Ocupar contra a barbárie

Muito se fala do protagonismo juvenil como determinante para as novas formas de ensino e aprendizagem. Pouco se escuta do jovem a respeito disso. Entre especialistas de diversas matizes, sobretudo vinculados ao campo empresarial, é recorrente o discurso de que vivemos em uma escola do século XX com conteúdos do século XIX. Daí a consequente resposta de muitos desses grupos, de que o protagonismo juvenil se realiza em uma escola conectada às novas tecnologias e com conteúdos flexíveis correspondentes às vocações juvenis. Para eles, trazer à escola esta nova realidade passa a ser a resposta-chave para diversos problemas da educação no Brasil, sobretudo, a evasão dos jovens no ensino médio. Com a narrativa de uma crise resolvida nesses termos, a MP 746 surge como a salvação da lavoura. Pouco se escuta do jovem a respeito disso. Nas audiências públicas na Câmara dos Deputados, o protagonismo juvenil foi silenciado em diversas ocasiões. Desde a expulsão desses jovens no salão dos deputados até mesmo a proibição pelo Sen. Renan Calheiros da presença de entidades representativas dos estudantes, como a UNE e a UBES. Nas ruas, e fora dos holofotes que fazem da Medida Provisória um grande freak show da barbárie, o protagonismo juvenil é silenciado sob a ameaça da polícia e de grupos neoconservadores que confundem o direito social da educação com o direito privado dos valores familiares, para dizer o mínimo. As escolas (e universidades) ocupadas, em diferentes localidades e com diferentes estratégias, passam a ser alvo de diversos meios de silenciamento juvenil. Desde ordens judiciais pelo patrimônio público até a violência policial branda ou direta. A ação do Ministério da Educação no inexistente diálogo com o movimento, reproduz o tom de guerra utilizado por Fernando Padulla na gravação vazada no primeiro período das ocupações, e usa da estratégia sórdida de culpabilizar as ocupações pela destruição dos mecanismos de acesso à universidade pública, como o ENEM – ação que a própria burocracia faz desde seus primeiros dias no poder. Paralelamente, uma pretensa onda conservadora procura mobilizar a juventude contra a contestação da ocupação. Tentativas violentas de forçar a saída dos estudantes mostram a que vieram esta nova faceta da ausência de política. Mais do que nunca, o poder conservador se faz não sob a mão totalitária do Estado, mas sob a forma de gangues, cuja única lei é o domínio de seus territórios. Daí as inúmeras formas de silenciamento e violência perpetuadas nos movimentos contra as ocupações. São gangues de diversas matizes, das mais próximas da violência extrema e extermínio do próximo às aparentemente mais brandas com a voz dos consultores da educação que, não ocultam, representa os interesses de um novo ciclo de acumulação econômica e gerenciamento de crises. Cabe um acordo entre mafiosos para silenciar qualquer protagonismo juvenil que não corresponda à narrativa que eles próprios criaram sob a forma da reforma educacional. O ensino da escola pela violência Volto a repetir: muito se fala do protagonismo juvenil sem ouvi-los. Sobre isso, uma enquete interessante da UNESCO, UReport Brasil, pode expressar muito das inquietações dos jovens nas ocupações. Trata-se de uma pesquisa feita através das redes sociais em que os jovens cadastrados respondem a uma série de questões de temas variados. Recentemente, o tema escolhido foi a evasão escolar. No caso brasileiro, salta à vista que a grande parte das respostas (38%) indica a violência como o principal fator de evasão, seguida de problemas com a “infraestrutura” (26%) e “transporte” (26%). Ouvir estes números é ouvir o protagonismo juvenil ecoando nas ocupações. Refinando o significado da violência, encontramos muitos dos temas tratados nas rodas de conversa das ocupações. Além da necessidade de trabalhar (49%), não deixa de ser significativo que violências como “discriminação” (19%), gravidez (18%), bullying (9%) e violência familiar (4%) tenham sido as respostas para a questão “O que leva a galera a sair da escola?”. Um discurso recorrente dos educadores vem a caracterizar o jovem que evade da escola como o jovem “nem-nem” (nem estuda, nem trabalha). Diante dos dados da U-Report, tal caracterização passa a ser questionável. Não é o desinteresse do jovem pelo conhecimento ou pela vida social no mercado de trabalho que afetam os índices de evasão. Tal caracterização, aliás, lembra os mitos neoliberais que justificavam seus altos índices dos fins dos anos 1990 através do tipo social do “inempregável”, aquele que é inadaptável às novas formas de trabalho. Pois bem, contrariamente a estas explicações míticas, ao ouvir o protagonismo juvenil em dispositivos como a U-Report, encontramos outras respostas e, também, outras ações que ecoam nas ocupações das escolas. É o olhar sobre a violência que deve ser determinante para entendermos movimentos como esse. Não é raro que a escola desça de seu discurso esclarecido e faça da educação um ato de violência. Toma do Estado o monopólio da violência em diversas formas e ensina num ambiente de pura destruição como formas de políticas institucionais mais variadas: entre professores, entre alunos, entre gestores etc. Sobre isso, é contrastante as inúmeras histórias das ocupações e seu passo seguinte, a escola pós-ocupação. Nas ocupações, quais os temas discutidos? Segundo o livro Escolas de luta, não foram poucas as oficinas sobre questões étnicas e de gênero, desmilitarização da polícia, além das políticas de educação e novas formas de pedagogia. Tais questões não vem à tona por serem polêmicas da moda. Mas por marcarem na pele a violência do cotidiano escolar. Havia nessas rodas de conversa algo que impelia para soluções político-pedagógicas que evitassem a barbárie que as escolas se tornaram. O contraponto do “pós-ocupação” mostra tudo o que as ocupações procuraram (e procuram) evitar. Não são poucos os relatos de perseguição por parte das secretarias de Estado sobre os apoiadores e os secundas da ocupação. Estratégias sórdidas de micropoderes que seguem desde o uso da burocracia para impedir a continuidade do secundarista nos estudos até a mais pura violência de lançar estudantes e professores contra estudantes e professores. Soluções que implicam em mais-repressão, o tipo de violência mais do que exagerada para manter o sistema de controle. Muitos são os relatos de secundaristas que viveram o inferno após a ocupação, de tentativas frustradas de projetos que levassem adiante as reivindicações dos ocupantes por uma nova escola, em que a violência não fosse o principal mediação com o conhecimento. Sob a marca da violência, qual conhecimento é possível de ser produzido? Que protagonismo será possível? Com essas questões, as ocupações carregam consigo um projeto político-pedagógico valioso. Pois não se trata de um discurso da vítima, mas um ato de educação, buscando as raízes dessa violência nos perseguidores e não nas vítimas, reconhecendo os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos, como indica Adorno numa educação após Auschwitz. É isso que muitos gestores, professores e estudantes que perpetuam a violência no cotidiano escolar (e fora dele) temem encontrar quando enfrentam as situações da ocupação. As ocupações mostram a violência de seus atos. Caem as máscaras da educação “por amor” e aparecem as faces da mais pura brutalidade. Silenciar esta denúncia é o que mais deseja uma educação que apenas aprende a violar as potências de dispositivos poderosos de ensino-aprendizagem. Por isso uma reforma por medida provisória, por isso a narrativa de um pseudo-protagonismo jovem já organizado na forma narrativa do sujeito que, empresário de si mesmo, traça suas escolhas no cardápio oferecido e vive com suas frustrações e angústias futuras. A empresa é a forma social mais acabada da violência. Contra isso… a estratégia das ocupações que em um ano de movimento trouxe mais reflexão para as práticas de ensino do que tantas reformas vazias e violentas. Um pensamento sobre o comum, uma ação contra a barbárie.

O impossível como aquilo que está por vir. É o olhar sobre os impasses, sobre as vias das transformações, sobre a utopia como método crítico que mobiliza nossos ensaios, nossos descaminhos e nossas práticas. Uma aventura por labirintos e trincheiras. Silvio Carneiro, responsável pela coluna, é professor de filosofia da UFABC e pesquisador do NEXOS: Teoria crítica e pesquisa interdisciplinar.

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