Práxis e dialética da resistência

Pensar a resistência que nos cabe atualmente é, inevitavelmente, pensar nossa capacidade de ação. Resistir é, acima de tudo, agir. E nossa ação nunca é óbvia o suficiente para que não seja motivo de reflexão. Existem diferentes modalidades de resistência, como por exemplo, resistir enquanto suportar, enquanto resiliência, ou, resistir enquanto defesa, como reação à um ataque. Há também a resistência enquanto negação, como recusa. Em certa medida, todas essas formas tem uma estreita ligação entre si, e todas elas nos são bastante familiares. Entretanto, gostaria de propor que pensemos uma outra maneira de resistência, que não exclui nenhuma das anteriores, mas as complementam de forma a torná-las mais efetivas: resistência enquanto práxis dialética. Com isso, denomina-se uma maneira de resistência que não se reduz a negatividade, mas que traz em sua negação uma atuação positiva por parte dos sujeitos implicados: os sujeitos políticos da resistência não podem, se quiserem transformar sua realidade político-concreta, contentar-se em meramente suportar ou defenderem-se por meio da negação, mas necessitam apreender a dimensão transformativa da positividade que é capaz de instaurar o novo. Existe na positividade a dimensão de uma negação da negação que se caracteriza por uma capacidade afirmativa irredutível. Práxis enquanto resistência, portanto, é essa positividade que é capaz de fundar por cima do que se nega. Ela própria é uma práxis política na medida em que é uma teoria prática. Ou seja, não é uma prática que se conduz pelo ditar teórico, mas é a própria teoria que é prática, isto é, erige-se de dentro da prática política cotidiana: a compreensão se desdobra em ação e, assim, o agir se faz compreender. Resistência e ação, política e revolução. São esses os nomes que se manifestam sobre dois polos complementares: o sujeito e a história. O agir da resistência político- revolucionária nos remete sempre à um sujeito que age. Mas tal sujeito age efetivamente somente na medida em que consegue visualizar o terreno histórico em que se movimenta. Por isso toda revolução traz em si uma dualidade absoluta: a forte e incontornável relação que existe entre existência e história. Os dois polos se retroalimentam em um movimento de tensão perpétua, pois a história nada seria sem o sujeito singular, e o sujeito, por sua vez, não seria um sujeito caso não se desenvolvesse no horizonte indefino e universal da história que o constitui. Desse modo, a dualidade que se apresenta no interior de uma revolução tem sempre um traço trágico. Na medida em que a existência busca alcançar a história por meio da ação, desvela-se, nesse movimento, um comprometimento que tem sua grandeza rivalizada com a inutilidade: o sujeito para se realizar na revolução da história, deve, antes, se perder para que consiga novamente encontrar-se, sem que nada o garanta que ao lançar-se nesse movimento de despossessão, que conseguirá obter a transformação pretendida. Assim, a práxis revolucionária é sempre uma saída de si, que já não busca mais somente seus próprios interesses, mas que se lança em um movimento de transformação que jamais se completa na realização da mudança pretendida. Posto que uma práxis dessa natureza está sempre em tensão, ela só obtém alguma transformação na medida em que é capaz de instituir, de fundar por meio de sua ação, que sempre é gratuita, pois seu engajamento tem origem na interioridade do sujeito, onde o que há é uma absoluta gratuidade em agir: sua positividade é sempre re-posta enquanto um fundamento que nunca é estável o suficiente para se fixar permanentemente; como existe por tensão, sua atuação é constante e, por isso mesmo, sua perda é sempre um reencontro com o mesmo que se diferencia na medida em que age na realidade histórico-política.
A política, e não menos a revolução, só adquirem significado na medida em que pairam sobre esses dois polos: o subjetivo e o histórico. Devido a isso, a atuação de uma práxis eficaz precisa sempre de compreender a ambos em suas potencialidades inerentes. Lá onde o sujeito se determina é o mesmo lugar onde ele se ultrapassa para fazer a história por meio de sua ação, e no local onde a história é imperativo determinante das vidas subjetivas, só o é no instante em que a pluralidade de ações a constitui. Resistimos, pois, no centro de uma dialética: nos perdemos para fazer a história para que então a história nos refaça. Seria esse o segredo da experiência que a práxis revolucionária proporciona a cada um que a vive, e desse segredo retiramos a potência capaz de ameaçar a perpetuação do capitalismo. Se o capitalismo enquanto sistema econômico só se realiza na medida em que a própria política o permite, desde sempre para que ele se perpetue é a política que precisa ser negada. A política carrega em seu seio a contingência da ação, e por isso onde ela existe e vigora, sempre paira a possibilidade, e não necessariamente a iminência, de uma revolução. É comum descrever o capitalismo como o reino das liberdades individuais, mas seu problema, e não menos sua fragilidade, é limitar-se a isso, uma vez que se tais liberdades se desenvolverem para a ação do sujeito singular que encarna o universal, ultrapassando a si mesmo para transformar o curso da história, o capitalismo é posto em cheque: ele só admite sujeitos fechados em si próprios, que não transbordam para além de si mesmos e, por isso, não reconhecem sua capacidade implicativa na História. De todos os grandes feitos de Marx, talvez o reconhecimento da potência transformativa que reside no interior de cada sujeito seja um dos maiores: não basta interpretar o mundo, é preciso transformá-lo, nunca quis dizer que devemos abdicar do pensamento teórico para agirmos compulsivamente. A décima primeira tese sobre Feuerbach sempre foi um aceno para a força da compreensão somada a ação. O pensamento que se dirige ao mundo, deve incidir sobre a ação que transforma a história. Tão ineficaz quanto a teoria anódina e a prática irrefletida. Não é de se espantar que o impasse em que nos encontramos hoje coincida exatamente com a falência da política: o espaço público encontra-se laminado sob as pressões do terror econômico e as lamentações de um moralismo abstrato, de modo a assistirmos calados o depauperamento da política e seus atributos (a estratégia e a ação conjunta). Essa dissolução [da política] acontece não pelo seu desaparecimento, e sim no seu revestimento estético, ou seja, a estetização da política que se expressa através da exaltação das proximidades, das microesferas, do acumulo ornamental e a busca de um simulacro de autenticidade. No fundo tudo isso só faz transparecer uma certa desorientação contemporânea diante da incerteza da ação política. Cada vez mais caminhamos para uma diversidade sem diferença, uma massa de singularidades indiferentes que ressaltam pequenas diferenças para que possam deixar de pertencerem como cidadãos ou membros de uma classe social e melhor aderirem às suas próprias demandas identitárias. Contra isso deveríamos mais do que nunca reafirmar a relevância da contingência estratégica, a arte da decisão no momento propício, e as potencialidades da unidade do agir coletivo. Mas como a relação implicativa entre os sujeitos e a história é sempre mais complexa do que qualquer texto pode pretender revelar, as forças reais capazes de transformarem o macro social e político jamais se encontram nesse ou naquele texto ou teoria. A construção de uma política revolucionária passa sempre pelo defronte que apenas a situabilidade do contexto social somada a capacidade organizativa de seus atores podem oferecer. Isso porque toda práxis revolucionária traz em si o elemento do contato, da dialética da vida real, da possibilidade de união de singularidades em uma universalidade comum, isto é, a ação conjunta com vistas as fins que nunca são um fim em si mesmo, mas sempre rumos de um agir que ultrapassa cada uma das partes envolvidas para se realizar na soma das forças integrantes. Isso o capitalismo e seus aparatos de ordem não suportam, pois a eles interessam a dispersão, o fragmentário, a multiplicidade sem coesão, o fechamento de cada um em si próprio para o cumprimento de suas demandas individuais – algo que se expressa muito bem no famigerado “direito de ir e vir” frente a toda manifestação política que interrompe a normalidade cotidiana. Por isso que seu sucesso atual, mesmo diante de uma de suas maiores crises, deriva em grande medida de seu forte apelo de investimento libidinal e existenciário na realização do si, do self empreendedor, no abandono da história enquanto construção constantemente clivada pelas ações políticas, para o refugo nas proximidades, na procura dos pares concordantes, na elaboração de micro ações voltadas para si mesmas e seus contornos.
É característico do tempo em que vivemos concebermos certas possibilidades autênticas e necessárias sem sabermos o que pertence à sua realização. Não sabemos mais nos doarmos e isso significa que desaprendemos que toda geração que quer algo precisa atravessar a experiência na qual ela se “sacrifica” pela geração seguinte, sem resignação, mas muito mais com a força e vontade de quem compreendeu que em todas as realizações autenticamente humanas cada um não pode ser “senão” precursor para algum outro. Sendo assim, resistir tem, inevitavelmente, algo dessa potência que reside no interior de cada singularidade que se dispõem a fazer a experiência concreta da universalidade histórica: sujeitos políticos que não se contentam com si próprios e agem com vistas a uma despossessão que transforma o real da história sócio-política. Mas nada disso seria eficaz se não fosse feito correlatamente ao diagnóstico que a teoria fornece e os desdobramentos afirmativos que a prática realiza. Resistência enquanto práxis é, portanto, muito mais que meramente um agir desorientado ou um esforço teórico contemplativo, ela é, antes, uma atitude, uma maneira de implicar-se que vai de si à história e retorna, sem que esse movimento jamais cesse, pois a estabilidade não é sua meta, mas sim a transformação efetiva. O que importa não é falar, mas atuar. O que tentamos compreender aqui é justamente o modo como isso se dá.

Pedro Mauad (mauadpedro@hotmail.com)

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