Sobre a censura da peça Blitz

Sobre a censura da peça Blitz ou Da coragem de se dizer a verdade   blitz-1 A censura da peça Blitz – O Império que nunca dorme, apresentada pelos companheiros da Trupe Olho da Rua, grupo de teatro da baixada santista, foi um incidente sério. Mesmo que atropelado em meio à enxurrada de barbáries que sistematicamente ocupam os acontecimentos cotidianos, ganhou alguma expressão nos meios de comunicação. A peça foi censurada pela Polícia Militar na cidade de Santos, no dia 30 de outubro de 2016, há pouco mais de 30 dias da escrita desse texto. Nesses tempos de derrotas acachapantes diárias, 30 dias parecem 30 anos. O que não muda a gravidade do acontecido. Faz pouco mais de 30 dias que a peça Blitz, da Trupe Olho da Rua, foi censurada pela Polícia Militar, coibindo o que parecia a última fronteira para a prática efetiva de um estado de exceção: o direito à livre expressão. Minha reação foi como a de tantas e tantos: cá estamos, de volta à época da ditadura. Aqui está, rompido sob a luz do dia, diante de celulares filmando e olhares atônitos, o direito de livre expressão de um grupo de teatristas. Ditadura civil-militar que não vivi. Aprendi o significado desse período tenebroso da nossa história em relatos, estudos e militância, período que como um fantasma assombra o presente e, de maneira cada vez mais explícita, vai encontrando meios de se reencarnar. Ditadura e fascismo são palavras que estão na ordem do dia, misto de denúncia e presságio, em que nos agarramos por desespero. Sim, desespero, diante de um cenário de derrotas iminentes e tempo histórico acelerado. Isso, claro, para quem é de esquerda. À eficiente direita neoliberal restam os lucros, brindados sob as bolhas de champanhes em jantares caros. Desespero de não conseguir olhar o tempo histórico presente pelo que ele é, esse é o desespero, pelo menos o meu. E ver e não conseguir enxergar onde estamos. E ter de recorrer a fantasmas da nossa história, como a ditadura civil-militar, como uma tabula rasa de salvação para qualquer tentativa de entender a realidade que me rodeia. Pois vejamos: não estamos em uma ditadura civil-militar. Se existe alguma clareza sobre o período de 1964 a 1985 é que vivíamos um regime de exceção, um governo que era, sob todos os aspectos, ilegítimo, fruto de um Golpe. Coisa muito diferente do que estamos agora enfiados. Todo o recente processo de impeachment foi desempenhado sob um conjunto de dispositivos inscritos nos mecanismos da legalidade. Participam da tenebrosa realidade ordeira, cotidiana. Quando chamamos ditadura o tempo que vivemos, falseamos a questão. Estamos em um buraco mais embaixo. Não importa o que de fato aconteceu: um golpe de estado parlamentar. Importa a aparência de normalidade, a imposição de um aparato espetacular-ideológico, descolado da realidade. Esse descolamento é essencial, muito explorado no livro de Guy Debord, A sociedade do espetáculo. Nosso é um tempo mediado pelas imagens e virtualidades o tempo inteiro. De tal modo que o espetáculo, a princípio descolado da realidade objetiva, cola na superfície da vida, tornando-se a um só tempo a própria realidade vivida sob a forma da sua negação objetiva. Diante do incidente da censura da peça Blitz – O Império que nunca dorme, o Governador Geraldo Alckmin declarou que a peça era de mau gosto, mas que não deveria ser censurada. Veja como é democrático nosso governador! O que não muda a realidade objetiva: uma peça foi censurada e seu diretor autuado, agora respondendo a um processo por uso indevido de símbolos nacionais, desacato a autoridade e resistência à prisão. A realidade objetiva não importa. O que importa é a imagem sensata do nosso Governador, a naturalização que ela promove de barbáries como essa: censura em plena luz do dia. Talvez esse seja o maior incomodo produzido pela peça da Trupe Olho da Rua. O espetáculo Blitz é o bom e velho escracho, promovido por um grupo de bufões bastante afiados. É um espetáculo que não produz nenhum descolamento com a realidade, muito pelo contrário. Ele expressa, através dos seus símbolos, risos e jogos de cena, a realidade exatamente como ela é, a saber, esquadrinha de maneira sistemática a Polícia Militar, o braço da gestão armada da vida social. Como se a Trupe Olho da Rua quebrasse um protocolo seríssimo de utilizar o espetáculo não para imprimir uma idealização sobre a realidade, mas sim para revela-la, revelar aquilo que é absolutamente óbvio para todos. blitz-2   A peça é um gesto de coragem, sem dúvida. Uma trupe de Polícias Militares bufões invadem a cena, vieram para coibir a apresentação. Vestem fardas, kilts, meia-calça arrastão e coturno. Além de apetrechos, digamos, inusitados, como uma cabeça de