Pó, poeira, ventania

Agradeço muito a Flora Camargo, com quem construí conjuntamente a análise da trilha musical presente neste texto

Angela (2019) nos dá a mão e nos leva para ver o sol que chega depois da chuva, quando os pingos ainda estão a brilhar. Dirigido por Marília Nogueira, é o terceiro curta-metragem de uma trilogia de histórias no interior de Minas. Neste filme, conhecemos Angela (Teuda Bara), uma senhora que coleciona diagnósticos de doenças que nunca teve. Por morar sozinha, ela consegue esconder esse segredo, até que a chegada de uma vizinha que abala seus hábitos.

Imagem do filme Angela (Marília Nogueira, 2019)

O encontro entre as personagens acontece, pela primeira vez, quando Sueli (Gláucia Vandeveld) vai até a casa de Angela para pegar manjericão e alecrim. Com pouca intimidade, a vizinha tenta puxar assunto, mas Angela não desenvolve a conversa, nem a convida para entrar. Ainda assim, Sueli volta no dia seguinte, trazendo um tênis e a convidando para caminhar.

Com jeitinho, Sueli vai aos poucos se aproximando de Angela, movimento acompanhado pelo desenvolvimento da trilha sonora. Esta traz, no início do filme, instrumentos (piano, violoncelo e clarinete) que apenas tocam de maneira fragmentada e sem se comunicar através do som. Isso começa a mudar com a proposta de caminharem juntas, gesto que colabora para estreitar os laços entre as personagens. A partir desta cena, à medida em que a amizade se estabelece, uma melodia vai se formando, enquanto mais notas passam a ser tocadas, até que os sons começam a se relacionar entre si, tornando-se uma música só. Esse processo atinge seu auge, ou seja, os instrumentos chegam ao ponto máximo de diálogo, na cena final, momento de maior intimidade entre as personagens. Assim, a trilha indica que só é possível criar relações (seja na música, seja em um relacionamento) com abertura e diálogo entre os pares.

Imagem do filme Angela (Marília Nogueira, 2019)

Há um contraste muito grande entre Angela e as demais personagens do filme. Até começar a se aproximar de Sueli, a protagonista aparece sempre em planos sozinha. Isso acontece mesmo quando dialoga com outras personagens, como no consultório, em que ela e a médica são fotografadas separadamente em plano e contraplano. Diferentemente, as outras três vizinhas que aparecem na obra estão sempre enquadradas juntas. Sueli, por sua vez, é a ponte entre esses dois núcleos. Ela é filmada sozinha andando pela cidade, mas também no plano das senhoras sentadas na calçada. Sua movimentação (em oposição ao imobilismo das demais) e a ambivalência da forma como é enquadrada a permitem tanto se relacionar com as vizinhas conversadeiras, quanto perceber o isolamento de Angela, e agir de modo a unir esses dois núcleos no final da obra.

Imagem do filme Angela (Marília Nogueira, 2019)

O relacionamento entre Angela e Sueli é o que desencadeia uma série de mudanças no cotidiano da protagonista. Sueli a incentiva a sair da casa escura para caminhar, para ir ao jardim, ou ainda para passar a tarde com as outras vizinhas. A amizade é responsável também por fazer Angela trocar os livros de medicina (leitura que ocupava seus dias e a ajudava a conseguir receitas de remédios) por um manual de plantas. Logo após Sueli elogiar seu chá de ervas e demonstrar interesse por seu jardim, Angela revira uma gaveta cheia de pedidos médicos e cartelas com comprimidos, até encontrar o “Atlas da Botânica”. Assim, a protagonista vai aos poucos abandonando a solidão, o confinamento doméstico e a necessidade de medicalização e se aproximando de meios mais naturais de curar suas dores: as plantas, as amizades, o ar livre.

 

Imagem do filme Angela (Marília Nogueira, 2019)

Percebemos, no final, que o verdadeiro mal de Angela era a solidão. As doenças inventadas, mais do que matéria para sua hipocondria, eram uma desculpa para idas constantes aos médicos, únicas pessoas com quem ela tinha contato no início do filme. Os olhares dos profissionais participavam recorrentemente da construção de sua subjetividade e do reconhecimento de sua existência no mundo. Para fomentar tal dinâmica, a personagem oculta seu real estado de saúde sadio. Contudo, o mapa construído na parede com receitas de remédios e estudos clínicos por ela realizados parece muito mais querer mostrar-se do que esconder-se, quase como se Angela estivesse esperando por um olhar um pouco mais atento que pudesse desmontar seu vício hipocondríaco. Nesse contexto, a descoberta de Sueli das verdades ensaiadas de Angela, ao invés de condenação, aparece como libertação e acolhimento.

A estrada de ferro, a rodovia e as ruas pacatas da cidade do interior. Enquanto Angela está parada em casa, Sueli passa por todos esses espaços e, aos poucos, mostra à amiga novos caminhos pelos quais se encontrar a vida, que não aqueles aos quais ela estava acostumada. Como uma ventania, Sueli retira a poeira daquela existência, leva as nuvens embora e convida Angela para dançar no pó da estrada e deixar seu coração bater sem medo.

Estudante de Audiovisual na ECA-USP, desenvolve pesquisa sobre diretoras brasileiras na ditadura civil-militar. É organizadora do cineclube Cine Sapatão. É crítica e editora da Zagaia em Revista.

Um comentário em “Pó, poeira, ventania

  1. Muito bom ler o texto de vocês. A importância da trilha sonora na construção de Ângela é mesmo genial . É um filme sobre sororidade que deixa a gente querendo mais em mais filmes dirigidos e protagonizados por mulheres.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *