Rolezinho

Que tal um rolezinho?

Roda viva da história,

A morte prevalece.

Se não te disparam,

Se não segue pra cadeia,

Se não te retiram o futuro:

Não há casa, não  há vida.

Há cárcere!

Rolezinho restrito

no banho de sol.

 

Memórias do Cárcere, há muitas,

Destino de muitos rolezinhos da história,

Coluna Prestes, Arrastões, Lampiões

Bandidagem pura que circula

Inimigo público em lugar privado.

Vícios privados em virtuosidade pública!

 

Ra-tá-tá-tá!

Tiros que ensurdecem o tempo

 

Uma negra dá seu rolezinho,

e senta em lugar proibido.

Lugar de negro é no fundo do busão!

A história muda com um rolé!

 

Dois negros jovens -

Destes que deveriam estar ou

no trabalho ou  numa cela,

ou quietos no barraco deles -

sentam-se num café,

proibido para gente de sua cor

e animais de estimação.

Recusados pelo serviço da casa -

“Nem toda razão é o cliente”…-

Sobem à mesa e discursam

Poesias e vomitam Constituição.

Black is beautiful!

A história muda com um rolé!

 

 

Enquanto isso,

de tempos em tempos,

Os sertões dos tenentes,

Os cafés dos poetas,

O busão da negra

seguem seus destinos

que se repete em nós:

Contestar é prisão,

Revoltar é assassínio,

Viver é perigoso.

Circular é proibido.

 

Mesmo assim…

Pergunta subversiva

de tão ingênua:

Que tal um rolezinho?

 

Silvio Carneiro é formado em filosofia pela USP, membro do coletivo Zagaia e do Cordão da Mentira.