OS LACAIOS DA CULTURA

O que assusta no Brasil é que tudo sempre pode piorar. Não somos saudosistas das gestões petistas da cultura. Defenderam por anos o indefensável: a cultura como mercadoria. Muito se podia ter feito para a construção de outro imaginário, e pouco se fez. Se houve algumas mudanças no panorama é pelas migalhas que sobravam no prato. O governo do PT foi o primeiro a apresentar (em nível federal) um projeto de cultura após a redemocratização. Se houve sem dúvida avanços, passaram longe de uma emancipação. E o preço a pagar pelos poucos passos dados foi um consentido silenciamento para as contradições. Discutiu-se muito a produção, o mercado e pouquíssimo a estrutura que se formava e a cultura que se fomentava. Tudo era uma questão de número. Discutia-se mais a quantidade do que se fazia e menos o que se fazia. O Deus mercado pairava e sob a batuta da esquerda institucional fingíamos que criávamos um novo campo para nossa “economia criativa”, sem mexer em nenhuma estrutura. A ditadura nos deixou muitas heranças nefastas. Duas delas foram determinantes: a ideia de cinema como mercadoria e a rede de telecomunicações tal qual conhecemos. Jamais nos livramos destes legados e pouco se avançou nos últimos anos para mitigar suas consequências. A imprensa segue tão concentrada quanto nos anos 70. Até a pouco tempo importantes dirigentes do PT se colocavam contrários à criação de meios de comunicação autônomos à esquerda, focados que estavam (e estão) na linguagem publicitária. Trocou-se formação por empulhação. Discutimos pouco os erros de rumo, ninguém ousava desafinar à esquerda o coro dos contentes, e deu no que deu. Mas se no primeiro ato da farsa da redemocratização do Brasil a ideia de cultura como commodity prosperou, agora migramos para um outro patamar de incivilização: a cultura como barbárie. Neste segundo ato nos deparamos com um novo bestiário: Bestialidade na forma de parasita de um agora ex-ministro da cultura que ataca em uma premiação o homenageado Raduan Nassar por este ser contrário ao governo no poder. Que assume com a naturalidade de coronel a sua posição de mando insultando publicamente um dos grandes escritores da literatura brasileira na condição de ministro da cultura. Bestialidade na forma de suíno de um diretor da Ancine de sobrenome Leitão que se orgulha em dizer que despreza o cinema brasileiro independente e que não contente em perseguir por anos o melhor da cinematografia carioca, agora estende as suas patas para o resto do Brasil. Bestialidade na forma de víbora de um secretário da cultura de São Paulo que ameaça agredir militantes, que corta programas de Fomento e formação que revolucionaram a cultura paulistana das últimas décadas e que persegue abertamente artistas contrários a seu governo. Bestialidade na forma de hiena de um diretor da biblioteca Mário de Andrade que se orgulha em dizer que ocupa seu primeiro emprego aos 53 anos de idade. E que conspurca o nome de Mario de Andrade, grande defensor da cultura popular brasileira, ao assumidamente atacar e desprezar… a cultura popular brasileira, proibindo o samba naquele espaço e declarando odiar o chorinho. Sim, o ambiente nunca foi tão hostil e os horizontes não trazem nenhuma razão para otimismo. É aqui que começamos a construir o nosso terceiro ato: como a cultura pode reagir. Mais do que resistir, como podemos contra-atacar? O primeiro exemplo concreto foi dado quando artistas de São Paulo ocuparam a secretaria da cultura exigindo a demissão do secretário agressor e bravateiro. Uma ação concreta que colocou a discussão sobre os desmandos de sua gestão em primeiro plano e uniu as diversas artes em um mesmo discurso. Vemos por outro lado uma reação dos setores mais conservadores do cinema brasileiro em apoio a André Sturm. E é neste momento em que as máscaras caem que podemos distinguir quem apoia tais políticas e a quem serve uma gestão tão corrosiva. São os mesmos lacaios de sempre, os mesmos que prontamente se prestaram a legitimar o ministério da cultura no pós-golpe, oferecendo seu apoio. Os mesmos lacaios que em nome da arte sempre estiveram servindo ao poder. Alguns deles já estavam lá desde a ditadura e nunca mais deixaram de se utilizar do aparelho do Estado para benefício próprio. É na esfera pública contra a mercantilização da cultura e seus asseclas que travaremos nossa maior batalha. Mas mais do que isso: é necessário que os artistas compreendam que seu trabalho possuirá relevância na medida em que seja independente do poder, seja ele qual for. Uma obra só é grande quando atinge um grau de independência tal que não possa ser incorporada pelas estruturas de controle contemporâneas. Nos últimos vinte anos tivemos com raras exceções uma arte dócil ao poder. Uma arte conciliatória. E isto ficou ainda mais explícito no cinema: filmes que reificavam o ideário de um “Brasil que vai pra frente / De um povo unido / De grande valor”. Do slogan publicitário “deixa o homem trabalhar” aos filmes que glorificavam o empreendedorismo, construímos um país anódino. As exceções, as mesmas do passado (Reichenbach, Tonacci, Rosemberg entre outros), só evidenciam a regra. As poucas vozes dissonantes foram caladas. A crise que vivemos nos coloca o desafio de uma arte livre do falso embate de discursos hegemônicos que se confrontarão nos próximos anos. De um lado a busca de um Éden perdido e redentor que estaria presente nos anos do PT no poder. Do outro lado o discurso moralizador e fascista dos pretensamente isentos da política: lagartos da indústria cultural que em seu discurso “crítico” dissimulam sua subserviência ao capital, demonizando a esquerda e dissociando corrupção e capitalismo. Fora desta disputa a arte há de criar fissuras onde possamos apontar outras formas de ver o mundo e outras possibilidades de construir sentidos. É necessário mais do que nunca recuperarmos nossos horizontes de liberdade.

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