Quando rio e rocha conversam

No cinema de Paula Gaitán, É Rocha e rio, Negro Leo (2019) entra imediatamente em relação com alguns de seus trabalhos anteriores, como Diário de Sintra (2007) e Sutis Interferências (2016). Os vestígios da cumplicidade familiar são a matéria de construção em Sintra, e a presença da câmera em Interferências é testemunha e co-criadora do acontecimento musical, do improviso e do encontro entre corpos e seus instrumentos. O que Gaitán elabora nesse filme sobre e com Negro Leo também é da ordem de uma negociação constante de intimidade e criação, sobretudo através da construção imersiva de uma sintonia de conversa e experimento. 

Nos primeiros minutos, entramos no ambiente doméstico subindo os corredores do prédio e entrando no apartamento, de portas abertas, ao som de Tim Maia, quem sempre faz pensar na celebração dos encontros, no prazer de estar junto. Todo esse primeiro movimento ainda abarca a presença de Ava Rocha, filha de Paula, companheira de Leo, que em dado momento deixa a mise-en-scène. Aqui, os planos de longa duração já começam a se manifestar como elemento constitutivo, e a obra começa a se metamorfosear em um dispositivo de entrevista no seio do filme caseiro, inaugurando um dos muitos gestos de Gaitán que intencionalmente transformam a experiência do filme em algo que constantemente se reinventa a partir de interferências sutis. 

Imagem do filme É Rocha e rio, Negro Leo, de Paula Gaitán, 2020

Os poucos cortes que lapidam o ritmo das sequências operam no sentido de preservar longas espessuras temporais. Na devoção à duração das falas e gestos de Leo se inscreve uma presença de câmera que reage ao personagem, conjugando o corpo com a casa, com os cômodos. A inquietação que suscita esses movimentos intermitentes faz parte do pensamento em elaboração de Gaitán, e por vezes as imagens sofrem uma intromissão brusca de reposicionamento que integra o ato criativo.  

A presença de Leo, na sua gestualidade rápida e efusiva, contamina os planos. Sua fala nutre e excede os limites do quadro, como as águas de um rio que fecundam o solo que é caminho para seu fluxo. A reciprocidade performática entre câmera e corpo faz do filme um registro em que linguagens diferentes coexistem e interferem uma na outra. Na medida em que Leo corta frenético de imagem a imagem invocada na sua fala, Gaitán permanece colada ao personagem, nunca recorrendo a qualquer estratégia ilustrativa. O barato é pegar as ondas de Leo, a cadência das coisas que são ditas, as conexões que o artista elabora entre eventos pessoais, música e história social – uma montagem dentro de uma montagem. Vai se materializando nessa mise-en-scène a situação para um relato pessoal atravessado por disputas políticas, sociais e narrativas do Brasil e do mundo, que é o que se encontra para além do apartamento e desse encontro. 

Imagem do filme É Rocha e rio, Negro Leo, de Paula Gaitán, 2020

Em dado momento, Paula pede que Leo olhe diretamente para o centro do quadro, para nós. Esse olhar que quer trocar diretamente com o espectador suscita uma hipnose cinematográfica da lucidez. Por vezes interpelando, endereçando diretamente a intelligentsia cultural burguesa, “vocês”, “eles”; trata-se de uma transfiguração do remetente também. Como espectadores estamos transitando entre lugares, aprendendo e reelaborando com Leo/Gaitán os valores de uma escuta que, embora evidentemente marcada pela cumplicidade, engatilha a reflexão crítica pela sua própria constante reelaboração. São construídas múltiplas formas de ouvir e ver a voracidade das elaborações do personagem e de sua dialética vertiginosa. 

A diretora também nos coloca apropriadamente em contato com duas sessões de composição de Leo. Seu corpo é um meio para a proliferação do jazz, do rap, do tambor. A manifestação explosiva da expressão nesses momentos alça a comunicação de É Rocha e rio a um de seus mais belos exercícios, quando o verbo parece insuficiente para a alta densidade histórica do improviso. A performance ultrapassa os códigos, a gramática de uma linguagem musical normativa e faz surgir toda uma constelação de ruídos e ritmos singulares. 

Imagem do filme É Rocha e rio, Negro Leo, de Paula Gaitán, 2020

O transe que se insinua ao longo da obra faz pensar num tipo distinto de pregação, de voo de pensamento e corpo. A preocupação de Leo com o advento das grandes franquias neopentecostais, com a captura das possibilidades de invenção da fé, parece estar indissociável da fé que o filme de Gaitán tem na invenção do cinema. E se é preciso defender e imaginar discursivamente um outro Brasil e outra espiritualidade, isso deve contagiar a própria condição de feitura desse filme caseiro, que é uma entrevista, e que é também sessão de improviso musical e cinematográfico. Há o duplo desejo de elaboração crítica e imersão criativa que está no cerne da experiência do filme. 

 É Rocha e rio aposta nas intensidades que emanam da expressividade de Leo como fonte da singularidade desse encontro. A grandeza do personagem e da câmera estão em não se adequarem à formas prescritas de afetação mútua. As invenções se distribuem proliferando de cena em cena, desestabilizando o dispositivo da entrevista, propondo temporalidades onde as redes de sentido invocadas operam disruptivamente, especulando outros mundos possíveis. 

Por fim, podemos pensar na invenção como um gesto análogo à um salto. Trata-se de um movimento de especulação, elaboração e fé. O que torna É Rocha e rio um registro tão valioso é a colocação em cena dos mais variados deslocamentos do pensamento, da articulação de eventos do passado e presente sob modulações que fogem da consensualidade que intoxica a capacidade da imaginação de agir sobre o mundo. Leo e Paula ativam questões de primeira ordem constantemente realizando os saltos da criação para confeccionarem suas redes. O cinema aqui profetiza a radicalidade da fabulação de novos mundos. Esse que começa como um filme caseiro, e que em certo sentido nunca deixa de o ser, faz pensar para muito além das paredes do apartamento. 

 

 

 

 

 

Agradecimentos à Murilo Morais e João Paulo Campos pelas contribuições para a escrita do texto.

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