Três fragmentos

Esse texto integra a cobertura do Rastro – Festival de Cinema Documentário Online 2020

Anotações de Josafá Veloso sobre Cinema contemporâneo (Felipe André Silva, 2019); Quem matou Chiquito Chaves (Giovanna Giovanini e Rodrigo Boecker, 2019); e No rastro das cargueiras (Carol Matias, 2020).

Notas sobre Cinema contemporâneo (Felipe André Silva, 2019)

O pequeno filme de Felipe André Silva (cinco minutos apenas) já começa altamente reflexivo: “Ouvi um curador de cinema dizer uma vez que o cinema contemporâneo se utilizava demais da narrativa em primeira pessoa. Talvez eu também concorde”, diz Felipe. Mas completa: “Mas só eu posso contar a história de abuso que vivi”.  

Vemos então fragmentos de uma fotografia da infância de Felipe. “Fui abusado mais de uma vez e de maneiras diferentes por esses homens na fotografia”. Felipe sabe como ninguém quem são seus abusadore, mas não nos é permitido identificar seus rostos, vemos apenas super closes de mãos e pernas (machucadas). Tampouco Felipe nos leva a ver a inteireza da arquitetura do casa ou sítio onde as fotos foram tiradas. Quando foca os rostos dos homens nas fotos, há sobre eles uma tocha de fogo (violentamente) rabiscada. Não há dados nem de quando ou onde, nem por quê esses abusos aconteceram. O relato de Felipe parece que não visa justiça ou reparação. Visa apenas ser relato, testemunho. “Eu era bem novo quando fui estuprado pela primeira vez. Pensava em contar essa história um dia, a história dessa foto. Faltava coragem. Se o filme pudesse falar por mim eu conseguiria”. Conseguiu, Felipe. Você foi vítima de violência sexual doméstica, mas o seu próprio papel de vítima é problematizado no filme com sutileza e coragem. Sem sentimentalismos. Ou artifícios de roteiro melodramático que levaram Petra Costa ao Oscar. O seu narrador em primeira pessoa se assume enquanto tal não por conta de vaidades estilísticas, mas por necessidade de fazer da dor, criação. 

“Cinema contemporâneo” foi exibido dia vinte cinco de junho na mostra competitiva de curtas do festival online de documentários, Rastro, produzido pela “Três produz”, que vai até dia vinte e oito de junho. Cobertura guerreira aqui na Zagaia.

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Nota sobre Quem matou Chiquito Chaves (Giovanna Giovanini e Rodrigo Boecker, 2019)

“Quem matou Chiquito Chaves” poderia ser apenas um excelente retrato do fotógrafo, jornalista livre, independente, Chiquito. Mas lá pelos dez minutos de filme, depois de termos visto apenas slides das fotografias (estupendas) em closes sobre a voz over do fotógrafo, temos finalmente um enquadramento mais convencional de entrevista de documentário que não nos leva ao clichê, mas ao segredo do filme. Chiquito relata que fora ameaçado por um miliciano, que o reconhecera de outros carnavais belicosos da época da ditadura. Diante de uma câmera agora táctil, epidérmica, Chiquito alerta: “Pior que policial é o miliciano”. “Rosebud”. Chiquito não está morto como canta o título, está vivo e respirando diante de nós. Mas a ameaça permanece, ronda Chiquito e a todos nós. Transcendendo o filme de perfil mais convencional, os diretores Giovanna Giovanini e Rodrigo Voecker dão um pulo do gato esteticamente astuto e fazem do curta de quinze minutos, na competitiva do festival Rastro, matéria para o pensamento. “Quem matou Chiquito Alves” é um filme ensaio.  

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Notas sobre No rastro das cargueiras (Carol Matias, 2020)

Por ser o Rastro um festival com uma série de produções de Brasília, nosso destino fracassado como nação reverbera além da conta ao vermos esses filmes. Parece ser inevitável. Afinal, é a nossa capital federal.  

Apesar de todos os pesares que envolvem ser brasileiro, que inclui olhar atônito ao descaso que damos ao nosso patrimônio cultural (vide o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro no ano passado e agora o imbróglio envolvendo a Cinemateca Brasileira), um festival online como o Rastro pode nos fazer voltar a acreditar que nosso passado cinematográfico não foi em vão e que em filmes da garotada de Brasília ecoam conquistas fulgurantes da história do nosso documentário.  

“No rastro das cargueiras”, em sua singeleza na aproximação junto aos personagens, em sua escuta atenta ao que tem a dizer os catadores-ciclistas de lixo na periferia de Brasília, o filme de Carol Matias parece ser de alguma forma continuação de filmes como “Boca de Lixo”, de Eduardo Coutinho, ou mesmo, parcialmente, de “Conterrâneos velhos de guerra”, de Vladimir Carvalho. Em última análise, porém, podemos resumir a ancestralidade de “No rastro das cargueiras” nas bicicletas ao ar livre de Vittorio de Sica ou mesmo na máxima de Rosselini: “É preciso ouvir a voz do homem!”.

Do filme de Coutinho o mesmo anseio de liberdade contra a “casa de família” tem os personagens de “No rastro das cargueiras”, a mesma ojeriza por terem sido, algum dia, humilhados pela patroa. Tanto em depoimentos no clássico de Coutinho de 1993, como no documentário da mostra competitiva de longas do festival online Rastro, sente-se os ecos da escravidão no Brasil. “Caçula”, a personalidade mais forte de todos os envolvidos no filme relata sua saída do Nordeste visando encontrar em Brasília sustento para si e para os seus. E aí nos vem à memória flashes do clássico de Vladimir Carvalho. 

Rememoro esses dois filmes, a partir do filme da Carol, não para dizer que “No rastro das cargueiras” não tenha personalidade própria. Pelo contrário. Muito melhor que um simples perfil daqueles que vivem da coleta e venda de lixo, vislumbra-se uma rede, uma comunidade (que eventualmente os cineastas também fazem parte), empreendendo um ciclo de sobrevivência com o próprio tacho do capitalismo. De bandeja, os maiores ecologistas de plantão. Ao final, presenciamos, impotentes, a reintegração de posse dos casebres na beira de estrada de nossa capital, cena que se repete nas metrópoles brasileiras como verdadeiro teatro da repetição. 

Coutinho costumava dizer que “no Brasil as coisas sempre começam do zero”. Eu iria mais longe e lembraria do historiador Capistrano de Abreu que no século XIX escreveu que “no Brasil, se constrói tudo na areia”, fazendo menção à parábola bíblica que admoeste quanto à importância de se “construir a casa sobre a rocha” (Glauber Rocha?). 

É bonito lembrar que um bom filme não sai do nada. É reflexo de sua cultura, passado. O que inclui os filmes daqueles que já foram. Ou que estão aí, graças a Deus, como mestre Vladimir. 

Sem ranço sociológico, pautado por uma rica câmera de observação, fluída, discreta, respeitosa, “No rastro das cargueiras” apenas derrapa nas um tanto frouxas transições entre ambientes e núcleos de personagens. Uma nova temporada dentro da sala de edição pode ser benéfico a esses cineastas brasilienses promissores. Falta ritmo, que não é sinônimo de alta velocidade. Vide Bresson.  

Josafá Veloso

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