dinossauro gigante de pelúcia, mais precisamente o mascote do Danoninho. A Trupe Olho da Rua não tem medo de romper qualquer limite do politicamente correto na mediação do seu discurso espetacular. A realidade nua e crua explode na sua cara. Antes da peça começar, corpos negros de pano são espalhados diante do espaço de cena. O público assiste à peça sentado em cima deles. Os polícias que invadem a cena são bufões, mas são também policiais. Agem como sabemos socialmente que agem os policiais. Não só gritam e ameaçam o público, como batem nele, com cassetetes feitos de espuma. E de repente, todos os Policiais Militares se pegam loucamente, se agarram e se beijam como se não houvesse amanhã, em meio a um batidão pesado de funk. Blitz – O Império que nunca dorme é uma peça corrosiva e maravilhosa, humor em formato de molotov. As cenas desconstroem a instituição da Policia Militar e todo o aparato que apoia e legitima suas atividades e táticas. A grande mídia da violência, movida por Sherazades e Datenas, também marca presença na peça, fechando o ciclo das forças que atuam para normalizar a prática assassina da Polícia Militar. Sempre explodindo o óbvio. Por exemplo: em uma das cenas da peça, os Policias, com tons e gestos patrióticos, explicam o significado das dezoito estrelas pequenininhas que estão no escudo da Polícia Militar, em torno da estrela amarela. Sabe o que elas significam? Representam 18 marcos históricos da corporação. Entre elas temos a 8ª Estrela pela Campanha de Canudos em 1897, passando pela 10ª Estrela, de 1917, pela Greve Operária, terminando com a 18ª Estrela pela Revolução de Março em 1964. A Polícia Militar tem clareza de quem são seus inimigos, do seu posicionamento ideológico, da sua narrativa da história, tudo isso cotidianamente exposto no seu brasão. A realidade sendo a realidade com maior clareza. Essa parece uma ofensa imperdoável para os Policiais, que imediatamente censuraram a apresentação. Como naquele poema de Brecht: uma das maneiras de dizer a verdade passa por ter coragem de dizer a verdade. E, pelo menos assim me senti, percebe-se essa coragem na peça Blitz, enquanto ela é apresentada na rua, no espaço público. A elétrica coragem de dizer a verdade, utilizar seus esforços teatreiros para fazer ver a realidade com mais precisão, para tornar possível dizer aquilo que é óbvio para todo mundo. Expondo a maior máquina institucional de genocídio em funcionamento hoje no mundo. Mas essa coragem não vem de um quixotismo qualquer. A Trupe Olho da Rua vem de um esforço e clareza teatrais impar desde 2002, com mais de 10 espetáculos na bagagem, todos na rua, feitos onde o povo está. Clareza que vem com aquelas e aqueles que dividem as trincheiras com a Trupe, grupo reconhecidamente aliado de Movimentos Sociais e Sindicais importantes, como as Mães de Maio e a Fábrica Ocupada Flaskô. Um acúmulo de construções que passa por todo o processo de ocupação da Vila do Teatro, espaço conquistado na base da luta. A trupe e diversos coletivos tocam cotidianamente as atividades da Vila, que volta e meia sofre censuras de diversos tipos. Sobretudo pelas festas monstruosas que são organizadas na praça em frente a Vila, que juntam funkeiros das diversas periferias de Santos e São Vicente, em um baile de fluxo para milhares de pessoas. Para todo funkeiro que curte um baile de fluxo, a censura é coisa cotidiana. Vem voando nas bombas de gás e efeito moral que os Policiais disparam para dispersar as multidões periféricas nos bailes de rua. Essa censura não importa, não dá holofote em jornal nenhum. Os policiais da baixada santista tem um histórico de assassinar funkeiros, com mais 12 MCs e DJs mortos pela corporação ou por grupos de extermínio ligados a PM. É toda essa caminhada da Trupe Olho da Rua que garante o arsenal técnico/poético e, sobretudo, a coragem para que consigam dizer a verdade com seu espetáculo, expressar a realidade em sua objetividade violenta e crua. A coragem não é um gesto de heroísmo, como se estivéssemos um grande drama. A coragem é fruto de uma construção histórica que a faz possível. Coragem que possibilita um fato estético como a peça Blitz – O Império que nunca dorme, que expõe não só a corporação da Polícia Militar, mas o próprio descolamento espetacular promovido pelo discurso dominante que normaliza a prática violenta dessa corporação. Coragem possível porque expressa um front de luta com clareza, da qual participam movimentos sociais importantes, todos baderneiros. Por isso tudo, a peça foi censurada. Avante Trupe Olho da Rua! Toda força pra quem luta! Que, sinceramente, vamos precisar. blitz-3 Crédito das Fotos: Sérgio Silva (Fotógrafos em Rede)

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