Senhor X Escravo: questões de hoje.

“Só mediante o pôr a vida em risco, a liberdade [se conquista]”. Esta frase retirada da Fenomenologia do Espírito de Hegel explicita o mecanismo central do capítulo dedicado à luta entre o senhor e o escravo, um dos capítulos mais decisivos da história contemporânea da Filosofia. Não tanto pelo seu teor de verdade, mas pela encruzilhada trilhada por suas questões. Dominação e servidão como parte do sistema moderno de pensamento, contraditório resultado dos projetos de liberdade e autonomia – coração dos tempos modernos. Deste cruzamento, a leitura das passagens da dialética do senhor e do escravo são inúmeras. Questionam o estatuto de nossas experiências subjetivas, o universo de nossas relações sociais, a territorialidade de nosso pensamento, por vezes, tão colonizado e ocidental.   Experiências subjetivas: a ordem do desejo e do reconhecimento Lembremos que esta passagem se localiza em um momento preciso, quando a investigação de Hegel sobre gênese do espírito histórico da humanidade passa dos primeiros estágios do entendimento para a história. Até então, as consciências só olhavam para si como referência. O mundo era apenas reflexo de seu olhar narcísico. Mas na dialética do senhor e do escravo, o encontro com o outro é inevitável. Alexander Kojève – personagem cuja vida falta uma biografia – extrai desse momento hegeliano o seguinte: “Se a realidade humana é uma realidade social, a sociedade só é humana como conjunto de desejos desejando-se como desejos”. O olhar para o outro é reconhecer o desejo do outro. Nesse sentido, senhor e escravo vivem na ilusão da dominação, em que o reconhecimento é pura brutalidade e silenciamento. O prestígio do senhor vem do falso reconhecimento: do lugar que ele arrisca ocupar na força que mantem sobre as “coisas” ao seu redor. Desde que o outro se mantenha enquanto coisa, tudo está em ordem e progresso. O engano do senhor está no reconhecimento vazio de valor social, reconhecimento a todo instante ameaçado. Como consequência, o senhor não tem outra forma do que impor sobre as “coisas” que domina, sua força. Para Kojève, o escravo, por sua vez, só permanece enquanto tal, na medida em que não arrisca sua vida. Assim, o escravo reconhece o senhor enquanto tal. Falso reconhecimento, pois unilateral, uma vez que não passa pela dignidade humana. Na relação entre senhor e escravo não se vive o conjunto de desejos, mas a imposição à força e ameaças da vontade unilateral de quem domina. A saída desta encruzilhada, para Kojève, viria da luta entre os dois e a morte do senhor. O escravo quer a negação de seu estado dado e, conforme o autor, conquistar o ideal de autonomia – que aliás, encontrava ainda que de maneira enganosa, na vida do senhor. Desta maneira de interpretar a dialética, há toda uma maneira de expressar a experiência subjetiva moderna. Marca que questiona o destino de nosso próprio desejo. O que significa viver de maneira autônoma nosso próprio desejo? Somos herdeiros do desejo alheio? Somos capazes de reconhecer dignamente o desejo do outro? Não à toa, esta leitura alimentou todo um campo da filosofia existencialista, como aquela encontrada na afirmação de Sartre sobre o fato de estarmos condenados a ser livres.   A dominação na dimensão do trabalho Mas também é possível identificar o quanto a dialética do senhor e do escravo influenciou a leitura da história como a história da luta de classes. Para além do possível idealismo que Marx denunciava em Hegel, seria inconsequente negar a influência do confronto entre senhor e escravo na luta de classes que mobiliza a maneira como o marxismo pensa a história. Talvez, mais do que no Manifesto Comunista, onde Marx deflagra a luta de classes como possibilidade de mudanças radicais na história, encontramos no Marx historiador as facetas desse confronto de dominação. Na tragédia que se repete como farsa pelo golpe de Napoleão Sobrinho sobre os revolucionários franceses, nada mais do que a ilusão de reconhecimento que se sustenta sobre a