber muito como interagir com o pai, ele troca algumas palavras sobre o trabalho, o sol, dinheiro. O vício em consertos e reformas do pai é seu apego à uma das únicas coisas que sobrou da lembrança da família nuclear. Naquele estilo cristão clássico, antes das crises. A casa própria ainda é símbolo de sucesso de uma família, o suprassumo da classe média. No frigir dos ovos, é disso que o filme vai tratar: uma ideia de família em ruínas e a casa que sobrou.

 A mãe e a avó entram no mesmo jogo de conservação da casa (e consequentemente de sua imagem), só que em registros diferentes: A avó, mesmo com problemas de saúde, ainda insiste em cumprir a rotina de lavar os copos e desempenhar o papel da dona de casa, tentando se manter de alguma forma dentro de uma função um dia ocupada. Já a mãe fica relegada ao cuidado com os outros e aos afazeres domésticos. Atividades extenuantes, no entanto são a sua ligação com a imagem da família, que apresenta falhas assim como a casa. Ademais, a ruína à sua volta não lhe passa despercebida: O retorno ao hábito de fumar e a irritabilidade com o marido são provas. Toda a manutenção da imagem de família feliz recai sobre ela, como historicamente se faz com as mulheres. Só que agora a promessa dessa imagem parece impossível. E com a perda do emprego do pai, todos estes personagens passam a habitar o mesmo espaço de uma forma que não conheciam antes. O homem com sua ideia de masculinidade abalada e a mulher que se frustra ao perceber que o final feliz para sua história não é aquele que a foi prometido. Para essas personagens limpar, arrumar, lavar e consertar a casa se torna o refúgio do ideal de família da qual um dia fizeram parte. Elas se reviram, assim como filme, sobre o núcleo familiar imaginado pelo capitalismo, sua organização no ambiente doméstico e a desestruturação dos vínculos familiares tradicionais.

Ontem Havia… se alinha à mesma lógica de suas personagens ao decupar a residência das mais variadas maneiras. Procurando registrar todos os cantos e ângulos da casa, o filme tenta revelar algo por baixo da ruína da qual é familiar, ou até mesmo retardá-la. De alguma forma, Ontem Havia… também está conservando (ou reformando) a casa da família. E percebendo a impossibilidade das promessas do passado.  A própria metalinguagem do filme – ao gravar seu fazer, colocar seu diretor e fotógrafa dentro da trama e ter os personagens principais comentando o processo do filho-diretor – o coloca como parte daquela casa e se submete à lógica de criação das imagens: fazer o filme é se conscientizar da imagem que será produzida sobre aquela família (e, logo, sobre si mesmo). Trata-se de uma outra forma, no fim, de criar e manter a imagem, o ícone, o logotipo. Trabalhar na casa, lavar os copos, andar pelo bairro, a rotina da família se mescla com o filme. A imagem se confunde com a essência. Talvez os planos que demonstrem isso mais conscientemente sejam os da avó. Por um momento, ela percebe que uma imagem sua será produzida e, sem pensar, faz uma pose, esperando, assim, influenciar o registro de si mesma, produzir a imagem do jeito que ela deseja que seja. Claramente o processo de construção da imagem da avó é muito menos ativo do que o de Bruno, que possui todo o controle do tratamento e tom do material. É possível, no entanto, aproximar o ato fílmico do diretor com as poses da avó para a câmera: a tentativa de criar ou controlar uma ideia de si (ou da família) mesmo que, simultâneamente, o processo revele as falhas no quadro. E que imagem é essa que ele deseja produzir?

(Imagem do filme Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu, Bruno Risas, 2019)

Em uma viagem de carro, Bruno, seu pai e sua irmã (Izabela Machado) discutem sobre o trabalho dela, outras futilidades e o bairro da Mooca. A câmera treme com o movimento do veículo. Vemos a irmã falando em um leve contra plongê. Ela aponta para alguns locais da vizinhança, fala do seu antigo emprego e explica a sua situação no novo. A conversa gira em torno das vantagens do novo trabalho, os benefícios, dinheiro. O pai e o irmão parecem interessados, mas não tanto. A irmã adquiriu o status de provedora da casa, para infortúnio do pai. Este, durante a conversa, desvia o assunto para um conjunto de apartamentos que estão construindo na rua. A câmera gira para a esquerda rapidamente para tentar ilustrar o apontamento do pai, que também chama a atenção para uma característica da construção: foram deixadas, pelo projeto da obra, as chaminés da antiga fábrica que ocupava o local dos futuros apartamentos. Nesta sequência, o próprio bairro se torna ciente das imagens que possui e representa. O “resto de fábrica”, que em algum momento fez parte da vida dos moradores daquele lugar e da essência operária do bairro da Mooca, é reduzido à um símbolo esvaziado, meramente decorativo – principalmente no contexto atual de ocupação da região, muito mais gentrificada do que na época da chaminé. A estrutura é como uma moldura sem quadro pendurada na parede. Sem essência, apenas lembrando a existência do que um dia foi o bairro, a família ou a si mesmo. A preservação apenas da “cara” do bairro. Os quadros do Romero Britto, as marcas de produtos espalhados pela casa, os posts no Facebook, trechos de Todo Mundo Odeia o Chris. A casa recheada de ícones tenta esconder o estado atual, preferindo que a sua “cara” seja aquela que não mais possui através de símbolos de consumo: a métrica do sucesso familiar capitalista. Hoje a estrutura rui, mas é melhor lembrar de quando ela ainda estava de pé, altiva como casa de família urbana paulistana. A chaminé não tem mais uso, mas o símbolo fabril se sobrepõe a imagem da degradação gentrificada do bairro. O reboco tenta preservar a imagem do estado antes das falhas. O “resto de fábrica” como reboco do bairro. É, no entanto, nessas tentativas de afirmação imagética materializada na presença desses elementos que se chama a atenção para o declínio de seus antigos significados: a organização familiar clássica (insustentável) e a prosperidade passada de um tempo desenvolvimentista (ilusória). Esconder as rachaduras, esconder o cigarro, manter as aparências.

