Samba, Cinema, Cinemateca


Autor: Diretoras e diretores de cinema contra o fascismo

Esse texto foi escrito por um movimento de diretoras e diretores brasileiros dispostos a fazer parte da mobilização contra o fascismo no Brasil, em defesa das políticas públicas para a cultura e do cinema independente, não submisso às leis de mercado. Foi lido pela primeira vez na última terça-feira, 13 de agosto, em uma Live da cantora Teresa Cristina.

Um dia alguém há de cantar para o cinema como Nelson Sargento o fez para o samba: “Samba, agoniza mas não morre, alguém sempre te socorre, antes do suspiro derradeiro…”

Vivemos sob um governo autoritário e inimigo do livre pensamento. Cultura, ciência e educação estão sob a mira de Bolsonaro. Na cultura, o desmanche começou nos primeiros passos da administração, com a extinção do MinC e segue com o contínuo aparelhamento ideológico das instituições públicas. No cinema não é diferente: o atual governo paralisou a Ancine e agora ameaça a Cinemateca Brasileira. Na semana passada, numa performance canhestra e violenta, foi com a polícia a tiracolo pegar as chaves do lugar que abriga a memória do cinema brasileiro.

Nesse contexto, como fazer frente aos ecos ditatoriais do governo Bolsonaro? No Brasil de 2020, quem socorrerá o cinema? O samba pode nos dar as lições da sobrevivência: para avançar é preciso observar o passado.

Cinema e samba estiveram juntos desde os anos 30, tempo de uma revolução que colocou pela primeira vez o povo como protagonista de sua história. Se a tal democracia não chegou, ao menos uma ideia de país nascia. O cinema e o samba ajudaram a construir as formas como nos entendemos. Estão em diálogo desde as chanchadas e os filmes carnavalescos, com a participação de muitos sambistas (Jamelão, Caco Velho, Carmen Costa e tantos outros, que apareciam em números musicais, mesmo com todo o racismo de então). Desta época surgiu Grande Otelo, talvez o maior ator do cinema brasileiro, que era também sambista e compositor. Nas chanchadas, pela primeira vez samba, cinema e carnaval se irmanavam, dramatizando o embate contra o moralismo mais tacanho que ainda hoje os ameaça.

O primeiro grande cineasta social brasileiro, José Carlos Burle era compositor, ator e cantor do rádio. Compôs ‘Luz de meus olhos’, que transformou em filme. Adaptou do cancioneiro popular ‘Meu limão, meu limoeiro’, ‘Quase nada’, entre outras músicas. Seu filme ‘Também somos irmãos’ já continha o germe de uma revolução que chegaria pouco depois: o cinema moderno brasileiro, filho de dois filmes de Nelson Pereira dos Santos: “Rio 40 graus” e “Rio Zona Norte”, frutos da bonita parceria entre Nelson e Zé Keti. “Rio 40 graus” tem a escola de samba e a favela como protagonistas. “Rio Zona Norte” traz Grande Otelo em uma das mais belas interpretações da história do cinema brasileiro, no papel de Espírito, e mostra a trajetória deste sambista lidando com a desigualdade, o racismo e a apropriação cultural (criticando inclusive a relação promíscua e hipócrita da burguesia carioca com o samba). Poucas cenas no nosso cinema são tão belas quanto a de Grande Otelo apresentando seu samba para Ângela Maria (Malvadeza Durão).

Nos anos 1960/70 surgiram muitos documentários sobre o samba: “Dia de Alforria”, do Zózimo Bulbul, retratando o compositor, partideiro e líder sindical Aniceto do Império; os dois clássicos de Leon Hirszman, “Nelson Cavaquinho” e “Partido Alto”. Há ainda os perfis de João da Bahiana, “Conversa de Botequim”, feito por Luiz Carlos Lacerda, e “Heitor dos Prazeres” de Antonio Carlos Fontoura, dentre tantos outros. Esses filmes nos ajudaram a construir uma memória coletiva de nossa cultura e nossa história. Incorporaram-se no nosso imaginário como um patrimônio coletivo, uma memória imagética do Brasil. É esta memória, patrimônio de todos, que está em risco. Um bem comum que está sendo apropriado com leviandade por uma gangue política que se instalou no Estado e pensa ter o poder de reinventar a história em favor de sua cultura de morte, ameaçando o patrimônio da nossa cultura.

Nesse 2020 que nos levou Aldir Blanc, é preciso lembrar a sua máxima da oposição entre dois países: o Brasil e o BraZil. O país com “Z”, colonizado, subserviente, é inimigo da cultura brasileira, não gosta do nosso cinema e não tem samba no pé́. O samba, desde o seu começo, foi perseguido pelas autoridades, tomado como coisa menor e perigosa. O cinema brasileiro foi censurado durante a ditadura, quase exterminado durante a era Collor e agora, no governo Bolsonaro, vira caso de polícia.

Mas tanto o samba quanto o cinema brasileiro são fruto e espelho da gente do Brasil. Na música e na tela estão as marcas da vida de um povo que, mesmo oprimido, é “antes de tudo um forte”. Assim como nenhum meganha conseguiu silenciar o batuque, o cinema brasileiro pode resistir ao som dos coturnos.

O cinema brasileiro é testemunha do Brasil autônomo, criativo. O filme “Partido Alto” é o registro do samba e de um país construído em partilha. A frase de Candeia, um dos protagonistas do filme, traz a inspiração para lutarmos pela preservação da cinemateca: “Um país que deixa a cultura se perder nunca será uma nação”.

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Assinam essa carta: Adirley Queirós, Affonso Uchôa, André Novais, Ava Rocha, Beth Formaggini, Caetano Gotardo, Camila Margarida, Caroline Louise, Clarissa Campolina, Cristina Amaral, Dácia Ibiapina, Eryk Rocha, Ewerton Belico, Guto Parente, Henrique Borela, João Dumans, Junia Torres, Luiz Pretti, Marcela Borela, Marcelo Lordello, Marcelo Pedroso, Paula Gaitán, Pedro Diógenes, Rafael Parrode, Renata Pinheiro, Sérgio Oliveira e Thiago B. Mendonça

Um comentário em “Samba, Cinema, Cinemateca

  1. Maravilha. Resistência na cultura , na terra…o samba da lições e o MST, também! Juntxs, trabalhadores da terra, da cidade em todas áreas, incluindo os do cinema, não podemos deixar passar esta ditadura disfarçada que tem à frente milicianos, militares, todxs fascistas . À resistência até a vitória! Salve geral às diretoras e diretores, ao conjunto dos trabalhadores da cultura, aos trabalhadores da saúde, à frente no combate a Pandemia e aos trabalhadores rurais do MST queira enfrentam o ódio aos pobres do governo Zema e da “justiça” cega em Campo do Meio! Salve geral ao povo brasileiro!!! # Fora Milicianos#ForaFascistas#ForaBolsonaro

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