Saliva quimbunda, página preta

Sobre o racismo e a língua, seja na sala do médico ou em qualquer escola, bueiro, TV e padaria, aqui deixo de novo frutos de estudos e da orelha, uma onda que teci faz um tempinho. Se contemplar e fortalecer de alguma maneira tá valendo. Detalhes da presença negra no pensamento e na expressão

***

Saliva quimbunda acesa há cinco séculos nas nossas orelhas e escritas. Variações no falar brasileiro com fonte africana. Tá na rua, tão na roça, está no vagão. Transgredindo e embelezando as gramáticas do português europeu por necessidade e gosto, é terra preta nos cadernos da sintática, da fonética e da morfologia que se considerada a sério não seria mote pra humilhação nas escolas, preconceito nas rádios e tiração em lugar nenhum. Seria sim asa pra voar mais e mais nossa sensibilidade. Refletirmos jeitos e porquês, fontes e motivos, brinquedos e guerrilhas do verbo que vão muito além de lista de vocabulário, além do léxico. Sem estereótipos e caricaturas, há fundamento linguístico. Sol de Ancestralidade. – Plural posto no artigo não carece repetir no substantivo. Ou, a concordância não exige flexões. Dizer “as cadeira” em vez de “as cadeiras” ( aliás, o som traz “as cadêra” também pela comum supressão quimbunda do ditongo, como no “ei” aí desta palavra). “Os pé”, “as garrafa”, “meus camarada”, “suas casa”, etc. Na fonte quimbunda, dependendo da letra que inicia uma palavra, usa-se tal ou tal prefixo antes do termo para firmar seu plural. Por exemplo, o Ma ( Lao-Malao, Riqueza-riquezas) ou o Gi ( Fuba-Gifuba, Farinha-Farinhas). – Sem término de palavras com consoantes e seguindo a tática consoante-vogal-consoante-vogal ( CV-CV), na estrutura silábica a influência africana aqui tá presente em nossa propensão a eliminar as consoantes no final e adicionar vogais entre encontros de consoantes. Ou preceder as consoantes com uma nasalidade ( “nganga”) Assim transformamos salvar em “saravar”, flor em “fulô”, dormir em “durumí”, amor em “amô”, meus amô – Pronome pessoal sem exigência de variação, não se altera por uma função sintática. “Economiza-se” assim as tantas formas de falar de si ( eu, mim, me, comigo) e pra nós é habitual dizer ” Eu pego”, “Tava Custódio mais eu”, ” Se eu tocasse eu” ou “Passa pra eu”. – Assim como nas conjugações verbais, o uso de prefixos em vez de terminações. Se no pronome já consta seu prefixo verbal, marca-se o pronome-sujeito e podem ficar faltantes as marcas de flexão da pessoa: “Nguizôla, Eu amo. ūzôla, tu amas. üzôla, elle ama. Tuzòla, nòs amamos. Muzòla, vòs amais. Azòla, eles amam.” Ou a girada e o desemboque neste indicativo do pretérito tão familiar a nós: “Eu cantei, tu cantou, ele cantou, nós cantou, vocês cantou, eles cantou” Tem muitas lógicas mais. Por aqui agora basta apenas mais uma, talvez das mais chapantes. Na estrutura das orações algo que difere o linguajar daqui do português europeu e de qualquer outro românico. Na chamada “concordância locativa” (isso memo, o papo é de lugar, de espaço, geografia) os eixos adverbiais com ideia de lugar passam ao posto de sujeito, colocando o verbo pra concordar com ele e mandando pra casa do chapéu a preposição que introduz estes eixos de advérbio. Por exemplo essas frases que volta e meia rodam nas praças, vielas e talvez até em sobradões. ” Aquela cozinha tá caindo os copos” ( e não “Naquela cozinha os copos estão caindo”); “Aquela montanha as árvore apodreceu” ( e não ” As árvores apodreceram naquela montanha) ou “Esta casa tá morando gente” ( em vez de ” Nesta casa está morando gente”). Isso tem parentela também com um nosso modo de “concordância possessiva”, como por exemplo: ” Pus roupa no tanque de molho e a camisa saiu tinta” ( em vez de “saiu tinta da camisa”) ou ” A cozinha quebrou a mesa de jantar” ( em vez de ” A mesa de jantar da cozinha quebrou”)

……

Estudo é luta. Há sabor no saber. Isso tanto aprendi lendo com mestres que estudaram as minúcias. Como Marcos Bagno, entre outros. A ele e outras linguistas, Ngunzu!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *