Para um filme que consegue manter o segredo

Este texto foi escrito durante a oficina de crítica do FestCurtas BH, ministrada por Kênia Freitas

Um pano preto cobre a lente: vê-se pelas frestas. Vemos o coberto pelas brechas. Assim se inicia Spit on the broom, ou O cuspe na vassoura, em português. O curta-metragem estadunidense dirigido por Madeleine Hunt-Ehrlich, exibido no Festcurtas BH, nos convida a conhecer e desconhecer a United Order of Tents, a mais antiga organização de mulheres negras dos Estados Unidos, existente desde dos anos 1840. Ordem organizada pelas fugas, pelas escondidas, pela margem, Hunt-Ehrlich opta por representá-la pelas bordas.

O coberto segura o visível, que justifica o retrato. Como “Tarcisinho e sua babá”, em Travessia (Safira Moreira, 2019), a fotografia aqui poderia vir de um álbum de família branca, no qual a mulher negra aparece apenas exercendo uma função social. Fotografada por um homem branco, não é vista. Não pode ser acessada. Mas é dentro do pano que o filme se constrói.

Fotogramas do filme Travessia (Safira Moreira, 2019)

Fotogramas do filme Spit on the broom (Madeleine Hunt-Ehrlich, 2019)

O pano é retirado, mas nem tudo é revelado. “A organização das Tendas é tão misteriosa, que é quase impossível obter qualquer informação sobre a organização, sua fundação, idade, extensão, números ou força. A origem da ordem é obscura, ou a reticência dos membros se tornou tão fixa, um hábito adquirido devido aos muitos esforços que fizeram para invadi-la”. O segredo é estratégia de resistência. O escondido é possibilidade de liberdade. O registro é arma contra o esquecimento. A construção da memória é então feita na fronteira. Não podemos saber tudo. Quando há a imagem, opta-se pelo corte do som. Vemos o juramento, mas não escutamos o que dizem: o acesso é controlado e não pode se dar por inteiro. Conhecimento sobre muitas vezes dá a ilusão de conhecimento.

Um espelho posicionado de frente para a câmera, movimenta-se, procurando refletir quem o olha. Espectadores, olhem-se. Como eu me sinto sendo uma pessoa de cor? Como você se sente branco? Eu me sinto reaprendendo a olhar, reinvestigando meus álbuns de família, aprendendo a enxergar agora sem o pano as imagens feitas por outros corpos atrás das câmeras. Eu posso te ver, assim como você pode me ver, assim como nós somos vistos – o encontro. A câmera-encontro, que filma ao lado, dança com o casal, se movimentando em piruetas. Os retratos que nos olham, tiram de nós o conforto do voyeurismo, preservando o controle sobre o escondido, o segredo. Menos de ter certeza de tudo, mais admitir que temos pontos cegos. Representar o irrepresentável: um filme que consegue manter o segredo.

Fotogramas do filme Spit on the broom (Madeleine Hunt-Ehrlich, 2019)

Estudante de Audiovisual na ECA-USP, desenvolve pesquisa sobre diretoras brasileiras na ditadura civil-militar. É organizadora do cineclube Cine Sapatão. É crítica e editora da Zagaia em Revista.

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