(Imagem do edifício Spazio Lume, na Mocca, imagem retirada do google)

Em Ontem Havia… o cotidiano da família é transpassado pelo filme. Seja entre algum passeio, conserto ou jantar a vida familiar é interrompida pela obra, que comenta seu contexto e a si mesmo. Em especial, há um plano, no qual a mãe está deitada no colo da avó, as duas vendo televisão. O plongée na mãe sob a luz azul do aparelho e o som que vem da TV grita para ela algo como “[…] o mundo cheio de idolatria! […]”. A TV, veículo máximo da propaganda, dos logotipos, da comunicação consumista de uma época pré-internet comenta sobre si mesma, sobre o filme. Traz a auto-consciência necessária, de onde menos esperaríamos. E o filme, em seu lugar irmão à TV na perpetuação de imagens, começa a craquelar, cada vez mais ciente do seu papel no processo.

A sequência em que Flora Dias aparece nos espaços que já vimos tanto dessa casa, atuando de forma robótica, fazendo testes de luz e quadro, simulando os movimentos da mãe de Bruno é especialmente interessante. Quando tiramos uma foto a pessoa que aperta o botão fica para trás, invisibilizada na imagem. Ontem Havia… se torna ciente da sua capacidade de excluir da imagem tanto quanto de formar ela. Do caráter violento de filmar algo, de decepar alguém do quadro. Enquadrar também é invisibilizar. Ao mesmo tempo, é possível pensar no papel que Flora estaria “ensaiando” para ocupar. Não o de uma dona de casa necessariamente, mas de alguém que, ao fazer parte daquela família, se encontraria relegada a algum papel, a alguma imagem, repetida roboticamente por anos. E assim nos damos de cara, mais uma vez, com outra característica violenta da imagem: sua cristalização, ao mesmo tempo confortável por ser previsível e causadora de ansiedade por sua imutabilidade. Semelhante ao ato de ver um filme que já assistimos inúmeras vezes. Este é o momento em que Ontem Havia…  se assume mais fortemente em sua artificialidade imagética. À primeira vista, o documentário parece estar focado na realidade da família. Entretanto, podemos entender os momentos de ficcionalização do filme como a problematização da objetividade falsa que o documentário poderia assumir. Além disso, negar a hipocrisia cine verité deixaria ainda mais escancarada a plasticidade construída desses filmes. Bruno dirige seus pais extenuantemente. Esticando a ficção à um ponto de inflexão entre o real e o criado. Tornando por vezes confusa a imagem que vemos: até que ponto a imagem artificial daquela família e filme os representa? Seria uma espécie de fake it till you make it da classe média paulistana? As sequências mencionadas afirmam que a obra constrói sua realidade a partir de imagens que ele cria e seleciona. Nada é objetivo na ideia que o filme quer passar de si (ou mesmo na ideia que ele tem de si mesmo). 

(Imagem do filme Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu, Bruno Risas, 2019)

O filme termina com uma sequência da mãe, fora de casa, andando por entre viadutos e carros até chegar a uma ponte. Os planos abertos da mulher em direção a algo dão um respiro contrastante com o ambiente sufocante da casa. Ela se encontra com um disco voador, que não é um efeito especial em alta definição por não precisar de uma representação realista, o importante é o símbolo da abdução, apenas. A profecia de mudança. Não à toa o trecho se assemelha a Contatos Imediatos do Terceiro Grau, outra imagem importante no quesito abduções. A mãe, no entanto, volta logo. Sem grandes alardes, a vida na casa retorna à posição desconfortável de antes, todos sentados em volta da mesa, almoçando, aparentemente sem saída. De forma desapontante, o filme se torna consciente das prisões que são as imagens que construímos e as ideologias que as sustentam, mas se relega a apenas continuar filmando. Sem, dessa vez, intervir. 

Ontem Havia… se expõe, mais do que expõe a família, e avança refletindo (algumas vezes literalmente) sobre si mesmo e sobre a hipocrisia da imagem que tenta criar. Um filme impactante que, assim como a casa, parece ruir (ou simular a ruína) aos poucos. E desemboca em um almoço pessimista sobre a situação daquela família, daquele bairro, daquela cidade. Não me surpreenderia se a câmera ainda estiver ligada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *