Si, hay futuro

O que nos resta sob o escombro dos sonhos, sob a ruína das vitórias?  Como bem disse Millor,  há um imenso passado em nosso futuro e estamos agora nos deparando com o que há de pior nele. Cada momento histórico carrega seus fardos, estamos cá, lidando com os nossos. Hoje morreu Fidel, morre com ele um bocado de sonho concreto. Morre com ele o passado da guerrilha, da revolução armada e popular, morre o estrategista das Américas. Hoje, morre com el viejo de 90 anos muito futuro. Morre uma espécie de farol, de conselheiro moral. Morre a mística de uma memória viva. Junto com as recentes tentativas de acordo de paz na Colômbia, morre uma das principais estratégias de luta da esquerda organizada na América Latina, a guerrilha, por hora, ficou na história. Com o acirramento dos últimos anos, já caminhávamos perguntando por onde naufragaremos nos mares da história? Por quais montanhas iremos tombar? Por qual beco seremos capturadxs?  Por qual viela a bala vai nos encontrar? A derrota sempre nos parece eminente, talvez porque os processos sejam mais importantes do que as datas marcadas, do que a burocracia do poder ou a solenidade mórbida dos ritos. Mas seguramente não perdemos nossa capacidade de espanto – ou seria uma ingenuidade latente? – parece que nesse labirinto, voltamos pra fase que pensamos que havíamos superado, aquele tempo histórico  onde o fascismo fazia morada e o ódio caminhava pelas ruas com orgulho de existir. Ainda que nossas instituições sejam constituídas disso em essência e prática cotidiana. Parece que nos esquecemos facilmente que para o Império e para a tristeza nunca se deve baixar a guarda, há sempre que seguir por aí resistindo de mãos dadas com tantas outras mãos, de peito aberto pra felicidade ter um refúgio – nem que seja passageiro. Parece que nos esquecemos no que o outro velhinho simpático tanto dizia, que a história é feito espiral: cíclica, mas não igual. Que o direito conquistado será necessariamente usurpado no primeiro deslize, na primeira distração, na primeira vez que soltarmos a mão de quem está ao lado. Assim a luta não se faz uma opção, ela se faz como caminho. E dia desses eu tava caminhando por aí e encontro um escombro pintado si, hay futuro, ao lado de uma janela, de uma parede que era um lugar nenhum, era só uma parede. Ali, para a janela que apontava o mundo havia um trabalhador passando. Ali, o destino apontava o óbvio. Mas se era tão óbvio, porque carecemos tanto de faróis como Fidel? Porque sentimos que perdemos parte do futuro, se sabemos que a organização é o fundamental de nossas vidas, de qualquer resistência? Caminho por Caracas, e vejo Chavez por todos os lugares, as vezes tenho a sensação que vou encontrá-lo sentado ali na praça Bolívar, trajeto que faço todos os dias para ir para o trabalho. Parece que o conheço tão bem que vou encontrá-lo e perguntar da família, pedir pra ele me explicar melhor esse negócio de dolarização da economia e dolar today e saber se ele gosta mesmo do Corazón Llaneiro. Isso porque, entre um almoço e outro, enquanto estamos na fila para esquentar nossas marmitas até a hora que nos cansamos de ficar ali no comedor a gente tá falando nele. Quase todos os dias ele aparece em nossas conversas e as palavras são carregadas de saudade, ainda que no espanhol não exista tal substantivo. Assim como explico que saudade não é o mesmo que extrañar, elxs reforçam seguidamente que Maduro não é o mesmo que Chavez.  Elxs não sabem que xs entendo melhor porque elxs não sabem o que é saudade. Aqui entendi que saudade é justamente presença e não ausência. Ausência é necessariamente esquecimento. Já era sábado, quase 24 horas que Fidel tinha ido. Estávamos há mais de uma hora de Caracas, num lugar perto da praia, mais de 250 jovens camponeses debatendo o futuro da América Latina e nossas organizações. Depois da plenária da tarde, saímos do espaço onde era o encontro, caminhamos uns 15 minutos e chegamos num pequeno quiosque, era um balcão cheio de doces – 3 tipos diferentes de cocadas, uma rosa, inclusive – e na parte de dentro uma chapa pra fazer arepa e hambúrguer e umas geladeiras cheias de refrigerantes,  cerveja, yogurtes. Queríamos uma cerveja, já tinha uns 5 senhores bebendo de pé, ali no balcão – só tinha a calçada, não havia lugar pra sentar. Um deles leu em voz alta na camisa de alguém juventud campesina, depois disso veio um sonoro e afetuoso viva Fidel. Eu acho que Fidel nasceu pra isso, pra nos encontrarmos. Para construir unidade entre o povo. E voltamos para os nossos tempos perdidos, para tempestade em alto mar, já estamos navegando sem farol, ainda que as formas de luta e as negações já nos apontem muitos rumos. Ainda que vibremos com a luta dxs secundaristas, ainda que vibremos – e sigamos tentando compreender – com junho de 2013, ainda que vibremos com todos os avanços organizativos, ainda assim, sinto que estamos num tempo de caminhar um passo por vez, sem saber se já estamos completamente imersxs na barbárie ou se ainda há tempo de construir o novo. Sem saber se esse desejo de unidade totalizante é mesmo necessário para que sigamos resistindo. O que há depois de resistir? Ainda que os sonhos estão cheios de concretude. Serão necessários mais quantos Fideis, quantos Chavez, quantas ocupações para termos certeza que somos nós mesmxs que vamos construir o novo? Serão necessários quantos subcomandantes, quantos Marcos e quantos Galeanos pra gente ter certeza que somos nós mesmxs que vamos construir o novo? Serão necessárias mais quantas Dandaras, quantas Marias Felipas para ter certeza que somos nós mesmas que vamos construir o novo? E pra termos certeza de vez que resistir e construir são sinônimos, caminhemos juntxs. Caracas, novembro de 2016. *o X é utilizado como linguagem inclusiva, refere – se ao gênero feminino e masculino.  

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