Santiago – 13 anos depois

Vi o filme de João Salles no mínimo umas trezes vezes. Isso só no cinema. Emocionava-me quase sempre nas mesmas partes. Na sessão de estreia do filme no Brasil, eu estava lá sentado, jovenzinho, atrás de Jean-Claude Bernadet, com aquela sensação de ver a História acontecer diante dos olhos. Era no festival de documentários “É tudo verdade”, e Amir Labaki passa ao meu lado dizendo para um casal atrás de mim, antes do filme começar: “É o novo “Cabra””.   De fato, a passagem do tempo em ambos os projetos gera um outro filme. Por volta de vinte anos para Coutinho reelaborar suas estratégias para contar a história da família Teixeira, treze anos para João Salles retomar o material bruto de seu filme sobre o mordomo de sua família real. Mas pera aí. “Santiago”, assim como foi finalizado pelos montadores Eduardo Escorel e Lívia Serpa, não é um filme sobre Santiago Bardotti, mas um filme sobre o “maravilhoso Joãozinho Salles”. Há pouco mais de um, dois anos, vi em um debate o herdeiro da família Salles externar certo desconforto com o filme. Ora, treze anos após o lançamento desse que é visto como um marco na história do documentário recente, fica agora claro qual foi, ou qual é, o destino do mordomo da “casa da Gávea”. Seu destino é o mesmo de muitos personagens da série “Black Mirror”. Sua consciência está para sempre aprisionada naquele minúsculo apartamento no Leblon, fazendo para sempre seus lindos gestos dolentes com as mãos – por toda eternidade – obedecendo a vara longa e firme do cineasta premiado. “Agora não. Abaixa a cabeça. Vai logo porque a gente está com pressa!”.  Estou recentemente conhecendo alguns filmes de John Akomfrah, seu movimento é o inverso. Ao revisitar arquivos de décadas atrás da televisão britânica, dá nova vida e subjetividade àqueles corpos aprisionados de trabalhadores que devem ser servis para agradar ao dono de seus empregos. Claro que “Santiago” possui momentos lindos. Chamo, porém, atenção para a perversidade – bem brasileira – de todo o estratagema cinematográfico. Em argumento mais desenvolvido, no livro de Mariana Souto, assim ela coloca “Santiago” junto de outros documentários recentes em que patrões filmam empregados, como em “Babás”: “O outro de classe nos filmes em que patrões filmam seus empregados domésticos é dotado de algumas singularidades, ora marcado por certo silenciamento, ora pelo prolongamento da relação de obediência. Animados por sentimentos de justiça, gratidão e reconhecimento mesclados a um pouco de narcisismo, mas também pela possibilidade de elaboração e reinvenção da linguagem documental, são filmes que têm sua força, o mérito de abordar questões pouco ditas e uma capacidade de sedução cinematográfica, mas que aqui são alvo de nosso desconfiança – suspeitos no que tange à real interlocução, à situação de paridade e à construção da verdadeira escuta”¹.   ¹ SOUTO, Mariana. Infiltrados e Invasores: uma perspectiva comparada sobre relações de classe no cinema brasileiro. Salvador, EDUFBA, 2019, p. 118.

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