“Quando a gente é preso, é preso para sempre”

Talvez eu seja mesmo mais incrédulo do que eu me enxergo ser. Seria a suspeita de tudo um tipo de superstição? Tento enxergar nas coisas rastros fantasmagóricos de suas operações violentas, de suas furtivas inserções. Que mistério, afinal, escondia a música Súplica¹ para Caetano? “Mau agouro”, apenas?. Algumas coisas que acontecem parecem mesmo pistas de algo maior, subjacente. Fiquei com essa sensação quando cheguei ao fim de Narciso em Férias (Renato Terra e Ricardo Calil, 2020). Um filme que aparentemente não floreia a que veio, mas que esconde um tipo de autoridade discursiva tão escrota, para mim, quanto o próprio processo à que Caetano nos narra ter sido submetido pelos militares.

Assisti o filme na plataforma online da Globo. E o tempo todo não consegui me desvencilhar da impressão de estar vendo uma grande entrevista do Fantástico. Aquelas que cobrem por vários minutos um único assunto, de um único ponto de vista, com imagens de arquivo ilustrativas em alguns momentos. Afinal, não seria esse também o mesmo procedimento de um interrogatório? A analogia aqui é possível e, ademais, estaria claro onde estamos sentados como espectadores: ao lado do major, do poder, daquele que faz as perguntas. Um local confortável.

Estranho é imaginar como contar sobre momentos tão delicados quanto aqueles com uma equipe de gravação assistindo, num espaço claro, cadeira de madeira de encosto reto, sem nenhum acolhimento. Caetano a todo momento assume uma posição corporal trancada, ressabiado algumas vezes. Talvez tentando não deixar escapar de mais aos seus interrogadores. Ou quem sabe intimidado pelo microfone shotgun que invade o quadro e as câmeras que observam e dão zoom em qualquer expressão que ameace transbordar de seu rosto, analisando-o de todos os ângulos. Apesar desses “detalhes”, o interrogatório se anuncia nas intervenções dos diretores. Estes parecem saber da trajetória de Caetano mais do que ele (exemplo: Caetano esquece algo no meio de sua fala. Ele diz: “aí fomos levados pra….”, “pra Barão de Mesquita”, responde uma voz sem corpo). Os entrevistadores constantemente afirmam, e quando não, suas perguntas parecem esconder afirmações (“então essa foi a primeira vez que você soube porquê foi preso?”). Em alguns momentos parece inclusive que eles estavam lá, naquele momento da história (“Caetano, o Major Hilton se surpreendeu com a veemência do que você disse. O que aconteceu depois?”).

Imagem de divulgação do filme Narciso em Férias (Renato Terra e Ricardo Calil, 2020)

Qualquer entrevista possui discrepância de poder entre as partes. Em filmes recentes como Banquete Coutinho (Josafá Veloso, 2019), Eduardo Coutinho discorre um pouco sobre o tema. Também não são poucos autores que relacionam a câmera com uma arma. Pode ser que a diferença esteja na denúncia do poder. Afinal, Eduardo não escondia o “atrás das câmeras” (Cabra Marcado para Morrer, 1984), e trouxe justamente a questão do discurso/discursante em Jogo de Cena. Numa mostra dedicada ao telejornalismo dissonante dos padrões hegemônicos, exibido na 15ª CineOP, relembramos um dos trabalhos do diretor no Globo Repórter: Theodorico, o imperador do sertão (1978) com seu latifundiário/deputado/mini-ditador tema do episódio a frente do programa. No site da própria emissora é deixado explícito que Coutinho tinha se incomodado com o coronelismo do “patrão”, e que, depois dele interromper as falas de seus trabalhadores diversas vezes durante as entrevistas, Eduardo teria decidido “dar a ele o posto de entrevistador” como forma de destacar o autoritarismo do homem através do próprio fazer fílmico.

Imagem do filme Theodorico, o imperador do sertão (Eduardo Coutinho, 1978)



Enquanto para Coutinho o ato de dar “o posto de entrevistador” já é o suficiente para explicitar as contradições, tensões de classe e relações de poder (além da própria escrotisse de Theodorico), em Narciso em Férias o autoritarismo fica velado. Transparecendo apenas nos gestos de Caetano tentando deixar o ocorrido o mais claro possível. Ou quando ele ilustra uma parte de sua história tocando Hey Jude logo depois de explicar o que a música significou para ele. Não é forçada a analogia com o interrogador demandando que ele dissesse se era possível cantar o hino nacional na Tropicália (para explanar o caso pelo qual o compositor foi preso). Aqui, Jean-Louis Comolli (Sob o Risco do Real)², é certeiro para nossa comparação:

“[o cinema] converge para o jornalismo, para o mundo dos acontecimentos, dos fatos, das relações, elaborando a partir deles ou com eles as narrativas filmadas; e se separa do jornalismo na medida em que não dissimula estas narrativas, não as nega, mas, ao contrário, afirma seu gesto, que é o de reescrever os acontecimentos, as situações, os fatos, as relações em forma de narrativas, consequentemente, de reescrever o mundo, mas do ponto de vista de um sujeito, escrita aqui e agora, narrativa precária e fragmentária, narrativa declarada e que faz dessa confissão seu próprio princípio.” 

Pessoalmente o trecho que mais me incomoda é quando Caetano claramente se emociona ao falar do guarda baiano que foi “uma divindade” durante seu tempo preso. Enquanto o entrevistado continua com suas perguntas, tentando dar andamento para a história, o cantor se detém no momento anterior, e quando ele não consegue controlar as lágrimas pede para pararem de gravar. A câmera, que deu um zoom em seus olhos, se demora lá. Todos em silêncio. E os segundos que se seguem do pedido de Caetano até o corte são uma violação de sua Súplica. Cada segundo uma eternidade. Como uma semana que parece se tornar uma vida. 

Claro que o caso do “segundo interrogatório” de Caetano é diferente daquele que aconteceu durante a ditadura. Em Narciso em Férias, sua participação é voluntária e ele não se incomoda de receber os dividendos da exploração (submissão?) da sua imagem. Já muitos dos personagens de Coutinho não davam a mínima para a imagem deles³. Encerro suspeitando que talvez seja verdade o que disseram uma vez para Caetano: “Quando a gente é preso, é preso para sempre”.

¹ Súplica é música de Deo, Marcilio José e Otavio Gabus Mendes interpretada pelo Orlando Silva e, para Caetano, se tornou símbolo do azar por vir dentro do cárcere.

²  COMOLLI, Jean-Louis. “Sob o risco do real”. In: Catálogo do Forumdoc.bh.2001 (V Festival do filme documentário e etnográfico/Fórum de Antropologia, Cinema e Vídeo). Belo Horizonte, 2001, p. 162. 

³ Não é o caso do cantor. Veloso entende como capitalizar a partir de si. Como ja me disse uma vez Josafá Veloso: “Amo Caetano, mas não esperemos nada dele na Guerra do Mercado de Imagens.”

+ posts

Montador, ansioso e graduando em Imagem e Som pelo DAC-UFSCar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *