Um breve ensaio sobre Vozes

Esse texto integra a cobertura do Rastro – Festival de Cinema Documentário Online 2020

“Vozes existem”. É o que ouvimos ao início de Vaga Carne (Grace Passô e Ricardo Alves Jr.). Não há ruídos, não há titubeios, apenas aquela Voz ainda sem Corpo que nos conta de sua onipotência sobre qualquer matéria. Convidados a encarar a tela preta, escutamos sem distrações essa entidade que estamos tão acostumados a dominar.

Há um tom de despreocupação quase zombeteiro nessa Voz que aponta, julga e possui sem pedir permissão. Até que Ela encarna em um Corpo, criando uma pequena ruptura. Ainda existe o estranhamento que distingue a entidade da matéria, mas paralelamente a isso começa a se estabelecer uma disputa pelo controle. A Voz se impõe sobre o Corpo, mas também se aprisiona a Ele. 

Esse é o estopim para que esses dois elementos comecem a se metamorfosear em outra coisa. A despreocupação característica da Voz desaparece à medida que, ao começar a experienciar sensações humanas como o esquecimento e a carência, se dá conta de que está se tornando uma com aquele Corpo.

A partir dessa compreensão, o tom da Voz e o gesto do Corpo, ambos personificados por Grace Passô, vão ganhando cada vez mais urgência como se tomassem ciência também das pressões externas que advém junto do ser Mulher – e do ser Preta. A Voz imponente do começo do filme já não existe. Perdeu sua liberdade de fluir entre as matérias e a de se expressar sem medo.

Afinal, é melhor “ser uma expressão estranha no mundo” ou abdicar da Voz? 

Fotograma do filme “Vaga Carne” (2019, Grace Passô e Ricardo Alves Jr)

Uma citação presente logo ao início de Tudo Que É Apertado Rasga (Fábio Rodrigues Fillho) pode ser lida como uma quase resposta: “Quis me levantar, mas um silêncio sem vísceras atirou sobre mim suas asas paralisadas”. Uma quase resposta porque Fanon autor da frase assim como Vaga Carne, sugere mais uma impossibilidade de responder esse dilema. 

De uma certa maneira, o que Tudo Que É Apertado Rasga propõe é uma forma de romper o silêncio e o esquecimento que foram impostos às Vozes que vieram antes. Vozes e Corpos que escolheram ser uma expressão estranha ao mundo branco, repetindo incessantemente a condição do que é ser Negro no audiovisual brasileiro, sem serem ouvidas.

O filme é ao mesmo tempo um convite a abominar essa inação, como também uma indagação: o que fazer após encarar esses olhares? Escapar da sedutora catarse do cinema é mais fácil no discurso do que na prática. A fagulha do curta está justamente nessa montagem que, em um primeiro momento, refigura essas banais entrevistas de televisão através de colagens, sobreposições e repetições, dando origem a um novo material que explicita as dores, os constrangimentos e o cansaço presentes nesses depoimentos que são quase sempre sucedidos de risadas. Mas é também essa mesma montagem que aproxima, em um segundo momento, as almas presentes nos olhares e gritos de Zezé, Antônio,  Milton, Otelo, Lázaro, Zózimo, João da Cunha, Jorge Coutinho, Ruth de Souza, Lélia Gonzalez, Pompeo, Luiza Maranhão, Henricão, Léa Garcia,Elida Palmer, Watusi e Mário Gusmão. Nomes que, a exemplo de Fábio Rodrigues Fillho no filme, faço questão de citar neste texto.

Fotograma do filme “Tudo que é apertado rasga” (2020, Fabio Rodrigues Filho)

Há na memória essa relação desigual. Não é preciso nada para que se esqueça, mas são necessários constantes estímulos para que se recorde. Memória. É também sobre isso A Morte Branca do Feiticeiro Negro (Rodrigo Ribeiro). Sobre o último resquício de rememoramento de Timóteo, homem escravizado que nos é apresentado através de sua carta de suicídio. E aqui peço a licença para falar sobre Voz uma última vez. Porque, diferente do que acontece com as Vozes dos outros dois filmes, a Voz de Timóteo se faz presente através da ausência. Não o ouvimos, porque seria impossível que alguém encarnasse sua voz tal como as palavras que surgem transcritas na tela letra a letra, sem se render a reformas ortográficas ou as limitações de uma performance. Não o ouvimos porque a escrita era a única forma de Timóteo falar.

Banzo é a melancolia sentida por esses homens e mulheres oriunda da distância entre eles e suas raízes, mas em sua origem do quicongo, mbanzu, significava também lembranças. E enquanto ouvimos (ouvimos?) Timóteo, as imagens transitam entre o passado escravocrata e os espaços do presente construídos sobre o sangue de tantos que nunca lembraremos o nome. 

Fotograma do filme “A morte branca do feiticeiro negro” (2020, Rodrigo Ribeiro)

A Voz é essa entidade que ecoa de formas tão diferentes como esses três filmes. Ela pode ser livre como no início de Vaga Carne ou aprisionada como ao final. Pode se expressar através da boca e do corpo, como fazem as atrizes e atores de Tudo Que É Apertado Rasga, mas também nas palavras escritas por Timóteo em A Morte Branca do Feiticeiro Negro. 

Não é como se esses três filmes fossem invariavelmente complementares. Na verdade, essa relação é também muito insinuada pela montagem da programação do Rastro – Festival, que exibiu os três em sua sessão de abertura. Mas é um indício de que essas reflexões são frutos de um sentimento comum. Voltamos ao início: As Vozes existem. Serão elas ouvidas?

Diego é jornalista e em 2020 compôs o Júri Jovem da Mostra Olhos Livres da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes e atualmente faz parte da curadoria do 9° CineCipó - Festival de Filme Internacional de Filme Insurgente.

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