QUANDO CHEGA O FASCISMO. Apontamentos a partir da prisão do ator Caio Martinez Pacheco e da interdição da peça Blitz da Trupe Olho da Rua

Esta semana um espetáculo foi interrompido pela polícia e um de seus protagonistas preso em Santos. A peça “Blitz – O império que nunca dorme” da Trupe Olho da Rua faz uma bem humorada crítica à polícia militar. A Trupe é um dos mais importantes grupos contemporâneos de teatro de São Paulo e tem se destacado pelas suas diversas intervenções contra a violência policial e pela democratização da cultura e dos espaços públicos em Santos. Algo corriqueiro na ditadura, a peça foi interditada. Os equipamentos do grupo recolhidos e um de seus integrantes, Caio Martinez Pacheco, preso.

Prenúncio e concretização de um novo momento político brasileiro, este acontecimento precisa ser encarado com a dimensão que acarreta. Se não houver reação, a partir de agora estaremos todos sujeitos à censura policial. Não que ela não existisse. Em Santos mesmo, DJs do funk foram assassinados corriqueiramente nos últimos anos por suas músicas de enfrentamento e por suas denúncias contra a polícia. O que chama a atenção neste novo gesto é que ele é feito às claras, num momento em que a corporação se sente legitimada pelas forças conservadoras que tomaram conta do país.

Há alguns anos muitos intelectuais, militantes e artistas vem apontando a ascensão do conservadorismo no Brasil. Isso foi tema corrente de discussões, análises, filmes e peças. Foi dentro deste contexto que nós da Zagaia produzimos por exemplo o filme “Jovens Infelizes”. Apontávamos para um futuro que cedo ou tarde chegaria dada nossa incapacidade enquanto esquerda de construir um projeto alternativo e atingir os corações e mentes da maioria da população brasileira.

Pois bem, o futuro chegou. Com o golpe agora somos oficialmente uma oligarquia. O discurso progressista parece não ter mais eco. Estudantes são torturados sob ordem judicial, invasões a domicílio sem mandato são legitimadas pelo STF, movimentos sociais são monitorados pelo exército, manifestações públicas são violentamente reprimidas, a tortura e as chacinas são publicamente defendidas e a população negra e indígena segue sendo massacrada pelo Estado Brasileiro. Direitos são solapados e a cada dia descobrimos um novo ataque da direita. A educação e a cultura são ameaçadas não só pelo corte de verbas, mas pela censura ideológica.

O novo poder paga seus dividendos para o capital nacional e internacional enquanto os grandes meios de comunicação mentem e asfixiam as críticas. O Partido dos Trabalhadores, outrora o maior partido de esquerda da América Latina, busca salvar-se do mar de lama que ele mesmo alimentou ao abraçar a mesma oligarquia que agora o persegue e chafurdar na mesma corrupção que outrora denunciava. Atônito, já não consegue escapar da ideologia marqueteira do qual outrora se beneficiou. Mergulhado nas próprias ilusões que criou sob si próprio busca regressar no tempo qual uma miragem. Não o tempo mítico da resistência, mas o tempo pragmático do poder. Ao afogar-se no lodo, o PT leva grande parte da esquerda junto, mesmo aqueles que estiveram todo este tempo na oposição, denunciando concessões injustificáveis, como a lei Anti-Terror. A derrota simbólica atinge a esquerda como um todo e a desmoraliza. E quem paga o preço mais alto mais uma vez são os deserdados da terra.

A nova velha oligarquia ao dar o seu golpe mais audacioso fia-se no aparelho repressivo do Estado. A Polícia Militar, versão tupiniquim das SS, faz todo o trabalho execrável para evitar que os donos do poder não sujem diretamente as mãos. Mata, prende e arrebenta em sua guerra contra o inimigo interno: nós. Todos os que se opõem ao Estado Oligarca. Para a nossa SS é dada carta branca: a interrupção do espetáculo e a prisão arbitrária de um ator por “ofender símbolo pátrio” é só o anúncio do que está por vir.

O fascismo chegou e entrou na casa sem bater na porta. Tomou nosso lugar, nossas coisas, nossa vida. Nós o observamos atônitos a apagar os vestígios de nossos sonhos. O fascismo apaga nossos rastros, nossa memória. Ri de nosso silêncio como uma hiena e um inseto, estraçalha nossas antigas esperanças. A voz da Trupe Olho da Rua é também a nossa voz. Sua luta é nossa luta. Se eles forem calados, todos nós o seremos.

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