violência. Tornar tudo como objeto a serviço do brilho ilusório dos palácios. No entanto, a força transformadora que Marx encontra entre os “escravos” está no elemento que os sustenta enquanto parte negada do status quo. O senhor é reconhecido pela força que exerce sobre seus escravos. Mas por que precisa deles? Ora, os escravos detêm a força de trabalho, elemento essencial que sustenta todo o modo de vida do senhor. Ao reconhecer isso consigo, o escravo/proletário ganha nova força no jogo de vida e morte com o senhor. Tudo o que os dominadores temem, aliás. Reconhecimento que faz do escravo mais do que um mero objeto da natureza, mas encontra na atividade transformadora do trabalho o seu eixo de reivindicações. Herdamos tal perspectiva nas lutas dos trabalhadores, muitas vezes abafadas pelas guerras massacrantes, pelo poder do Estado, pelas ilusões de consumo. Com a miragem neoliberal de que somos empresários de nós mesmos, esquecemos o quanto nossa dignidade está no ralo, o quanto vendemos nossa existência para um conjunto de interesses que não nos alivia em nada os sofrimentos da vida. O quanto estamos vivendo imersos em aparatos tecnológicos sobre os quais não temos a mínima capacidade de intervenção. Daí nos perguntar pela capacidade que temos em reconhecer no mundo os frutos de nosso trabalho. A que ponto da engrenagem fomos reduzidos de modo a existir como algoritmos vigiados e exterminados em ataques cirúrgicos? A que ponto nossos afetos são orientados pela capacidade de viver em uma bolha virtual de comentários e polêmicas que alimentam todo um conjunto de economia e ilusões?   O território de nosso pensamento Conforme Susan Buck-Morss, a dialética do senhor e do escravo surge do encontro de Hegel com as revoltas por libertação no Haiti, até então colônia da França da Revolução. A autora compreende o impacto dessa lição da história que vinha das Américas. Pensamento que atinge o coração eurocêntrico e permite uma nova chave de compreensão sobre a dialética do senhor e do escravo. Nova chave que se alastrou pelas lutas anticoloniais perpetradas por autores centrais como Frantz Fanon e Paulo Freire. Cada qual em seu território, reconheciam na dialética do senhor e do escravo uma nova maneira de enxergar a modernidade e seus efeitos nas colônias. Uma dialética que articulava a voz dos condenados da terra, dos oprimidos. Voz que não seguia a gramática da vitimização, mas da luta por transformação radical de sua condição escrava. Tal relação permite pensar um dos lemas da luta anticapitalista de nossos tempos de maneira fundamental: “pensar globalmente, agir localmente”. Como Buck-Morss bem reconhece, trata-se de não perder do horizonte o domínio do capitalismo que nos assombra. No entanto, desterritorializar o pensamento é sobrevoar no vazio. A dialética do senhor e do escravo, à luz de Freire e Fanon, permite conceber estes dois movimentos. Por um lado, reconhecer a condição global de dominação: sobretudo, a força violenta do capitalismo que subjuga nossos desejos. Por outro, é preciso compreender o ambiente em que se lança tal força. O campo local de lutas que gera, mesmo entre os oprimidos, a reprodução da dominação. Encontrar as contradições locais que compõem o mapa de lutas globais. Pensar o universal mediante o particular, pela gramática hegeliana. O que significa: um pensamento que é capaz de transitar entre as ruínas. Há, naturalmente, riscos de vida e morte sobre a experiência da crítica a partir daí: Haveria eurocentrismo num pensamento dialético? Ou a dialética consegue escapar da lógica dos centros e torna volumosa as vozes que vêm da periferia? Podemos escapar dos “centrismos” quando somente invertemos a lógica da dominação pela lógica da vítima? Independente das respostas que porventura encontramos, a luta do senhor contra o escravo ainda fornece uma série de questões. Talvez enfrenta-las seja o que pouco fazemos quando o pensamento conservador tanto silencia alternativas e transformação.

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