Retrato Narrado: o horror de Bolsonaro não o faz menos político

Retrato Narrado, dirigido por Paula Scarpin e Flora Thomsom-DeVeaux e apresentado pela jornalista Carol Pires, é o podcast da produtora Rádio Novelo que narrou em seis episódios, lançados semanalmente, um retrato do presidente Jair Bolsonaro. Se o retrato tem a representação atrelada ao estático, o retrato narrado – ou o retrato em forma de podcast – tenta apreender os traços do retratado através da observação atenta da sua trajetória em que se misturam episódios significativos e outras vivências menores, embora não menos importantes. A partir dessa observação, trata-se de erguer uma narrativa sobre alguém cuja ascensão meteórica não raro se confunde com uma estranha desinformação quanto a sua trajetória – alguém, afinal, de quem nos acostumamos a falar apenas quanto ao presente, e talvez por isso pareça mais perpétuo do que realmente o seja.

Aqui, não há o mesmo sentido de contra-narrativa de Praia dos Ossos, o outro podcast da Rádio Novelo lançado quase na mesma altura, que se trata de desconstruir uma narrativa sedimentada. Em lugar disso, Retrato Narrado almeja compreender construtivamente a trajetória de alguém não só desconstrutivista, mas de quem nos sentimos desobrigados de entender. É difícil se colocar na mesma altura de alguém como Bolsonaro e, enfim, ultrapassar a espiral grotesca de afirmação, tão publicitária quanto cínica, para interpretá-lo como alguém com cálculos políticos próprios e sofisticados. Maquiavel dizia que o governante não é simplesmente o mais forte, mas aquele que possui sabedoria no uso da força – e isso não se pode negar de Bolsonaro a não saber sob o preço de jamais se preparar para enfrentá-lo.

Mais comuns são o deboche, a virulência e o ar de superioridade moral pelos quais falamos de Jair Bolsonaro. Se é certo que essa retórica funciona muito bem no interior da “bolha progressista”, como chamou Moyses Pinheiro Neto, esse sucesso é proporcional às dificuldades de furar essa mesma bolha. A pesquisa de Carol, Paula e Flora, por sua vez, colocou-as perante isso, especialmente no quarto episódio, onde a podcaster descreveu a trollagem como veículo bolsonarista que ironiza as reprovações morais dos adversários e as transforma na própria comprovação da fraqueza desses. Da mesma maneira que o embate entre o deputado Jean Wyllys e os líderes evangélicos, descrito no mesmo episódio, atesta a recusa dos bolsonaristas ao discurso civilizatório e anti-vulgar, contra o qual se unem por meio do anti-intelectualismo radical que toma as elites culturais, e não econômicas, como as inimigas.

O próprio processo revela às pesquisadoras que o primeiro passo para falar de Jair Bolsonaro envolve desestigmatizá-lo – não para lhe fornecer uma face “humanizada”, mas para politizá-lo (ex: Bolsonaro não ajuda os filhos porque é um bom pai, mas em nome da expansão do seu projeto político, afirma Carol). É assim que ela segue a lição de Marcos Nobre, para quem “sair dessa armadilha exige tratar Bolsonaro como o que ele de fato é, como um político que age segundo a racionalidade e a lógica da política”. O tom de Carol é ameno, indagativo e distante e próximo ao mesmo tempo. Quase nunca é possível dizer se Carol respeita, ironiza ou hostiliza a trajetória do presidente, e é isso que lhe fornece a ambiguidade necessária para que narre os feitos de Bolsonaro com o desassombro de quem ultrapassa a superfície grotesca para revelar a ética particular e nada idiota que os funda.

Os episódios seguem um percurso facilmente identificável que inclui o episódio inicial onde as suas vivências particulares fundam as bases do seu projeto político; os quatros episódios seguintes que descrevem a associação dos diversos grupos ao seu projeto (militares, jovens zueiros na internet, conservadores, evangélicos, centro-direita, liberais); o sexto e último episódio em que a família Bolsonaro representa a tentativa de perpetuação do projeto de Jair. A despeito da aparência linear, a narrativa é cheia de idas e vindas; bifurcações que tão logo se tornam novos cruzamentos; as transfigurações de Jair Bolsonaro que atestam um pragmatismo difícil de rastrear (ex: só em 2007, depois de anos criticando Lamarca, Bolsonaro “inventa” que participou da caça ao guerrilheiro em Eldorado, conta Carol). Os seus raciocínios são mais pausados e os diálogos não são tão velozes como no jornalismo investigativo, além da abertura para a descrição dos próprios processos pelo qual chegou aos entrevistados ou materiais. Sem que Carol nunca exatamente perca o fio da meada – seja num palavratório aleatório, num tratamento dramático exagerado ou num mergulho na intimidade da própria autora (tal como em Democracia em Vertigem, longa de Petra Costa e roteirizado pela própria Carol) – problemas que colocariam em xeque uma certa ideia de eficiência (temporal e cognitiva) que caracteriza os podcasts e seus modos de escuta.

A verdade é que Retrato Narrado consegue tornar agradável e fluida uma discussão de viés analítico e discursivo – o que, claro, também exige que certos argumentos não fechem 100% teoricamente, sobretudo porque mais importa que o método de Retrato Narrado incentive o próprio ouvinte a preencher as lacunas. O podcast não desvenda a trajetória de Bolsonaro como se fosse um segredo ou mistério, mas destaca a todo momento a pesquisa realizada em arquivos públicos, citações de livros, áudios de vídeos antigos e entrevistas, conferindo a ideia de que é possível compreender Bolsonaro. É uma dialética difícil, afinal, o ouvinte, especialmente do podcast “narrativo”, quer ser levado pela narrativa sem que o tempo inteiro seja lembrado do caráter fragmentário da pesquisa, ao mesmo tempo que um mergulho direto privaria as narrativas da propedêutica que sugere ao ouvinte, também ele, pesquisar. Não à toa, se os podcasts estarão transformados daqui para frente, é porque Carol e a equipe da Rádio Novelo provaram duas coisas: tanto a capacidade do podcast atuar como instrumento analítico, quanto a capacidade imaginativa do ouvinte.

Nascido em Recife, mudou-se para São Paulo onde cursou filosofia na FFLCH/USP e integrou o Coletivo Zagaia. Mantém página pessoal sobre política e escreve crítica de cinema na Cinética. Atualmente mora no Rio de Janeiro. Mais coisas em meu site.

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