Paula Gaitán e a revolução dos sentidos

Este texto faz parte da cobertura da 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes

Fotógrafa, artista plástica, cineasta Paula Gaitán. Uma palavra porém bastaria para dizer quem é a homenageada da Mostra Tiradentes deste ano: Paula Gaitán é poeta. Imensamente recompensador poder ver em conjunto, em curtíssimo espaço de tempo, uma parte significativa de sua obra mais recente, entre longas e curtas experimentais pouco cobertos pela fortuna crítica brasileira. Tento aqui ver seus filmes em conjunto, buscando de maneira bem sintética atar nós entre eles. O poema afinal é sempre o mesmo. Em crítica de cinema de 1941, intitulada “Do ritmo e da poesia”, Vinícius de Moraes assim resume duas teorias de roteiro: a do “ritmo” e a da “continuidade”. “A primeira se aproxima, por assim dizer, da poesia, do valor lírico da imagem. A segunda, por seu lado, tem no romance, na duração literária do romance, um melhor ponto de comparação”[1]. Os roteiros (de montagem) de Paula fazem parte do primeiro tipo. Seus filmes são poéticos não porque recitam belas palavras, ou possuem lindos planos. Destaco aqui a cineasta como poeta no exímio domínio em arquitetar temporalidades entre a memória, a fabulação e o mito. Tal domínio, foi possível perceber, se amadureceu a olhos vistos, alcançando, como veremos, seu apogeu em Luz nos Trópicos. A viagem proposta a nós por sua rítmica sensual e misteriosa (mas nunca hermética) é a mesma jornada que teve que fazer Orfeu: ir até o fim do mundo. Em Diário de Sintra e Exilados do Vulcão vai-se até o fim do mundo por amor. Dois filmes que transbordam uma força feminina e formam juntos claramente um díptico, seguindo talvez o eco das badaladas dolentes do canto de luto de Marguerite Duras em Hiroshima mon amour. De olhos fechados, Emmanuelle Riva diz para si mesma como em oração: “Tu deviendras une chanson”. “Você se tornará uma canção”. Diário e Exilados, canções de luto e de amor além da morte. “Morrer… morrer de amor terrestre”, diz Paula rememorando Glauber. Para a poeta não transformaremos uma estátua de sal se virarmos os olhos para Hades e o mundo dos mortos. Se em ambos os filmes há uma recorrência de blacks, chuva, vento, em trabalho de sound design não só criativo, mas pertinentemente evocativo do metafísico, há também neles a luz graciosa do sol que acalanta o destino inexorável dos amantes. Na trilha sonora afetiva de Exilados, “Chanson D’Hélène”, famosa na voz  de Romy Schneider, se não me engano a mais linda canção de amor que já existiu – assegure um lenço antes de ouvir. Nos filmes Noite e Ópera dos Cachorros, mergulha-se na noite paulistana e na experimentação sonora, respectivamente. Entramos no transe, potência delirante e catártica de corpos e sons que se querem livres, assim como no clipe Mulher do Fim do Mundo, dirigido por Paula em 2017. Em todos os projetos seu método parece ser o da aventura, seu norte em síntese é sua coragem de experimentar. A autora, porém, não o faz sozinha, mas cercada de performers e graças a Deus com ojeriza à psicologismos, que migram de filme a filme, com destaque para Clara Choveaux presente em Exilados, Noite e Luz nos Trópicos. Lembro de um depoimento de Zé Celso em filme de Tadeu Jungle e Elaine César[2] em que ele conta como a catarse é muito mal compreendida, porque, diz ele, “quando você está em catarse você é deus, você é demônio, você é tudo”. Clara Choveaux é tudo. Após décadas de uma história da arte e do cinema pautada pelos olhos masculinos sobre o corpo feminino, ver o corpo nu de Clara filmado com a delicadeza de Paula é colírio para os sentidos. Nos filmes de Paula Gaitán estamos frente a frente com a eternidade. Do plano final de O Sacrifício do Tarkovsky, em que câmera sobe a partir do olhar do menino deitado sobre o pé de árvore plantada pelo seu avô, poeticamente, é a mesma árvore que vemos no início de Diário de Sintra. Glauber diz em um momento do filme que algumas pessoas pensam conscientemente, outras inconscientemente. “O inconsciente é tão abstrato como Deus”. Faço aqui uma comparação muito pontual com a montagem em fluxo de Terrence Malick, de Árvore da Vida para cá, no sentido de uma habilidade em transformar um plano “real”, como a de um barco singrando um rio por debaixo de uma ponte de concreto, em um plano metafórico. Ambos os cinemas, de Malick e de Paula, apenas pelo fluxo e agenciamento de planos, abrindo muitas vezes mão da palavra dita em voz alta, parece nos interpelar a todo momento, retoricamente, no ritmo de uma batida carótida longa vinda do coração do mundo: “O que fizemos de nós?”. Há uma espécie de Ostinato em todos os filmes, ou seja, repetições de um motivo (aqui no caso visual) ou de uma frase musical de cunho barroco como explica Arrigo Barnabé no filme homônimo, abertura da Mostra Tiradentes. Seus roteiros (de filmagem) Se hacem camino al andar, para pegar o título de um de seus curtas em que a sua sinopse poderia também valer para qualquer um de seus trabalhos, se considerarmos a palavra “homem” como “humano”. Assim diz a sinopse do média de 35 minutos. Se hacem camino al andar: “Percurso de um homem através do tempo ou espaço infinito”. Neste filme, de pés descalços, ensaia-se um movimento de fundir-se à terra, ao mato. Algo recorrente em praticamente todos os filmes. Fundir-se à natureza, ao vulcão, ao céu, ao mar, ao gelo. À Luz nos Trópicos. Luz nos Trópicos de fato é seu filme mais importante, mais feliz em sua (mesmo que sempre delicada) monumentalidade estrutural e temporal magnificamente elaborada. Catártica surpresa constatar que todas as suas pesquisas ao longo dos anos convergiram para este filme que tem a estatura de um Serras da Desordem ou de The nine muses de John Akomfrah, em que toda civilização industrial e mecanizada é posta em cheque, em que os cantos dos povos negros e originários erguem um edifício mítico capaz de nos dar sobrevida diante da catástrofe ecológica que se aproxima. Em suas entranhas formais, marcas do perspectivismo ameríndio e da prenunciada queda de todos os céus, aqui pelo menos três grandes temporalidades que se entrelaçam com sutileza e profundidade nas mais de quatro horas de duração do longa. Atenção, historiadores do cinema. Josafá Veloso [1] MORAES, Vinícius de. O Cinema de meus Olhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p.62. [2] Cf. Evoé – retrato de um antropófago (2011).

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