Tiro Translúcido


Esse texto integra a cobertura do Rastro – Festival de Cinema Documentário Online 2020 T

TIRO

Marina Lamas

Sempre tive este gosto. Enrijeço uma das mãos apenas com o estalar do pensamento.
Meus dedos passaram a integrar um sistema nervoso autônomo – classificação que me agrada,
pois não precisam mais do meu controle. Tornaram-se companheiros
e sentem tanta sede do nosso hábito quanto eu.
Acho que sou dependente químico disso.
O odor de ácido acético, como cheira
o mormaço lá de casa,
é a cobrança olfativa
da solução criada.
Seu azedume embebe os rostos
que escolhi recortar,
recordar.
Saio agora,
meio à muvuca,
em busca
de outros.



1/250

Brizola, Lula, Maluf, Collor, Médici e a miséria. Somos presas, somos caçadores, somos restos
orgânicos, somos criadores — e, às vezes, só não somos. Cabe àquele fazendo a impressão.
Isso formiga o meu vício: a potência de afirmar quem fica.
Mesmo ciente, faço. Faço por me permitir
destacar contextos. Faço para ser
parte da emulsão. A estética que me atrai
moldará o social a me atrair.
Eivado de prescrições coletivas,
sei que meu crivo não confronta
a estrutura do meio.
Sou um transgressor gauche.
Esse é o testemunho
de um espectador
ciente de
também estar
sendo
assistido.



f/16

Caminho com o dedo indicador preparado para disparar contra quem há de se tornar
serrapilheira. Fecho o olho esquerdo –  ele decide as anulações.
O que não cabe, acaba aqui. Cercado por vertigem, defino
o que permanecerá estático. Penso em ângulos e apronto
para o desfecho. Policiais; cachorros;
uma pedra no azul; bocas
vociferando.
Esses perdurarão.

Entre bombas,
gritos,
latidos
e minha própria voz,
tiro.


A pedra me acertou na testa. A máquina continua intacta.


Fotograma do filme “Quem matou Chiquito Chaves”, 2020.
Foto por Chiquito Chaves, 2009.

TRANSLÚCIDO

Murilo Morais

Translúcidos objetos contendo o passado. Fotogramas espalhados pela mesa de Chiquito Chaves em ordem qualquer. A justaposição desses rastros históricos conversa entre sí:  “Brizola, Lula, Collor, Maluf, Médici e a Miséria”. A terceira imagem de Eisenstein se prova latente: do espaço entres as pequenas fotografias se formam novas visões, imateriais e imunes à censura do fechar de olhos – assim se decidem as anulações. Como duas partículas que se chocam, a montagem dos fotogramas causa uma micro-explosão. No entanto, o resultado do evento imagético é criador, ao contrário da colisão em nível atômico que destrincha e desconstrói.

O processo das fakenews deixou escancarado que a luta pelo controle do espaço onde fotografias transitam é um dos mais importantes campos de batalha político. O relato de Chiquito deixa clara a importância que as imagens tinham para a ditadura militar. Logo num dos primeiros planos do filme vemos uma das fotografias projetáveis de Chaves que nos mostra os olhos de uma pessoa. As instruções na fotografia dizem: “Ver deste lado”. O filme, entretanto, insiste em enquadrar o fotograma de ponta cabeça. Quem Matou Chiquito Chaves, neste momento, se alinha ao ideal proclamado por Chiquito de “liberar a imagem fotográfica da prisão da palavra”. Compreendemos a energia anárquica da imagem — força imprevisível — que se revela em sua colisão com a atmosfera do mundo. Invertendo a regra imposta pela moldura do fotograma, o filme se rebela contra o poder controlador do objeto sobre a imagem e ensaia uma vontade de liberação das forças caóticas das fotografias. Em outra foto, desta vez em um protesto, Chaves não consegue prever a força da pedra que seu visor captava, assim como as reverberações de uma obra não podem ser previstas antes de atingirem a face do mundo. A ferida abre e se alastra em rizoma. Sendo lida e relida, ressignificada, remixada. Fica clara, mais uma vez, a necessidade de controle da veiculação das imagens pelas forças autoritárias e ditatoriais.  


Fotogramas do filme “Quem matou Chiquito Chaves”, 2020.
Fotos por Chiquito Chaves

Gosto de pensar a fotografia (e o cinema), como coloca Susan Sontag: “O surrealismo se situa no coração da atividade fotográfica: na própria criação de um mundo em duplicata, de uma realidade de segundo grau, mais rigorosa e mais dramática do que aquela percebida pela visão natural”¹. Invocando Glauber (e torcendo-o um pouco), diria que o Sur realismo nunca esteve tão vivo em sua capacidade insólita quanto nesse momento de disputas pelas imagens. Uma história realista sobre as populações marginalizadas no Brasil sempre será sur. O terror é sur. A narrativa que defende brutais abordagens policiais em periferias é sur. E a naturalização do discurso se deu pelo controle do canal, tornando o sur em realismo. O trabalho do artista de criar outra duplicata do mundo se faz mais necessária do que nunca. Pelo simples fato de precisarmos ocupar os espaços físicos, virtuais e imaginários da sociedade com nossas duplicatas possíveis. A distância entre a realidade e a dimensão paralela imaginada pelas fotografias se encontra na ocupação das instâncias de veiculação. O ciberespaço também é um espaço social. A alteridade presente no disparo do fotógrafo se incorpora no objeto-janela de uma dimensão outra. Que ao se materializar nesta realidade a transformará para sempre. Vivemos num momento em que o plano de existência do mundo da mamadeira de piroca divide espaço no imaginário da população com utopias desmilitarizadas e sociedades horizontais. No entanto, a autocrítica de Chiquito sobre o fazer fotográfico impera como obstáculo a ser superado. Afinal, o limitante da força incontrolável de comunicação imagética será sempre seu canal de veiculação. E como bem lembra nosso protagonista: “Todo mundo quer aparecer e ninguém tem o senso crítico de saber que a primeira página é a página do dono do jornal”. Se houve, em algum momento, algum tipo de esperança sobre a internet como um espaço que faria jus ao anarquismo inerente da arte e da comunicação, estamos prostrados ao poder neofeudalista financeiro das grandes empresas da web. As fakenews não são eventos orgânicos, mas sim projetados por aqueles que dominam os canais. As duplicatas possíveis de mundo morrem no funil que as leva até o público pois há um pedágio: netflix, whatsapp, facebook, twitter, bots. Quem tem dinheiro consegue pagar, quem não tem que lute.

Infelizmente, para um filme que parece se regozijar no potencial caótico do artista e da arte, Quem Matou Chiquito Chaves não se permite infectar pelo anarquismo de seu protagonista. Os ensaios de experimentação são tão sutis que o que prevalece é a característica autocontrolada do documentário: a poética acadêmica, a fotografia sóbria, o enquadramento calculado. O texto sobre um filme também é a palavra de uma experiência. O canal que eu ocupo pode se opor à ideologia e ao poder hegemônico, mas ainda é um canal, ainda tem a margem. No final, me pergunto: como se observa uma pedra que está prestes a te atingir na cara?­²

1 SONTAG, Susan. Sobre a Fotografia. 

2 MURAYA, Ogutu, How do you observe a stone that is about to strike you? 

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