Tem névoa no mapa

Esse texto faz parte da cobertura da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Jerusa dá indicação do caminho a percorrer. Incapaz de se deixar definir, ela projeta sobre a visitante Silvia (e nós, espectadores) o contagiante espírito de quem transborda – e o faz apesar do enquadramento confinante do filme. Em Um dia com Jerusa, de Viviane Ferreira, o importante é justamente o sentido em que a personagem aponta. Ela faz a Anunciação, entorta a linha reta e convida à experiência extra-objetiva.

Um dia com Jerusa dá atenção especial para os mapas, as direções e indicações. O mapa pode reduzir muitas coisas. Cidades inteiras se tornam sujeitas à sombra dos nossos dedos. Bairros, bancos de praça e carnavais de rua espremidos no pequeno espaço bidimensional do papel. Se, por um lado, o mapa pode rastrear e encurtar distâncias, Jerusa aparece como figura que pretende alongar o tempo e o espaço. Fica claro que ela é mestra de uma outra cartografia – menos objetiva, mais sensível – e entende que um caminho não é apenas estrada em linha reta, mas trilha cheia de curvas, histórias e percalços. São suas mãos que desenham o mapa da liberdade com as tranças do cabelo de Sílvia. Sua sabedoria é a força capaz de dar outros contornos para a pesquisa de opinião de sabão em pó (um tipo de mapeamento) e tornar essa experiência em algo formativamente ancestral para a mediunidade de Silvia. Por trás de cada uma das rasas perguntas do questionário há uma história. E Silvia, com suas capacidades mediúnicas, é facilmente afetada pela fala de Jerusa, mesmo que não sem alguma resistência inicial. Jerusa em sí é a corporificação do caminho, enquanto Silvia é o caminhar ambivalente. Sempre entre se manter na trilha ou se negar a segui-la. Nas rugas da pele de Jerusa estão marcadas as memórias da história, como diz o personagem profeta de Majó Sesan. Ademais, há o personagem do Saracura: rio escondido da cidade de São Paulo que, depois de sua canalização, foi literalmente tirado do mapa. Caberia perguntar se, junto do curso das águas, não teriam também desaparecido as histórias que habitavam suas margens? Não para Jerusa, cartógrafa rebelde que desenha seus próprios espaços e guarda, no porão de sua casa, a última fonte do rio. Desobedecendo o mapa oficial da cidade, em sua casa outra São Paulo é desenhada, uma em que a memória do Saracura esteja presente e onde ele possa continuar brotando e fluindo.

Fotograma retirado do filme “Um dia com Jerusa” (2020) de Viviane Ferreira.

Em oposição ao mapa, o mistério é a segunda chave do filme. Há a clara tentativa de enevoar o pensamento, de borrar as margens e de estender o limite das respostas. Jerusa sempre responde ao questionário, mas não da forma objetiva e quadrada que o documento espera. Parte das respostas levam em conta o fator do mistério de suas histórias.

Esta cartografia a qual Jerusa faz oposição, é a mesma do indiferente mapa do filme de Ernesto de Carvalho, Nunca é noite no mapa, de 2016. Para este mapa, a terra não lembra de nada, “não há golpe de estado, não há revolução. Nunca é noite no mapa”¹. A noite é o espaço-tempo da névoa, do mistério, e se o mapa não tem intenção de enevoar nada, o papel de Jerusa parece ser de insinuar trilhas, antes escondidas, para que possam ser caminhadas e redesenhadas. Ninguém conseguia explicar como a roupa ficava tão branca com as lavagens nas margens do Saracura, ou a qualidade curativa de suas águas. Vale lembrar que, no filme, o rio também é lugar de mistério e troca. Ao perguntar para Jerusa sobre sua sexualidade, esta diz: “no Saracura cada um escolhe a sua preferência”. O mistério é também o espaço da alteridade. É o campo de conexão com a ancestralidade, representada pela atriz que interpreta, ao mesmo tempo, a jovem Silvia e a avó de Jerusa. A sobreposição dos papéis, assim como na sobreposição de imagens em transparência, revela algo das duas partes, mas ainda mantém algo enevoado, algo que se encontra na área de transição entre a nitidez das formas. A sobreposição de personagens relaciona e coloca em diálogo as duas experiências, transpondo-as a todo momento sem nunca defini-las por inteiro.

Fotograma retirado do filme “Um dia com Jerusa” (2020) de Viviane Ferreira.

No filme de Ferreira, Silvia é alguém inicialmente a serviço do mapeamento. Ela precisa escapar das pranchetas, transbordar os limites, fugir das perguntas objetivas, das faixas de renda. Jerusa é a professora que ensina através do toque, da história, da textura de sua voz e pele. Por trás das redutivas perguntas há história. Um nome não é apenas as letras que o compõem. Abaixo dessa superfície há memória. Inobjetificável. Inacessível para a pressa inerente a sua função de pesquisadora de opinião de sabão em pó, mais preocupada com com a limpeza objetiva da modernidade do que com as impurezas da vida vivida. No entanto, natural para uma médium. A transformação de Silvia ocorre durante o processo de formação dentro da casa. Seu cabelo muda, ela agora veste uma saia de ração, traje das iniciadas no candomblé, e termina o filme como professora. Essa é a profecia do filme: o transbordamento dos limites, o rio que transpõe sua canalização imposta, materializada no plano das ruas alagadas do Bixiga, inundadas de rio. Antônio Pitanga e Majó Sesan andando felizes pelas águas. Deve-se transbordar o mapa. O caminho é apenas indicação, deve ser metonímia. O transbordamento é Jerusa, ela é “mãe e é caminho”. Mas antes de ser caminho, foi mãe. Para pensar nesse aspecto do filme, lembro da frase de Ailton Krenak que diz que o motivo do modo de vida indigena se manter, mesmo diante de qualquer conjuntura política adversa, é “pela memória que nós temos de quem nós somos. (…) Nós somos um contínuo da memória que nós recebemos dos nossos antepassados”². Por isso algumas pessoas ainda escolhem a história, e que algumas histórias fazem rios reaparecerem.

No entanto, o filme não consegue escapar de algumas travas. Ele está confinado em sua decupagem frontal, apertada. Em sua estética limpa, retilínea. De certa forma, é caminho que não transborda. Entretanto, o final também pode ser anunciação da quebra desse confinamento. A rua enevoada obscurece qualquer tentativa de foco, de clareza observacional, ou de nitidez interpretativa. O mistério vem para a superfície e domina o quadro. Difícil decifrar se ela morreu, se foi para junto das parentes que andavam pela rua. Decididamente ela anda para algum lugar, para algum caminho que escapou aos mapas, algum lugar trilhado por outras cartografias, enevoado.

¹ O filme de Ernesto está disponível em: vimeo.com/ 175423925

² Esse comentário está nos 28m40s da entrevista para o Le Monde Diplomatique Brasil da série Vozes da Floresta, dirigida pelo Thiago B. Mendonça. Disponível em: youtube.com/ watch?v=KRTJIh1os4w

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