Os pássaros de Kafka

(Os primeiros movimentos desse ensaio, O Sentido da Liberdade e O céu-deserto, preliminares da reflexão, já haviam sido publicados na Revista Zagaia anteriormente, os dois últimos, agora, completam a investigação. A imagem proposta, de Marcel Duchamp, é instantâneo da montagem Por que não espirar Rrose Selavy?)

III – Um voo profundo

Um abutre estava bicando os meus pés. Já havia despedaçado as minhas botas e as meias, agora atacava os pés. Bicava-os com ferocidade, circundava-me sem trégua, e continuava o trabalho.


Franz Kafka, “O Abutre”

Não sabemos nada sobre os motivos que levaram o abutre a bicar violentamente o narrador. A história já começa com os ataques deste pássaro. Pode ser que o personagem tenha cometido algum crime contra os deuses, tal qual Prometeu, condenado por ter roubado o fogo de Zeus e tê-lo entregue aos mortais a ter o fígado comido eternamente por uma águia. Porém, em se tratando de Kafka, é bem possível, talvez quase certo, que o narrador não tenha cometido mal algum. O abutre simplesmente chegou e começou a bicar, conforme relata o personagem. A história inteira pode ser resumida em poucas frases. Um abutre que bicava ferozmente os pés do narrador escuta uma conversa entre esse e um cavalheiro. O cavalheiro, com a intenção de ajudar o torturado, se propõe a pegar uma espingarda para matar o abutre. Porém, compreendendo perfeitamente toda a armação para liquidá-lo, em um último ataque fulminante, o abutre arremessa, qual lança, o bico pela boca do protagonista.

O que chama a atenção neste breve conto de Kafka é o ritmo da narrativa, uma capacidade de contar uma história inteira em poucas linhas e estabelecer uma quebra com a lógica das imagens surpreendente. Ao longo da narração, somos levados a imaginar concretamente cenas possíveis, porém, o conto termina com uma abstração, uma verdadeira negação da imagem e provoca a impressão de que tudo que podemos fazer é compreender, mas não imaginar.

Podemos visualizar claramente a figura do abutre a dar voltas pelo céu e investir com seu bico nos pés do personagem principal. Também a conversa entre o narrador e o cavalheiro, conversa em que esse promete pegar uma espingarda e liquidar com o pássaro, pode ser perfeitamente idealizada. Porém a história, em dado momento, impede a possibilidade de representarmos imageticamente o que nos é narrado. É possível até imaginar o voo preciso em que o abutre mergulha dentro da boca do narrador: uma imagem violentíssima. No entanto, as últimas palavras são decisivas para a avaliação do valor deste texto: Caí para trás, aliviado ao sentir que ele se afogava irreparavelmente no meu sangue que inundava todos os abismos, cobria todas as praias.

De maneira surpreendente, o abutre que a princípio parecia que liquidaria o personagem-narrador, até mesmo porque se arremessa após inclinar-se bem para trás a fim de tomar impulso e mergulhar como uma lança o bico pela garganta do personagem, nas últimas linhas do conto, morre afogando-se irreparavelmente. Mas, como imaginar de maneira efetiva um abutre se afogando sem salvação no sangue dentro de um homem? Um afogamento em que o sangue deste homem inundava todos os abismos, cobria todas as praias.

Kafka, ao fim de seu conto, na última sentença, inverte a lógica estabelecida durante toda a narrativa. Não só porque nos nega brilhantemente a possibilidade de compreendermos e representarmos o desfecho final por meio de imagens, mas porque inverte a lógica da violência, estabelecendo no sangue, por dentro do homem, a possibilidade de destruição daquilo que o atacava. Existe aqui uma verdadeira fusão da corporalidade. O inimigo externo, o abutre, se infiltra por dentro do homem após penetrar em voo rápido e certeiro pela boca do narrador. Torturador e torturado identificam-se, ao fim da história, corporalmente, no limite do próprio sangue, e, talvez somente assim, possam compartilhar do mesmo implacável destino.

O personagem-narrador sente-se, de algum modo, aliviado. Ninguém mais lhe bica os pés. O abutre se afogou irreparavelmente dentro de seu sangue. A história, então, pode terminar abruptamente. Mas é claro que, dentro da estrutura narrativa montada por Kafka, a morte do abutre não significa a vida do narrador.

IV – Também é preciso ensinar pássaros a voar

Imediatamente peguei papel e tinta, mergulhei o bico do pássaro nela e escrevi, sem que me fosse imposta nenhuma resistência por parte dele, o seguinte: “Eu, pássaro da espécie das cegonhas, comprometo-me, caso tu me alimentes com peixes, sapos e vermes (esses dois últimos alimentos acrescentei por serem mais baratos) até eu estar apto a voar, a te carregar em minhas costas para os países meridionais.


Franz Kafka, “O Pássaro”

A condição econômica do narrador não permite manter um pássaro doméstico. Ainda mais um daquele porte, da família das cegonhas. Então, se ele faz o sacrifício financeiro, quer, de volta, um retorno do mesmo valor. Quando o pássaro estiver crescido, cevado pelos peixes que o seu dono ofertará, deverá levá-lo para os países meridionais.

O pacto que o narrador faz com a cegonha, escrito com o bico do próprio animal, parece ser completamente justo para ambas as partes – um ajuda o outro. O pássaro quer comida, precisa sobreviver, o narrador quer conhecer o mundo, precisa viver.

É claro que o narrador aposta em demasiado na possibilidade da cegonha de efetivamente levá-lo para viajar pelos países meridionais. Não pelo fato do animal não crescer. Pelo contrário, ele cresce rápido em penas e músculos. Mas, é perceptível a falta de uma mãe-cegonha que pudesse ensinar o pássaro a voar. Para compensar, no entanto, o narrador tem se mostrado um excelente professor (se bem que a seriedade da questão fez com que a cegonha percebesse que deveria se concentrar e se esforçar para aprender a voar).

Os exercícios de voo são feitos na própria casa do narrador. Primeiro, o narrador subiu em cima da poltrona e pulou de braços abertos. A cegonha esvoaçou atrás dele. Depois, foi a vez de fazer o mesmo movimento (sempre com os braços abertos) subindo na mesa e posteriormente em cima do armário. Todos os exercícios de voo eram repetidos várias vezes.

Talvez com a chegada da primavera, ele flutue nos leves ares em direção de um sul radiante. Portanto, tenta ser um bom professor. Pula direitinho da poltrona para o chão, com braços abertos a simular o voo. Não é possível que um homem não consiga ensinar um pássaro a voar? É?

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