Os Civis Assassinados e as Esquerdas do Poder

Talvez a mais nefasta construção discursiva realizada pela esquerda brasileira em relação ao regime civil-militar seja a dos mortos políticos. A Comissão da Verdade reconheceu como 434 o número de mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura. Respeito muito esses 434 lutadores, que ousaram questionar o regime, seja pelas armas, seja pelas ideias. Mas considero um gravíssimo erro não incluir nesta lista outras milhares de pessoas que foram mortas pelo aparelho repressivo do Estado em defesa dos interesses das classes dominantes. Um homem que é morto pelo aparelho repressivo do Estado porque o contesta é sempre um morto político. Nesta lista deveriam entrar os milhares de indígenas e camponeses massacrados pelos interesses do latifúndio e dos grandes projetos de mineradoras e hidrelétricas, os muitos quilombolas, posseiros e ribeirinhos das mais diversas áreas do Brasil vítimas da repressão em nome dos interesses do grande capital privado, além das centenas de pessoas assassinadas pelos esquadrões da morte e grupos de extermínio incentivados pela ditadura e seus braços financeiros. A criminalização da pobreza é uma das violações mais graves da ditadura e a lógica do inimigo interno se aplicou não só aos militantes de organizações políticas de esquerda, mas a toda a população marginalizada. Se a Comissão da Verdade tivesse se debruçado sobre os dados das diversas matanças ocorridas Brasil afora ao longo do regime de exceção talvez hoje não tivéssemos que ouvir a falsa ladainha de que nossa ditadura matou menos do que outras. Mas a questão central a ser compreendida é porque a esquerda omitiu e omite os crimes da ditadura? Talvez porque tenha feito de seus antigos algozes aliados. O resultado é o que vemos: os dois partidos nascidos da dita redemocratização, PSDB e PT, quando no governo conciliaram com os antigos detentores do poder e se omitiram frente à violência do Estado. Deixaram praticamente intocado o aparelho repressivo, alimentaram a lógica assassina do encarceramento em massa, fizeram vistas grossas aos diversos massacres perpetrados pelos esquadrões da morte e milícias, formados na maior parte das vezes por policiais militares. Prosseguiram as práticas anteriores, perpretadas justamente para que o privilégio dos detentores do capital de explorar, subjugar e massacrar corpos das classes vulneráveis permanecesse intocado. E pior ainda, os grupos que conciliaram com o passado ampliaram este aparelho repressivo: ocupações do exército em favelas (UPPs), aumento substancial da população carcerária e, mais recentemente, o projeto de lei “anti-terror” são alguns exemplos de como, após a chegada ao poder, estes grupos passaram a defender as mesmas bandeiras que um dia condenaram. Só uma plataforma de desencarceramento e desmilitarização, de combate sistemático as máfias do aparelho repressivo e aos grupos de extermínio e uma política consistente de esclarecimento e investigação das mortes, desaparecimentos e massacres cometidos na democracia e na ditadura pelo Estado brasileiro será capaz de começar a desarmar a sociedade fascista, criada em 1964, que nunca deixamos de ser. Para isso, a esquerda tem que reconhecer as suas culpas: abandonar a prática conciliatória e acusar o Estado por seus crimes. Todo crime cometido pelo Estado em defesa de privilégios de uma classe dominante é um crime político. O Estado contemporâneo brasileiro traz em sua gênese uma lógica genocida. Só combatendo-o poderemos chegar a uma sociedade jmais usta. É preciso romper com a lógica fascista e desumana do mutismo frente à democracia dos massacres.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *